segunda-feira, 24 de novembro de 2008

será esta a janela?!


auto-objurgação [9]

[1364]

no campo da batalha que se torna o amor, o discurso feminino assume traços estratégicos pouco decifráveis. é uma espécie de semiótica feminina. há sinais evidentes que nos mostram a necessidade de conhecer por dentro a arte de guerra. há nelas um certo discurso encriptado (por necessidade táctica de defesa).
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a desconstrução do enigma passa pelo domínio da hermenêutica da suspeita. é que se a felicidade está a um pequeno passo, a desgraça está a uma distância ainda menor.

auto-objurgação [8]

[1363]

o amor é uma guerra fratricída em que a tarefa mais difícil é a desminagem da estrada principal do coração.
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auto-objurgação [7]

[1362]

" Quero que saibas
uma coisa.
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Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.
[...]
Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.
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Mas se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se em cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha,
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus."
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Pablo Neruda
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roubado daqui

domingo, 23 de novembro de 2008

auto-objurgação [6]

[1361]
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tantas palavras para dizer que me reprimo na via que uso para ser feliz. não é no fim em si que ela se encontra, mas no meio para lá chegar. e todos os meios justificam este fim.
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sábado, 22 de novembro de 2008

auto-objurgação [5]

[1360]

também me sinto menor ao escrever estas crónicas semanais. é como dizia o mec,
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"É ultradeprimente estares sempre a ler coisas muito melhores do que alguma vez vais conseguir escrever."
(vide a mesma e repetidas vezes citada revista ler, pp. 36)

Olha aí um grande filme!

O Eu, a arte e o tempo. A relação entre estes três aspectos da nossa existência tratada com extrema simplicidade numa comédia simplesmente brilhante.

Para quem acha a filosofia uma trêta e continua pouco motivado para o filme, posso-lhes garantir, no mínimo, umas 10 gajas nuas (no filme, claro!), o que não estraga o nível do filme. É uma nudez explícita, sem censura, mas com classe!

Let's look at the "treila"

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

crime ou castigo

[1358]

simples como o sol que semeia amarelo nos campos de milho em setembro. depois deste vídeo vou,
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"[...] voltar ao mundo
após uma curta eternidade, já sereno
voltar de novo ao mundo [...]"
via [nu singular]

auto-objurgação [4]

[1357]

se te deprimes, por manifesta falha química do hipotálamo, ou simplesmente porque não ingeres suficientes doses activas de serotonina, é porque vês a vida como a elis regina, na sua música sou caipira

" [...] descasei, joguei, investi, desisti. se há sorte, eu não sei, nunca vi [...]"

(um portento diga-se). mas não julguem que o chocolate - todo ele pejado da milagrosa substância- trará o segredo e a solução. pode até ser contraproducente (alarga as ancas, se bem me entendem as mulheres).

auto-objurgação [3]

[1356]
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há uma flor num canto deste país que me prendeu aos seus encantos. depois de a apanhar, caminhei vezes incalculáveis a arrancar uma a uma as suas pétalas. desmistifiquei a crença infantil de que o bem-me-quer acaba sempre nas nossas mãos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

auto-objurgação [2]

[1355]
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costumo dizer que vivo sem expectativas. é um mecanismo virtual que fui aperfeiçoando com os anos. foi fruto de vicissitudes várias, umas naturais e aceitáveis (à luz desta mesma perspectiva actual), outras mais fictícias, arrastasdas para as nossas vidas de forma voluntária. por sinal é fácil aprender com a experiência quando criamos formas de nos defendermos da dependência de excitação e vitórias.
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corremos o risco desnecessário de nos tornarmos despegados do sabor da alegria desmesurada (e é tão bom sentir isso), mas também nos desprendemos de disabores dispensáveis. com o passar do tempo, o sistema torna-se um vício - e nisso eu sou um às - de tal forma que inadvertidamente te enredas nos meandros do sistema criado por ti.
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podes mesmo perder a noção de que há sinais evidentes que mostram o domínio do sistema sobre ti. o mecanismo endémico, quase como um sistema imunológico anti-felicidade, vai dominando a percepção que tens de ti mesmo.
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quando deveríamos estar a festejar uma vitória, sentimo-nos impelidos a conter essa emoção. como se prevíssemos que a lei de murphy actuará a qualquer altura sobre nós. perdemos o momento. e ele nunca mais volta.
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agora que analiso esta minha teoria (aplicável apenas e só a mim) admito que de certa forma não é mau ter este sistema activo. é que num passado recente, admitir que o futuro iria melhorar a olhos vistos - como se fosse possível existir uma panaceia para isto -, correu muito mal. amanhã o lugar comum será o da catarse. e prometi um presente a mim mesmo, serenar debaixo do sol de inverno. e até os pombos dos clérigos me farão feliz. palavra de honra.
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(ressalvo que, apesar da promessa, a lei supra citada continuará a existir, embora eu me tenha concentrado noutra, mais especificamente nesta, sendo que compreenderão que um dia o acontecimento tentado acontecerá. veremos qual das leis é mais forte.)

Tudo tão perto

Hoje de madrugada estivemos perto de vencer o Brasil. Estivemos a 90 minutos. Não fosse o descalabro dos 81 minutos restantes da partida e teríamos ganho à "canarinha".
Assisti apenas a 30 minutos do jogo, não posso afirmar se jogamos mal, muito mal ou pessimamente! No entanto, as vozes indignadas que vociferavam "cobras e lagartos" sobre jogadores e treinador, que ecoavam na normalmente pacata pastelaria onde tomo o meu café matinal, faziam-me acreditar que uma vez mais a equipa de todos nós tinha sido uma desilusão.
Mas as conversas não versavam apenas sobre futebol e num diálogo bem mais tranquilo, um casal dissertava sobre os reais problemas dos Portugueses. Num tom de voz que transmitia segurança, o senhor X afiançava à sua companheira estar em posse da solução para a crise.
- Eu se fosse o Primeiro-Ministro tinha solução para esta crise! - afirmou.
Afinei de imediato os receptores auditivos, sim, porque afinal a solução para a crise não é o remédio que todos desejamos obter? E estava ali tão perto.
- Tens? Como? Que fazias? - perguntou curiosa a senhora Y.
- Tenho! É tão simples! - e olhando para o relógio prossegui - Marcava uma reunião com os Ministros todos para as 10 horas...
E naquele preciso instante em que ia ser divulgada a resolução da crise, surgiu a empregada de mesa, que deixando cair sobre a mesa os cêntimos restantes, interrompeu a reunião preparatória do Conselho de Ministros que se avizinhava... Os dois levantaram-se e com eles levaram a solução da crise. E não é que ela esteve ali tão perto!
As conversas sobre o futebol continuaram e ao que parece a crise também!!!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

auto-objurgação

[1353]

é um dia que depois do outro se revela insensato. é a difícil tarefa de gerir uma torrente inexaurível. como se afastar a vontade do meu corpo permita à mente respirar um ar saudável. recorro a essa forma fictícia de criar um mundo em que me afirmo como indiferente. é o palco em que a vida nos obriga a representar.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O meu mal é ter uma curiosidade de puta...

Comecemos pela citação supracitada, pertence ao mais sardónico e provocador escritor da actualidade (Miguel Esteves Cardoso) que deu ultimamente duas preciosas entrevistas (Vide revista Ler nº74 e revista Sábado nº235) e eis algumas das suas frases lapidares:
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Sobre Saramago:
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Acho os livros de Saramago mal escritos, no sentido de serem convencidos da sua própria grandeza. É uma éspecie de declaração ao mundo. A importância dos livros só se verifica muito tempo depois.
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Sobre os romances best-seller de Miguel Sousa Tavares:
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Não li (...) Não vou ler. As coisas que tenho para ler são tantas que não tenho tempo nem paciência para ler ficção portuguesa. Para além disso, não quero ler porque me vai chatear.
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Sobre os escritores ensombrados pelos defeitos e vícios da humanidade (Gunter Grass e o seu fascínio pueril sobre o totalitarismo ou Milan Kundera como potencial covarde delator):
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Isso é uma vertente humana (...) Mas isso, por amor de Deus, não tem nada a ver com a obra. A obra é uma coisa que fica. Se tirarmos os filhos da puta da literatura e da pintura ficamos com nada. Se se tirarem os bêbados fica-se com zero. Se deixarmos só os livros feitos por pessoas que se portavam bem, tratavam bem a mulher, eram bons amigos e pagavam as contas a horas, ficamos só com merda.
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Sobre o seu novo período (de absentismo alcoólico e de substâncias psicotrópicas) mais saudável :
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Eu hoje não tomo nada. Nem para dormir. Para mim, deitar-me à noite sem comprimidos era impensável. Parecendo que não, é um bocado javardice tu deitares-te à noite sem comprimidos. Pareces uma besta sadia. Pareço um matarruano. Eu agora durmo e sabe-me bem.
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Sobre Ricardo Araújo Pereira:
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É o cronista mais talentoso da sua geração. Ele é escritor, um actor e um pensador.



O amor, a Pátria, a amizade, o sangue, o pão. É nestas coisas que acredito. Isto é mesmo verdade.
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(Miguel Esteves Cardoso, As Minhas Aventuras na República Portuguesa)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

requiem a uma alma

[1351]

quem procura a fé
através da ciência,
escolhe o caminho mais difícil.
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mas
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em não sendo o único válido,
é por certo o mais
recompens(a)dor.

Propaganda?

O Segredo (afinal era este)!


A Democracia dos Números

Quando a governação de um país se baseia no bem estar das estatísticas e não das pessoas, o ser humano transforma-se num número, condenado a ser apenas isso, um mero caracter no teclado dos computadores do sistema burocrático.

Assim:

As escolas são apresentadas como grandes centros tecnológicos, somando todos os computadores e quadros interactivos de todas as escolas temos um grande número de meios tecnológicos por escola. Fantástico. Na realidade há escolas que têm computadores e quadros em excesso e outras que não têm nenhum. Mas a estatística é que vale.

As taxas de reprovação no ensino em Portugal são cada vez menores. Fantástico. Na realidade é cada vez mais difícil chumbar um aluno por falta de aproveitamento ou até por indisciplina. Este governo prepara-se para acabar com os chumbos, pelo menos até ao 9º ano. Daqui a uns anos, quando estes meninos que passam sempre, mesmo sem saberem nada, chegarem à idade adulta, teremos uma população "altamente especializada". Bom, terão canudos na mão mas quanto ao resto... Mas a estatística vai dizer que em Portugal o ensino está a fazer um excelente trabalho.

Os professores com menos de cinco anos de serviço terão de fazer uma prova a eliminar quem não passa. A universidade atestou a nossa competência ao dar-nos um curso, muitos de nós passaram no estágio, o que constitui mais um atestado de competência. Mas não chega. A prova é a eliminar, o que significa que muitos poderão ficar para sempre inibidos de dar aulas e por isso deixam de contar para o número de professores desempregados. Lá está a estatística daqui a uns anos a dizer que vivemos no paraíso. Acabou o desemprego entre os professores.

Afinal para que serve este tipo de estatística. PROPAGANDA meus amigos, e assim o Sr. Engenheiro vai tapando os olhos da maioria com areia, tanta areia que até parece que é todos os dias segunda-feira de manhã.

Não escrevo PROPAGANDA com o R ao contrário mas bem o poderia fazer. É que isto cheira-me a qualquer coisa...

domingo, 16 de novembro de 2008

Luis Franco Bastos

Este é que vai ser um verdadeiro artista...

http://www.youtube.com/watch?v=lbmqGmqmF1s&feature=related

(vale a pena!)

sábado, 15 de novembro de 2008

a midnight valium for a good night sleep * [2]

[1346]

não é que seja propriamente uma " [...] espelunca favorita de jazz no harlem [...]". é um espaço mais rural, sem luzes carregadas com neons garridos, sem a azáfama da big city, sem os delírios da cidade que nunca dorme. é mais pessoal o atendimento. há clientes que se conhecem há muitos anos, noctívagos de traços influenciados por noites perdidas na crença de encontrar um momento sublime de improviso. é a minha noite de jazz.
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até pelos traços da arquitectura se nota que o ambiente jazzistico vem de dentro para fora. só o som pode ornamentar esta casa com o requinte necessário ao ambiente equilibrado para a música. as bebidas são modestas - etilicamente falando - licores ou vinhos clássicos. só uma bebida tem um sombrero e do resto não sobra mais que atenções voltadas ao palco.
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desde que se proibiu o tabaco que os ambientes se tornaram mais respiráveis, os espaços menos carregados e a música começa a fluir mais naturalmente. são horas seguidas de improvisações de guitarras, solos de bateria do mais velho, rasgos de palmas aos milagres da destreza manual. e o público pede mais, vai cantando seguindo o apelo do cantor, vai-se impacientando esperando por mais um passo de mágica, como se o soul, jazz ou blues, se tornassem num hino de libertação. por entre as conversas das mesas entreabre-se a satisfação, há sorrisos animados, um casal ao canto mais recatado, e os mais velhos absorvem o ambiente como se para eles o tempo fosse mais urgente, como se para eles os dias de animação fossem uma emergência.
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aos poucos a noite fria vai quebrando a gente ao espaço. a hora avança e a partir daqui todos se atrevem a arriscar umas notas. a minha vez chega para cantar uma versão jazz de chico fininho. garanto-vos que se entranha em nós a melodia e vamos seguindo por intuição a tonalidade.
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é a minha homenagem ao chiquinho da bateria. é o velho que se entretém por aqui por paixão à música. é um baterista firme com parkinson.