episódios da vida rural
comecemos pelo princípio.
não era mais fácil que começar uma história de duas pessoas pelo princípio. contudo, o início da relação destes dois não pode ser contada do seu princípio, mas antes do seu começo.
foram apresentados numa festa de amigos comuns, e a discussão azedou um pouco quando os elogios a saramago de um lado, e a lobo antunes do outro, tornou evidente que eram pessoas de opinião vincada e que dificilmente seriam mudadas. terminaram a noite de costas voltadas e nem se despediram no final.
só um mês depois desta festa, se encontraram por acaso numa repartição de finanças local, quando ambos se preparavam para apresentar a declaração de rendimentos. em ambos surgiu um sorriso desarmante como que assumindo a infantilidade da discussão que os separou naquele dia,
bom dia, suponho que posso acompanhar a menina para não ter de aguentar esta fila enorme em solidão.
claro que sim, julgo que nossa discussão foi um pouco despropositada e desmesurada, e peço desculpa pela minha atitude.
ora essa, eu é que peço desculpa, não me parece que Saramago mereça esta desavença.
concordo consigo
contigo, trata-me por tu.
seguiram assim durante uma hora, a conversa animando, ambos falando sobre as suas tarefas, longe do clima crispado em que se tinham conhecido.
(as intricadas anomalias dos fusíveis que regem o destino, permitiram que se encontrassem mais uma ou duas vezes sem intenção, sendo que ao terceiro encontro já tudo se fazia com o propósito de conhecerem, e o brilho nos olhos de ambos reacendia-se a cada novo encontro, provando que a paixão não se rende aos caminhos desencontrados.)
o nosso casal, que hoje se senta na varanda do quarto, virada a sul com vista sobre o jardim e o quintal, tomando um chá frio refrescando na noite de verão, é uma forma de vida unificada pelo tempo, pelas horas de algum desconforto, pelas dificuldades iniciais de um casal, por tudo o que confirma a existência de um amor sacrificado.
ele levanta-se sempre devagar, beija-a na testa, e procura o romance de saramago para reler, as obras favoritas que se mantêm numa colecção especial, sempre prontas a salvarem os seus olhos antes de dormir.
e tantas vezes é ela quem lhe retira o livro das mãos, e com um beijo pousado de forma suave, apaga a luz do candeeiro, lembrando a discussão que tiveram numa noite em que os astros renunciaram a vigiar este amor que de tão impossível se tornou verdadeiro.
(hoje a lua parece um pouco normal, sem poesia, sem brilho, feita de esfera vulgar. talvez seja assim para não ofuscar certos momentos em a luz prata emana de uma casa perdida numa terra sossegada, em que nada se desproporciona do equilíbrio universal.)

desculpem lá.
ResponderEliminarsó agora me apercebi que este texto ficou muito "light", demasiado margarida rebelo pinto.
pelo sucedido, as minhas desculpas...