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quarta-feira, 8 de julho de 2009

pessimismo negativista

[1723]

Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria
mais tolo do que tenho sido.
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Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais
sorvetes e menos lentilha, teria mais problemas
reais e menos problemas imaginários.
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Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
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Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia a parte alguma sem um
termómetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva
e um pára-quedas e, se voltasse a viver, viajaria mais leve.
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Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no
começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida
pela frente.
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Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo...
.
.
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ao que parece a viúva de jorge luis borges diz que este poema não é do escritor. ainda assim deixo-vos este poema porque as palavras não têm dono.
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terça-feira, 14 de abril de 2009

zöe [18]

[1644]

escrevi um poema mas guardei-o.
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não para mim que não preciso ouvir-me
repetir os meus desejos.
recolhi as palavras para a escuridão que
acalmarão com o tempo o coração desenfreado.
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escrevi um poema e guardei-o. para ti.
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segunda-feira, 13 de abril de 2009

fontes de inspiração

[1643]
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julgo que não andará longe de estar esgotada a minha tarefa na poesia. e nota-se por isto, fontes de (pouca) inspiração, no sítio do costume.
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quarta-feira, 11 de março de 2009

zöe [11]

[1578]

Para mim o
amor
fica-me justo
.
Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro.
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Maria Teresa Horta, Só de Amor
via [abnoxio]
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terça-feira, 10 de março de 2009

zöe [10]

[1576]

tenho estado a esculpir as letras
(lascando o ébano para as definir)
procurando nas faces do limite
as sílabas do teu nome.
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queria construir um monumento
(sobrepondo as letras polidas)
para ilustrar à mão pesada do lustro
a afinidade da parte com o teu todo.
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talvez posta aos pés da minha cama
(no breu da noite insensata)
a luz do sonho incida sobre esta imagem
reflectindo a silhueta do teu corpo.
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segunda-feira, 9 de março de 2009

zöe [9]

[1575]

quando eram as cordas suspensas
nos rios
quando eram as ruas suspensas
nos trilhos
quando eram os sonhos suspensos
nos fios
quando eram os olhos suspensos
nos lírios
.
eram só rios e ruas e sonhos e olhos
balançando nos ventos lentos dos lírios.
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terça-feira, 3 de março de 2009

escolhas acertadas

[1561]
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como sabem, escolho uma obra todos os meses como convidado pelo blog fontes do ídolo. assim, e como este mês é a vez da poesia, decidi escolher estas duas obras da simpática ana salomé.
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............. ´
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as minhas palavras não seriam as melhores para definir a sua poesia, por isso (e abusivamente porque recebi hoje por mail a sua aprovação literária) usarei a definição do colega do blog (e mestre em literatura pela universidade católica), para vos ilucidar sobre o poder da escrita da ana,
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" [...] estamos perante um caso sério de capacidade em habitar outros mundos com a quotidiana visão do dia-a-dia. Como se também a transparente água pudesse ser obscura e densa neblina. "
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

zöe [2]

[1547]

estava farto das metáforas
até nos ver de novo em dois cisnes
abraçados no meio de um lago.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

zöe

[1545]

queria dizer amor. mas as palavras
vão-se eclipsando antes de sonorizarem
esta vontade.
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palavras prensadas nos lábios
entre línguas seguras por paliçadas
em que se vão erigir as praias do teu verão.
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queria dizer amor. mas já não há
cor cinzenta que arranque esta
maldade do meu peito.
.
palavras que se entranham nos dedos
ao reterem a força dessa verdade.
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mas é amor que queria dizer-te.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

w. b. yeats

[1522]

desde o filme galardoado com mais óscares no ano passado, cujo título do filme (e do livro de cormac mccarthy) foi retirado de um poema do escritor irlandês, que estou curioso com a sua poesia.
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[para quem não conhece o poema, ele chama-se "sailing to byzantium" e começa com a lapidar frase "That is no country for old men." ]
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acontece-me voltar a este tema, porque o livro que estou a ler tem um título que foi - mais uma vez - inspirado num poema do mesmo escritor. o título o animal moribundo, de phiplip roth (autor que começo a venerar), foi inspirado no seguinte poema,
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death
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Nor dread nor hope attend
A dying animal;
(título original)
A man awaits his end
Dreading and hoping all; [...]
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se me fosse possível escrever um romance tão próximo quanto possível da qualidade de roth, ou no mínimo com a profundidade acutilante da sua simplicidade narrativa, optaria por este, "The Four Ages of Man",
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Com seu corpo travou um duelo;
Mas o corpo venceu; anda erecto.

Então lutou com seu coração;
Paz e inocência pronto se vão.

Em seguida lutou com sua mente;
O altivo coração pôs-se ausente.

Agora a guerra com Deus começa:
Meia-noite em ponto, que Deus o vença.
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na falta de arte e engenho, contento-me em pensar no que poderia ter sido um bom livro, a começar por um bom título. algo que no fim da minha vida me deixe um travo amargo que ficará próximo de um "tudo o que não escrevi" de eduardo prado coelho, ou análogo a "os livros que não escrevi" de george steiner . algo que se assemelhe ao velho ditado popular, de vitória em vitória, até à derrota final.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

o trigo do joio

[1449]

sempre treparam pela corda da tua beleza
arrombando a entrada da tua morada
por uma das tuas janelas mais incautas e desguarnecidas.
.
nunca tiveram a humildade de bater na tua porta principal
e esperar que a abrisses.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

2009 [9]

[1445]

penso: talvez o mundo seja um ano de glória dado a cada um. talvez o homem se vista de destino e cumpra o seu desejo numa só jornada.
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penso: talvez este ano seja um bom ano para acordar de mim e seguir o teu trilho. talvez me tranquilize apenas em seguir os teus passos.
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Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
.
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei aos jardins do paraíso
.
Cá fora à luz sem véu de dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
.
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
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Sophia de Mello B. Andresen
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

há filisteus no deserto

[1400]

ou os caminhos cíclicos do entroncamento da literatura.
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" [...] Fazes o caminho que só se pode fazer sozinho e de noite, pois todos temos um portão e um jardim para atravessarmos, sozinhos de noite, debaixo e sobre e entre o medo [...]"
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nenhum olhar (bertrand), josé luis peixoto, pp. 82
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" [...] vou buscar o meu coração. guardei-o aqui
algures e, por ti, tenho a certeza, vale a
pena voltar a encontrá-lo e correr todos os
riscos de novo. [...]"
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folclore íntimo (cosmorama), valer hugo mãe, pp. 20

domingo, 14 de dezembro de 2008

a babel do estonteante mundo novo

[1398]
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o que mais gosto no inverno é o frio. hoje gosto menos, é verdade. entranha-se mais nas carnes ao de leve e instala-se rapidamente, entornado com uma força incontrolável, como se descesse lentamente até chegar aos pés (e depois dos pés frios ninguém está sossegado). sofro mais agora, neste adiantar da idade, de tal forma que já não sei se gosto assim tanto do frio do inverno.
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só com muito esforço vocês entenderiam o que esta introdução teria a ver com o resto do texto. é que isto aconteceu-me por estar aqui parado em frente ao computador. já procurei a mantinha que vai disfarçando este mal estar. já aproximei o radiador dos pés e nem assim consigo relembrar que um dia fui jovem (a minha mãe diz que deve ser da circulação)
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vale que vou lendo uns textos dos blogs de eleição antes de regressar aos meus companheiros recentes, nomeadamente este, e este (em boa hora fiz a assinatura) recentemente recebido em casa.
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o companheiro atento e já citado aqui algumas vezes, anuncia um novo cantinho a ler (e li o blog do principio ao fim). para além de não deixar de recomendar vivamente, devo retemperar forças porque há algumas coisas que nos deixam do avesso. algumas das palavras escritas pela autora, deixaram-me a pensar nos limites que temos de quebrar para tentar melhorar o que escrevemos. se por vezes o realismo me surpreende quando chega em escritos condizentes com a qualidade exigível, o patamar da poesia (ou da prosa-poética) que se desloca entre herberto e al berto (é o caso dos dois bloggers, curiosamente), feito de duras metáforas de sangue, não me permitem ver com clareza o caminho que quero percorrer (apesar de escrever para guardar no caderninho). e neste momento desculpo-me muitas vezes por não procurar desbravar certos caminhos que já deveriam ter sido calcorreados. na poesia é preciso ler tudo, tentando descobrir o destino das palavras que procuro, sendo que o prazer de as escrever deve ser o primordial objectivo. nisto de pegar nas cartas, baralhar e dar de novo (não há muito que não tenha sido dito) obriga-nos a estar numa vanguarda do nosso próprio conhecimento.
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agora retiro-me para um lugar mais quente (físico) e deixo-vos umas palavras que guardei da autora,
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

auto-objurgação [7]

[1362]

" Quero que saibas
uma coisa.
.
Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.
[...]
Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.
.
Mas se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se em cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha,
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus."
.
Pablo Neruda
.
roubado daqui

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

(re)citações

[1339]

do comum dos mortais
.
certas coisas
.
certas coisas que nós suportamos
não nos dizem respeito,
e nós lidamos com elas
devido ao tédio ou ao medo ou ao dinheiro
ou à pouca inteligência;
a nossa vontade e a nossa esperança
cada vez mais pequenas, [...]

.
charles bukowski
versões de manuel a. domingos
do blog [o amor é um cão do inferno]

(re)citações

[1338]

dos amantes

o início
.
quando as mulheres deixarem
de levar espelhos
para todos os lados
talvez nessa altura
elas possam falar comigo
sobre
libertação.

.
charles bukowski
versões de manuel a. domingos
do blog [o amor é um cão do inferno]

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

(re)citações

[1322]

Esta gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

eremita

[1247]

desceste a esse inferno
mascarado de solidão
tão forte como um peito aberto
.
e
.
nesse signo de vida cinzenta
és o sangue do meu coração
teu eremitério.

gira o sol

[1246]

os girassóis
.
Assim fremente e nua,
a luz só pode ser dos girassóis.
Estou tão orgulhoso
por esta flor difícil ter entrado pela casa.
É talvez o último verão,
tão feito de abandono é o meu desejo.
Mas estou orgulhoso dos girassóis.
Como se fora seu irmão.
.
Eugénio de Andrade (A Religião do Girassol)
in Poemário Assírio e Alvim 2008