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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

intróito [11]

[1248]

naquela noite, numa estranha vigília que não sabe se a sonhou, adiantou os dedos procurando os seus cabelos, mais rápido que o próprio futuro que tardava em acontecer. depois, o espaço que desapareceu entre eles, (espaço onde viajou num perfume doce entre o seu corpo ausente e o corpo que se anunciava nas suas mãos) foi destruindo o estranho. e então os olhos fechados desfizeram a dúvida, romperam o medo, e os lábios nervosos - doces do perfume - cerraram entre os dentes um amanhã.
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de mãos dadas transladaram o medo para o infinito mais longínquo, para que nunca regressasse de novo com vida.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

intróito [10]

[1237]

dou por mim a começar – sempre este imperativo – a gostar de estar em casa, de calções, chinelos, em perfeita harmonia com as minhas máscaras de veneza, comendo um divinal gelado, hoje de morango, e começo a pensar que talvez não tenha sido o melhor momento para este namoro.
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entre os dicionários abertos, a enciclopédia espalhada na cama, o eça triste por não o ler há dois dias, o rilke mais alegre por estar a ouvir as suas palavras a um jovem poeta, sinto a entrada do outono de mansinho. que venha pois esse tempo de mudança. espero pelo inverno e pelos dias em que terei de estar de robe vestido, deitado na cama, meias de lã e com o portátil à frente, escrevendo talvez o último trecho do registo do meu deslumbramento.
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contando com este paragrafo, é a vida em três pequenos actos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

intróito [9]

[1233]

jorge luís borges, num conto magistral * todo ele carregado de fascinantes rasgos de genialidade (para não inventar mais adjectivos sobre a escrita do génio), fala sobre o pensamento de um condenado à morte, “a seguir reflectiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um pormenor circunstancial é impedir que este suceda.”
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compreendo agora tamanha descrença no futuro que vou escrevendo. é a esperança (na lógica pervertida de borges)
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* o milagre secreto, pp. 131 - Ficções (Colecção Mil Folhas, nº 39 – Jornal Público)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

intróito [8]

[1229]

talvez devesse começar a esquecer o que nunca aconteceu. não é difícil tornarmo-nos reféns do sonho, da imaginação, da ideia que crias, do mundo que ao sonhares se enraíza em ti como se existisse. tantas vezes estivemos juntos num futuro próximo, que acho caminhamos para o fim do que não aconteceu. juntos, hipoteticamente falando.
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é que nisso da ausência do real, a poesia ganha vida, já dizia jorge luís borges, e eu completo,
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se eu te cantei em palavras "[...] é porque a desejei e não aconteceu. O poema ganha se não adivinhamos que é a manifestação de um anelo. Não a história de um facto. [...]"

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

intróito [7]

[1227]

há quem não comece com o medo do fim. quem por imperativo de um amor-escatológico, se torne na espera constante do nada. eu arrisco a dizer que talvez haja nos entretantos dos dias, a certeza de que o amor é um logro que me agrada aceitar de olhos de fechados.
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Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
[...]
quero morrer
com uma overdose de beleza
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e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

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Al Berto

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

intróito [6]

[1223]

estar sentado em frente a este blog,
e não saber como começar a escrever,
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é o mesmo que estar sentado em frente a ti,
e não saber como começar a explicar a coisa.
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como em tudo na vida é só começar...

intróito [5]

[1222]

é preciso começar, como se fosse um passo no escuro, com a certeza de termos um chão que não vai faltar.
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(quando acho piada a um título de post, espremo-o até ele não pingar mais peva nenhuma de interesse. com este de cima começo a pensar que chegou ao fim.)

intróito [4]

[1221]

fiz as contas e chego à conclusão que o melhor é mesmo começar. dê por onde der, quanto mais tempo demorar, pior se torna o cenário.
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para ler 1001 livros até aos 50 anos, vou precisar de percorrer as páginas de pelo menos 40 livros por ano.
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não sei se será mais difícil ler os 1001 livros, se chegar aos 50 anos...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

intróito [3]

[1218]

entre o real e o imaginário, vagueio - em tentativas não-invasivas da memória - procurando a definição para o sentir-isto. a conclusão - não-invasiva da verdade luzidia de platão - leva-me a acreditar que o fascínio surge de uma ideia que tenho de ti, e não um fascínio por ti (mulher-corpo-alma). não há nada de confuso nisto. é a distância que marca o limite. é o início do amor-tangível que marca a passagem. mas não é um fascínio mais débil por isso.
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"[...] Alguma vez a mulher real que um homem tem ao seu lado pode competir com o estatuto «resplandecente» das mulheres que ele imaginou? [...]"
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

intróito [2]

[1216]

se escrever sobre a realidade fosse fácil, todos poderiam reescrever o passado.
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até poderia reescrever sobre o fim de tarde na praia, insuportável com o vento forte, a areia a bater na pele, o sol que não aquecia, o mar ao longe levado pela maré baixa, os meus olhos que poderiam dizer ver os teus nessa praia, a tua mão que sem querer me tocou ao arrastar as toalhas para nos protegermos da intempérie, um barco pequeno ao longe que passeia sem os problemas dos que ficam em terra, a minha mão a tentar voltar encontrar a tua, pela força do acaso, os meus olhos e os teus, esta praia de novo a fugir do mar, e nós sem termos pedido licença a ninguém, juntos.
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se escrever sobre a realidade fosse fácil, todos poderiam reescrever o passado. inclusive eu.

intróito

[1215]

dizem que sim. que começar é que é difícil. eu estou de acordo, depende sempre onde queremos chegar. acho que estamos condenamos a uma certa forma de pré-depressão na criatividade.
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mas onde eu quero chegar não é a um mundo imaginário, com personagens que sofrem nas mãos do criador, dependentes da disposição do escritor. é, pelo contrário, um lugar onde os personagens são tão imprevisíveis, que o autor fica ele próprio manietado por temer dar destino fatal ao enredo, duvidando em permanência do que é real ou ilusório.
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no fim de contas, a ficção pode ultrapassar a realidade, o difícil é começar.