Não. Não vou falar do livro de Michel Tournier “Vendredi ou la Vie Sauvage” na versão original, que muitos tiveram a oportunidade de ler nas aulas de francês, aquelas aulas em que tínhamos medo que a professora nos mandasse ler parte da obra devido ao calibre de ”panilhage” que adquirimos quando pronunciamos qualquer palavra na língua de Molière. Vou falar da quarta-feira, ou seja, da vida selvagem.
O que é que a quarta-feira tem a ver com a vida selvagem? Lá chegaremos. Vamos antes de mais à quarta-feira.
Normalmente, na nossa mente, associamos determinadas cores ou formas às palavras que são ditas ou que pensamos. Em relação aos dias da semana não tenho dúvidas quando ao sábado ou ao domingo. O primeiro é um rectângulo azul claro e o segundo é um círculo amarelo. Mas a quarta-feira… é um dia que nem é bom nem é mau, quer-se dizer, é como o apêndice. Está lá e mais nada, nem se sabe ao certo para que serve.
Não sei especificar ao certo a sua forma mas imagino um emaranhado de traços castanhos, a fugir dos traços pretos da segunda e dos cinza da terça, a meio caminho dos traços amarelo-torrado da quinta, e o triunfal azul-escuro (nocturno) da sexta, aliás, o auge da semana fica mesmo ali, entre as seis da tarde de sexta e as duas da manhã de sábado. Um perfeito cubo azul-escuro. Diz que entre as duas da manhã e as oito de sábado também há esse cubo azul. Não sei. Normalmente a partir de uma certa hora vejo o cubo um pouco distorcido.
Voltando à nossa quarta-feira, contínuo sem discernir a sua forma exacta tal como o faço com outros dias e por isso vou tentar alargar o meu estudo a outros campos. Vamos tentar a via emocional. Qual a sensação que me transmite a quarta-feira… Acho que é esta:
Continuamos na mesma. Tudo neutro.
No campo sexual a quarta-feira pode ser equiparada ao momento em que se pára para meter o preservativo. Neutro.
No desporto a quarta-feira é o intervalo. Neutro.
Se é neutra em tudo…
Chego à conclusão de que a quarta-feira talvez tenha esta forma:

Um país onde grande parte da população vive actualmente numa permanente quarta-feira, com uma atitude neutra, passiva, adormecida.
E, enquanto aquele que tem nome de filósofo (apenas o nome) e a sua trupe tecem mil e uma maneiras de manter o povo na eterna quarta-feira, afastando a todo o custo a possibilidade de uma libertadora noite de sexta, cá vamos andando.
Acríticos como as espécies mais selvagens.
Neutros como uma quarta-feira.


