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terça-feira, 13 de maio de 2008

munique [3]

[969]

em munique o frio acalma os passeios. mesmo que esteja fresco, que os casacos se apertem, ou mesmo que uns loucos se deitem no chão, o ambiente é calmo. adriano deitou-se num banco ao lado de anne. na narienplatz, o coração desta cidade, sofrem-se as agruras dos tempos em que corriam judeus aflitos a esconderem a vergonha de serem apenas eles próprios.
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anne não fala sobre o passado. a todos os alemães isso parece uma ferida que nunca passa. adriano também sabe que não se pode falar da guerra em áfrica. e no entanto parece tão longínqua.
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levantou-se e foi ao bar buscar mais uma cerveja das saborosas alemãs. há uma festa das grandes até outubro, sabes, e ele acenava que sim, com o sorriso mais interessado em pegar na mão da alemã e saír a subir até ao miradouro.
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subiram até a um quarto na albergaria da esquina, junto da antiga câmara municipal.
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então o frio passou.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

munique [2]

[917]

uns anos depois de munique se ter tornado o seu local de visita preferido, adriano aleixo viveu intensamente a necessidade de possuir a lucidez da saudade. saudade dos ovos escalfados e do bacon matinal do hotel, na companhia da tórrida alemã.
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hoje ao entrar no avião regresso a Lisboa, reverberava na sua cabeça a indulgência das palavras de anne,
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“vira a minha página da tua vida”
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e estas palavras certeiras como pontapés no estômago, deixam-no ainda mais desconcertado, porque foi em toda a sua vida a única mulher a perceber que ele era um livro. aberto.

terça-feira, 15 de abril de 2008

munique

[896]

a manhã estremeceu de frio. munique não dorme, nem acorda. munique passa pelo tempo sem a necessidade de parar. nem descansar. é a cidade que tem ruas como veias em que nunca cessa o trânsito, o metros ou os táxis, como sangue que hoje desagua num coração português.
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anne shultz, doce olhos azuis e um cabelo pintado de côr lilás, era apetecível aos olhos de quem na esplanada do hotel, demoradamente tomava o pequeno almoço. por entre alguns executivos, e turistas, a sombra em que se resguardou não era suficiente para atenuar o brilho das pernas cruzadas em sobressaidas formas recortadas pela saia.
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adriano aleixo, disléxico empresário duma vila de viseu, apresentando o produto da sua fábrica de componentes autóveis numa feira interncional de munique, sentou-se na mesa ao lado. abriu o jornal, recostou-se na cadeira de vime olhando o céu limpo. adorou aquele pão tigre, ainda quente com manteiga e fiambre. mas o que o tornou mais apreciador da cultura alemã era a calma com que todos os outros homens desprezavam a beldade que não tardaria a interpelar pedindo lume.
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ao perceber o sotaque do nosso tropeçante de palavras na língua, a mulher, que tinha estado no brasil em representação de uma corretora inglesa, sorriu e acedeu a convidá-lo para nessa noite beberem um copo, com a promessa de lhe mostrar a munique escondida dos turistas.
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não há na medida do espaço exterior do hotel uma palmeira que esteja maltratada. todos os canteiros estão superiormente aparados e embelezados. adriano não quer ver o que os seus pés pisam. nem mesmo o espelho de água com dois patos bravos cinzentos ao lado do pavilhão da feira lhe desviam o olhar. está parado no tempo dos olhos da alemã.