quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

O Golem Político

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Era uma vez um país, esse país não existia verdadeiramente, porque apesar de possuir uma história, um espírito e uma cultura própria vivia servilmente dependente de um outro país, maior e mais opulento, no entanto igualmente endividado e comprometido em relação a vários outros países ainda mais faustosos e colossais.
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Ora, esse pequeno pais debatia-se com um dilema, por um lado aceitar a sua diferença e ostentá-la com orgulho e com isso viver com horizontes civilacionais limitados, ou por outro lado aceitar um aparente dominio de ideias por parte de um Estado Central injusto, autocrático, centralista, unanimista e autista nas suas políticas e em contrapartida espraiar as suas ambições.
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Os habitantes do pequeno país, cientes da importância do progresso civilizacional, escolheram uma solução engenhosa, criaram uma espécie de Golem, ou seja um hábil e metamórfico lider granítico capaz de várias disposições, humores e personalidades, um sedutor sofístico com a virtude logocêntrica na arte de convencer.
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Nos primeiros anos da sua existência este prodígio da gestão diplomática, conseguiu refinar as suas artes manipulatórias, vergando pomposos lideres políticos ás suas vontades e caprichos sob o falso pretexto de uma inesgotável e preciosa lealdade. As sua complexidade adensou-se de tal forma que a sua verdadeira personalidade tornou-se esfíngica e misteriosa, desconcertando tudo e todos, com as sua imprevisiveis acções.
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O líder governou bem nos primeiros tempos e o seu povo agradeceu-lhe fielmente pelo progresso e desenvolvimento que trouxe ás suas vidas. Todos estavam felizes...
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No entanto, com o tempo o Golem tornou-se egoista e pervertido pelo poder, a sua mente intoxicou-se com delírios de grandeza e quimeras ditatorias, por isso, orquestrou uma forma de preservar egoisticamente o poder, outora concedido livremente pelo seu povo, no seu pequeno reino. O monstro "libertou-se dos seus grilhões" e encetou uma revisão do estado de coisas, destruiu a concorrência ideológica, sufocou a oposição, chantageou regimes e governos, manipulou o seu povo com promessas ilusórias e resplandescentes, mentiu, envergonhou, ameaçou, vexou, destruiu, comprometeu...
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Hoje a démarche política desse monstro político continua a basear-se em amordaçar o legítimo direito á diferença, por isso, não foi com grande surpresa que constatei que o gargantuesco político havia proposto o fim de toda a imprensa escrita oriunda de outros reinos, mais independentes e críticos que o seu.
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Não deixemos que a liberdade nos seja retirada por medo, ou por vãs ameaças.
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"A verdadeira liberdade é poder qualquer coisa sobre si."


(Montaigne)


3 comentários:

Teté disse...

Credo! Espero que esta história se tenha passado mesmo num reino muito distante, e já há muitos, muitos anos...

Hummm... mas que lembra alguns senhores, lá isso...

Zé Baptista disse...

Não podia ser mais actual, oportuna e pertinente esta tua observação em jeito de metáfora.

Venezuela, Rússia, Paquistão, dezenas de estados africanos, mais não sei quantos pelo resto do mundo... Portugal (???).

Será que estamos a assistir a um retrocesso democrático por este mundo fora? A um regresso aos regimes autoritários?

A tendência geral leva a pensar que sim, e o grande problema é que hoje em dia "geral" não se refere apenas a "regional" ou "continental", mas antes a "global" dado o encurtecimento das distâncias a todos os níveis.

A história repete-se, senão em círculos, pelo menos em espiral, tocando sempre alguns pontos gerais em comum.

Pelo menos muitos assim o defendem.

Onun Ras Al Gull disse...

Tal como o profético Nietzsche afirmou, se o tempo é infinito todos os fenómenos do universo estão condenados a uma repetição mimética, numa espécie de "eterno retorno".

As ditaduras, políticas, de opinião, de expressão ou de pensamento não desaparecem, pura e simplesmente assumem novas formas, requintes, faces.

Não fechemos os olhos a esa realidade, enfrentêmo-la com cada grama do nosso ser. Mais do que uma questão de cidadania, é uma questão moral, pela qual afirmamos a nossa existência como pessoas, o direito de discordar.