sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

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eu sentei-me naquele fim de tarde, ainda ameno, mas cada vez mais escuro, no banco do jardim, o mesmo de sempre, o mesmo dos dias em que nos encontramos, o mesmo banco de jardim confidente dos segredos que nós revelamos, o banco pintado de vermelho que nos agarrou tantas vezes, nos amparou na dificuldade e desespero, nos admirou ao sol do verão, nas tardes do domingo, nas noites da semana, nos dias eternos, marcados pelas certezas, acirrado nos intentos de nos proteger.
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eu sentei-me e esperei como nos outros dias. eu sei que me marcarias no ponto da fraqueza humana. eu sei que tu querias entrar de novo na rotina diária, no desolador horizonte, na pobreza do espírito invasor e dilacerante. ensaiaste o discurso, dito e relido ao passo que eu sentado a olhar as crianças a brincarem na relva, dispensei ocupar a minha cabeça com os futuros por ti delineados.
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quando senti o teu perfume, senti o medo de ter de voltar atrás na decisão. de cada vez que pestanejava, detinha-me por segundos nas memórias gravadas em frames espaçados. dias em que mergulhava nas sombras refresco. refresco do teu sorriso que me embriagava e asfixiava...
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(...deitava-me perto do teu cabelo, numa manta estendida, um piquenique sem nada para comer, uma garrafa de água, refresco. refresco para me saciar e libertar do teu sorriso. deitado a olhar as copas das árvores a fugirem longe, depois fechava os olhos e deleitava-me a ...)
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...relembrar esses dias de sol, refresco da alma, remorsos que me invadiam, e a minha decisão a recuar, a ganhar forma de gente e vontade própria, recuava ao ver o fundo da tristeza do teu olhar. e eu a insistir e a recuar também, como que a dar razão à minha vontade de desistir e insistir no erro.
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sentas-te devagar, de vestido rasgado misturado com a pele suave, mergulhada ao sabor da brisa que invade o teu corpo. és tu que olhas a minha vontade a recuar e engrandeces a cada minuto que eu vacilo, ao sentir o teu perfume. vacilo porque recordo...
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(... o perfume em que me embrenho devagar, sorrindo, rindo, olhando o teu cabelo, castanha ou loiro, de brilho ofuscante, reserva de espaço vital, protegido, avançava devagar para aproximar o desejo da vontade. a vontade de tocar o teu íntimo. ver a forma da alegria do contagio da minha companhia. e ditava as regras próprias...)
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...as tuas e as minhas. e disse-te que não queria voltar a insistir. destroçado olhar esse que enterraste na minha alma. eu a viver de novo e tu a venerar uma parte que davas aos finados. a parte que em mim morreu nesse dia. cortavas em fatias a parte que querias deitar fora. se eu pudesse voltar atrás e deitar-me de novo por baixo dos pinheiros e ter o céu mais perto.
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acho que tenho uma carta tua. de comiseração. que os meus olhos não vão ler de novo.

6 comentários:

Sarita disse...

obrigada e um feliz Natal também para ti =)
Como chegaste até à chuvamiudinha?
Beijinhos

Sarita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando Pessoa disse...

:)

vamos indo e andando por aqui e por ali...e fica sempre bem deixar os votos de bom natal a todos os blogs dos favoritos.

Fernando Pessoa disse...

O comentário eliminado em cima dizia o seguinte...

"Eu já fiz esperar e agora espero ... sabia melhor quando fazia esperar ..."

Não percebo porque apagaram...eu acho que tem todo o sentido...mas é melhor não esperar, nem fazer esperar, resolver é bem melhor...

su disse...

...fazer esperar as memórias do passado quando são assim, tristes, nostálgicas, não vale...é melhor reavivá-las, experienciá-las e torná-las banais...para não custarem tanto!

:)

Teté disse...

É, estou com a Su, mais vale experimentar e viver, do que arrepender-nos de não termos feito nada...

Errar é humano!

Feliz Natal para ti (e todos os que te rodeiam)!