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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Saudades

tenho saudades
mas não são saudades de ti
são saudades de mim
saudades de sorrir
quando volto depois de partir
tenho saudades
de correr e andar
aos pulos como os putos
rua abaixo até ti

tenho saudades

sinto falta de estar vivo
há muito que estou morto
há muito que não estou contigo

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

adoração do espaço vital

[568]

ainda consigo amar a natureza da mesma forma que amava naqueles dias. eram os tempos de liberdade. em comunhão com o espaço em que acampávamos, sentíamos vibrar o sentimento puro, de certezas, de anúncios de pacificação, de ideias rebatidas ao luar, de fogueiras acendidas com caruma sobrante, onde nada se perde, ou onde tudo se transforma. e deitados tantas vezes ao relento, quente, afagante, aconchegante, dispersávamos em pensamentos viajantes, seguíamos pelo rio, a pensar ser o peixe em urgente subia. se as ideias fossem mais profusas, então a festa era sem dúvida a mais luminosa.
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sem muitas vezes percebermos que já havíamos voltado dessas viagens, regressamos tantas e outras vezes demasiado crentes, olhando o que ficara na mesma forma com outros desejos de posse. e então deitávamos, um dia após o outro, mãos à obra. até passar o tempo suficiente em que desistíamos de lutar e nos quedávamos pela apatia reinante. até o dia em que surgia a oportunidade de nova festa com a natureza. nesses dias pensei que quando crescesse seria mais senhor da festa, controlaria a minha emoção ao bel-prazer dos meus dias.
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contudo, assim não é. nem nunca mais será.

[566]

e se de repente alguém chegasse ao pé de mim, agarrasse na minha mão, e depois de caminhar uns metros sobre o chão molhado, me dissesse que poderia estar descansado, isso seria o quê?
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um descanso, deveras.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

[549]

antes de sair, e enquanto ela pigarreava contra os sistemas inerentes ao convívio a dois, ele aproximou-se dela, deu-lhe um beijo, demorado, seco, parando e arrancando ao ritmo do coração dela, ele que o sentia no pulsar ao agarrar a mão dela, velocidades desmesuradas de sangue a entrar e a sair das aortas. demorou o beijo tempo suficiente para ele passar a língua lentamente no céu da boca dela, ela a rir por dentro, *** filho da mãe sabe mesmo do que eu gosto ***, e ele a rir por dentro sabendo que aquilo faria parar o dia embirrento que desceu sobre ela. parados a olharem-se ambos, piscaram o olho. pegaram nas malas e saíram. mas que dia de sol.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

[543]
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eu sentei-me naquele fim de tarde, ainda ameno, mas cada vez mais escuro, no banco do jardim, o mesmo de sempre, o mesmo dos dias em que nos encontramos, o mesmo banco de jardim confidente dos segredos que nós revelamos, o banco pintado de vermelho que nos agarrou tantas vezes, nos amparou na dificuldade e desespero, nos admirou ao sol do verão, nas tardes do domingo, nas noites da semana, nos dias eternos, marcados pelas certezas, acirrado nos intentos de nos proteger.
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eu sentei-me e esperei como nos outros dias. eu sei que me marcarias no ponto da fraqueza humana. eu sei que tu querias entrar de novo na rotina diária, no desolador horizonte, na pobreza do espírito invasor e dilacerante. ensaiaste o discurso, dito e relido ao passo que eu sentado a olhar as crianças a brincarem na relva, dispensei ocupar a minha cabeça com os futuros por ti delineados.
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quando senti o teu perfume, senti o medo de ter de voltar atrás na decisão. de cada vez que pestanejava, detinha-me por segundos nas memórias gravadas em frames espaçados. dias em que mergulhava nas sombras refresco. refresco do teu sorriso que me embriagava e asfixiava...
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(...deitava-me perto do teu cabelo, numa manta estendida, um piquenique sem nada para comer, uma garrafa de água, refresco. refresco para me saciar e libertar do teu sorriso. deitado a olhar as copas das árvores a fugirem longe, depois fechava os olhos e deleitava-me a ...)
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...relembrar esses dias de sol, refresco da alma, remorsos que me invadiam, e a minha decisão a recuar, a ganhar forma de gente e vontade própria, recuava ao ver o fundo da tristeza do teu olhar. e eu a insistir e a recuar também, como que a dar razão à minha vontade de desistir e insistir no erro.
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sentas-te devagar, de vestido rasgado misturado com a pele suave, mergulhada ao sabor da brisa que invade o teu corpo. és tu que olhas a minha vontade a recuar e engrandeces a cada minuto que eu vacilo, ao sentir o teu perfume. vacilo porque recordo...
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(... o perfume em que me embrenho devagar, sorrindo, rindo, olhando o teu cabelo, castanha ou loiro, de brilho ofuscante, reserva de espaço vital, protegido, avançava devagar para aproximar o desejo da vontade. a vontade de tocar o teu íntimo. ver a forma da alegria do contagio da minha companhia. e ditava as regras próprias...)
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...as tuas e as minhas. e disse-te que não queria voltar a insistir. destroçado olhar esse que enterraste na minha alma. eu a viver de novo e tu a venerar uma parte que davas aos finados. a parte que em mim morreu nesse dia. cortavas em fatias a parte que querias deitar fora. se eu pudesse voltar atrás e deitar-me de novo por baixo dos pinheiros e ter o céu mais perto.
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acho que tenho uma carta tua. de comiseração. que os meus olhos não vão ler de novo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XXII)

[538]

ele sentou-se na berma da estrada. olhou com produnda saudade os campos que na sua cabeça ainda estavam a ser arados, fresados, adubados e amanhados ao gosto dos agricultores. a sua cabeça era a paz liberta dos pecados e dos erros. sentado a fumar o seu cigarro, pensava ainda nas lutas que travara, na mulher que ficara para trás, a viúva fazia o mesmo naquele momento. e ele ali sentado, os carros passando em marcha lenta como o seu pensamento, marcava a sua vida em pautas de música, pássaros chilreando perto em uníssono, a sua miséria termina assim sem a glória que ele pensava alcançar.
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desceu da camioneta. parou como a tirar medidas aos espaços, às ruas, aos caminhos, todos a olharem com ar de poucos amigos, desconfiando da sua presença. chamou um táxi pela primeira vez na sua vida. deu a indicação da morada, e aproveitou a viagem a pensar no que diria. assim as palavras saíssem da sua boca, com a mesma profusão com que decidira a sua vida. pagou o táxi, tirou as malas e ao aproximar-se da porta, antes de bater, pensou ainda no discurso que ensaiara, e naquele momento apenas assolava à sua cabeça a decisão. mas nada o impediria. bateu à porta. duas vezes. ninguém abriu. desceu as escadas da entrada e deixando as malas à porta foi pelas traseiras. ali estava ela. sentada a ver os campos lavrados, semeados, germinando neles a semente ainda pelas mãos dele plantada.
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a viúva olhou com embargo nas palavras, e apenas disse, antónio voltaste. e ele ali parado sem saber o que dizer, apenas sorriu dizendo, voltei para viver contigo. e ela disse que ele podia ficar ali mesmo na sua casa, para que os desejos noctívagos que lhe assaltavam o corpo pudessem ser saciados à hora e ao sabor dos seus anseios. a única coisa que ele fez foi afagar a cara dela com a mão direita, fazendo lembrar o dia em que se conheceram, e sentindo a sua pele, entraram deitando-se na cama, sem palavras desnecessárias, ela de lado na sua posição, ele entrando devagar na cama, dois ou três beijos fugidios, e o amor de ambos em movimentos secretos, escondidos no intimo, revelado por esta pena, sendo selados para o fim dos dias do desterro.
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o homem que vemos sentado no quintal, a fumar o cigarro e falando para a sombra, está no fim dos seus dias, olhando o seu pai nos olhos, dizendo que morria feliz hoje. o seu pai veio acompanhar a sua partida para o mundo dos desaparecidos. ele sorri ao seu pai e suspira encostado à oliveira com mais de cem anos. lá dentro a viúva deitada na cama, sorri ao seu pai falecido, que a vinha buscar também. o momento gravado na memória deles. o suspiro final de ambos na terra do desterro. na terra do nada. onde todos são a prova dos dias que continuam. mesmo que o amor vingue a espaços, nada é eterno.
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à entrada da aldeia colocaram um letreiro que diz "dos amores aqui vividos, reza uma história de desterro. o erro será não visitar este paraíso".

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XXI)

[535]

o homem que vimos muitas vezes a fumar, deitado nos seus dias sonolentos, olhando o futuro e desenhando o passado com as nossas palavras, está definitivamente desprendido da terra. nada mais augura ou aspira a ter neste mundo igual todos os dias, de campos e terrenos lavrados, de dias ao sol e frios, de dias sozinho a ler, a pensar, dos dias com a viúva, ainda que quentes, que já não servem para o prender a este caminho que tem para percorrer.
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depois de fazer o funeral da sua mãe, em que todos os seus irmãos vieram de frança e da suiça, acompanhado ao longe pela ajuda da viúva, nesta altura em que já muita gente sabia da sua concubinagem com ela, e no dia em que todos vieram prestar a sua homenagem tantas vezes só para ver as condições da sua casa, as condições em que vivia, e falar mal da viúva que se entregara a este homem duro, uma mulher da sua condição só podia estar desesperada pelo desgosto.
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o dia foi escuro. escureceu cedo e, como que o dia não existisse, cedo se tornou negro. parecia que aquela terra se entregava a este papel nos dias em que desaparecia alguém do convívio. foi um funeral concorrido. muitas pessoas em ordeira manifestação de pesar. seguia o carro à frente com o caixão. e o dia negro. as pessoas de cabeça baixa, murmuravam as conversas do dia-a-dia, e todos a olharem a viúva perto do antónio. lá na frente. e o dia escurecendo mais. chegaram às portas do cemitério, descerraram o lençol que vinha em cima da urna, e os quatro irmãos, incluindo o antónio, pegaram no corpo e ali no centro do cemitério, pousado no que chamavam de banco, foram ditas as palavras tantas vezes repetidas pelos anos fora, e que todos sabiam quase de cor. a hora do fim desta mulher chegara devagar e lento, tal como ela não queria. ou o antónio começou a chorar, ou a chuva começou a cair. levaram a caixa pesada e enterram junto da do marido. o antónio não deitou o punhado de terra. todos os seus irmãos fizeram essa gesto de traição. e jurou a si mesmo que vira os dois, o seu pai e a sua mãe a sair pelo portão de mão dada. olharam para trás e sorriram ao partir.
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o homem que vêem no comboio, parte para zurique. com o bilhete de ida. olha pela janela e pensa que finalmente se vai livrar dos seus erros de sempre.

os 47 dias do desterro (XX)

[534]

o homem que vemos por estes dias deambulando na sua vida diária, normal, descomprometido perante o que se assume corriqueiro, vive os dias assim, incertos, maleáveis ao sabor das vontades do seu intimo, dos desejos mais banais, como o que ele agora faz. sentado em cima de uma monte de terra, fresco e fumegante do frio, ele fuma o seu cigarro, naquele que sabemos ser o 47º buraco e último da sua vida. neste seu quintal.
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os seus dias tem sido premonitórios, de sabores a batata cozida e um peixe, ora cozido ora grelhado no seu fogão de sala. vive assim só e em paz. vive de fugazes escapadelas à mulher da sua vida. a viúva cada vez mais saborosa, não tanto como o peixe, embora de sabor a pele com água de colónia feminina, tem sido o plano mais simples e conseguido de toda a sua existência.
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a espontânea conversa de café, fim de tarde arrefecendo ao ritmo dos minutos a passar, e ao por do sol do lado da torre da igreja, foi interrompida pela visita de uma assistente do lar onde a minha mãe estava a viver os seus dias. eu a sentir pulsar nos meus dedos as premonições que me invadiam nos últimos tempos, o dia a escurecer enquanto eu me aproximava do lar e a cor dos meus olhos a tornarem-se brilhantes. ao aproximar-me do quarto onde a minha mãe descansava, julguei ter tido a visão de uma sombra encostada no fundo do corredor, e a assistente disse para eu não fazer muitas perguntas. a minha mãe estava com o seu ar cansado, mas aparentava uma calma que não me impressionava, dada a sua apetência para gostar dos seus dias do fim. ele olhou para mim virou-se, e pela primeira vez falou desde o o dia em que quase se afogara. disse-me que deixasse tudo o que tinha e a partir de amanhã fugisse com tudo para junto dos meus irmãos emigrados. fiquei espantado por ter falado e por me ter aconselhado a partir. ela suspirou e não falou mais. quando saí a sombra estava ao pé dela e pareceria a silhueta do meu pai, que nunca mais me visitara em sonhos. a minha mãe morreu nessa noite.
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questiono-me se o meu erro ainda se manteria ao continuar naquela terra.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XIX)

[530]

vivemos o que temos de viver, sentimos a falta dos dias que passaram, nas horas que agora vivemos. e em esquinas com desencontros de caras familiares, vi o rosto dela em espelhos da minha alma. demasiados dias pesados, contrabalançados ao sabor da alegria que encontrei nos meus livros. depois a morte do meu pai derreou por completo a minha vontade em viver de sorriso nos lábios. eu era o triste sinal dos tempos. a prova de que haveria gente a viver uma vida inteira de desgraças.
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os dias depois da morte do pai, em que todos sabem que a minha mãe se prostrou perante o empenho resignado da sua força, acorrendo aos fugazes momentos tarefeiros da casa, ela viveu sem ser mais nada do que um autómato de movimentos. eu cuidei de terminar todas as coisas que precisavam ser feitas. defendi e protegi a minha mãe das pobres cadências de tempo, tentando resgatá-la do marasmo.
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dias houve em que ia ao cemitério só tentar sentir a presença do meu pai. e consegui muitas vezes, antes de ele me aparecer em sonhos, vibrar com o vento que me trazia a sua voz, tantas vezes fria como o ar.
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os dias trazem-nos surpresas. uma certa manhã em que renovava as flores do vaso que tinha a sepultura do meu pai, vi ao longe um vulto negro, sentado no banco, apreciando as árvores altas e esguias do cemitério. eu sabia que era ela. aproximei-me a medo e com cuidado redobrados, sabendo que em todas as vezes que me aproximei ela fugiu no dia seguinte. mas desta ela não iria. viera visitar o pai e o seu negro era condição da viuvez. o engenheiro falecera em alto-mar. e ela regressara há dois dias a casa do seu pai para se instalar definitivamente. o meu coração bateu pouco, estava seco, e o caminho que eu percorrera de solidão, dera-lhe uma rigidez pouco maleável perante o amor da minha vida. ela pediu-me que passasse em sua casa para que eu pudesse trabalhar em alguns arranjos, umas obras necessárias ao seu regresso.
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esse primeiro dia, foi o dia em que eu estive com a viúva pela primeira vez. a filha do doutor, agora viúva, estava em casa a todo o tempo e dizia-me só, que ninguém nos poderia impedir os dias de aconchego que ambos queríamos. assim foi por muito tempo. eu visitava a viúva algumas vezes, sem avisar, sem dizer palavra e nós éramos desconhecidos dentro de nós, mostrando mutuamente o nosso exterior, expondo a nossa liberdade final, pouco viva e febril, mas sincera e carinhosa.
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esses dias em que meditei partir, o meu erro foi ter ficado.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XVII)

[525]

eu fiquei sem trabalho na quinta do passal. fiquei uns dias a pensar naquilo. o meu pai olhou um dia para mim e disse-me que abrisse os olhos e deixasse de pensar na rapariga. e que fosse pedir desculpa ao doutor. eu não fui durante um mês. mas depois de terminado o meu dinheiro, segui o conselho do meu pai, e voltei a trabalhar lá na quinta.
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a filha do doutor foi morar com uma tia para coimbra. iria estudar filosofia, seria doutora a seu tempo, conheceria o rapaz da vida dela, um engenheiro naval, o casamento foi na nossa terra. foi quando a vi pela primeira vez em cinco anos. disse ao meu pai que não iria ao casamento, não iria suportar aquele cenário, mas o meu pai disse-me que nem pensasse em desrespeitar de novo o doutor.
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assim foi aquele dia. o triste dia em que a menina casou com o engenheiro da guarda. a minha mãe esteve a coordenar as mulheres para se fazer um tapete de flores da quinta do doutor até à igreja. o meu pai ajudou a montar a tenda dos convidados. e eu ali naquele estado, nem sei se triste, se resignado. ajudava uns e outros e fui obrigado a estar na igreja o tempo todo daquela cerimónia.
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passaram os dias desde o casamento. as horas sobre as minhas mãos. os dias sobre os meses e os anos também se esvaíam sem conta. sem parar o tempo, moldei a minha história a dois dias. os meus erros a assomarem-me nos pesadelos, o meu destino cravado nas pedras, como as farpas que me entravam nas mãos em dias de poda e de vindima. eu contudo não tinha rancor do doutor. a menina vivia em coimbra. e eu vivia o desterro.
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o erro foi o desterro da minha vida.

os 47 dias do desterro (XVI)

[523]

o dia da festa da terra, era a da santa luzia. eu ia com os meus amigos, gastar o dinheiro ganho nas colheitas, nesse trabalho que não mais deixei de fazer desde que o meu pai ficou doente. ele curou-se, rapidamente aliás, e depois dele começar a trabalhar eu continuei a fazer o mesmo de sempre, sempre que me chamava o doutor para alguma labuta diária. e eu adorava lá ir.
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para além de receber dinheirinho ao dia, que eu juntava por ser poupado, ia ver algumas vezes a filha do doutor antunes. tinhamo-nos tornado amigos, viamo-nos com frequência, mas sempre às escondidas porque o pai da menina não gostava que ela andasse pela quinta a conversar com os trabalhadores. e era compreensível que para alguém com o sobrenome dela teria de ter cuidado com as amizades. ela contudo era rebelde e gostava de fugir de vez em quando, tantas vezes àquele lugar do moinho, onde nos havíamos encontrado a primeira vez.
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eu sabia que a festa deste ano seria um portento. a maior banda de música da região estaria lá. os ranchos cantariam três dias seguidos, os cantares populares e ao desafio seriam para uma semana, e eu com a minha ideia de tentar beijar a filha do doutor. a festa começava no dia dos caretos. era na quarta-feira que depois da meia noite, os rapazes da freguesia iam pelas casas a pegar em tudo o que lhes aparecia pela frente. vasos, carrinhos de mão, enchadas, pás, sacos de fermentos, e até uma carroça trouxeram para o adro da igreja. no dia seguinte a aldeia toda ia ver os estragos e riam toda a manhã dos que tinham de ir buscar os seus utensílios, tantas vezes pigarreando contra a juventude, gritando, não há remédio, no meu tempo era com pau de marmeleiro que isto se resolvia.
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na noite do baile, eu vi a menina mas ela vinha com o doutor. tive o cuidado de esperar que ele se distraísse, agarrei a mão dela e puxei-a para as traseiras da igreja. ela sorriu, sabia há muito que eu ansiava pelo seu beijo. ela ria muitas vezes com o mesmo brilho do primeiro dia que nos vimos. senti de novo o cheiro a água de colónia, e finalmente pousei a minha mão na sua perna. ia beijar a menina, ela de olhos fechados, eu de olhos abertos a gravar o momento, quando o pai dela aparece do nada e agarrando-me pela camisola sacode-me com a força da raiva e olhando-me nos olhos disse o que nunca mais esqueci na minha vida, nunca mais verás a minha filha.
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o erro dela foi ter gostado de mim. o meu erro foi ter ficado naquela terra.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XV)

[519]

para pagar a dívida ao padre eu tinha de trabalhar. e com meu pai de cama eu tinha ainda mais responsabilidade. pensei durante uns dias e decidi pedir ao doutor antunes o favor de me arranjar trabalho na sua quinta. eu sabia que ele pedia trabalhadores sazonalmente, ora para as vindimas, ora para apanhar castanhas, ora para colher fruta, e por aí em diante, para todos os trabalhos em que os seus caseiros eram poucas mãos para o necessário.
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sabia que a filha do doutor poderia estar lá. espreitei até por entre as portas para perscrutar a visão que sonhei durante alguns dias. a miquinhas chegou por trás e ao tocar-me no ombro dei um salto e ela riu dizendo-me e novo que não olhasse a menina do patrão daquela maneira.
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estava já a apanhar as maçãs nessa tarde, quando o caseiro nos trouxe uma pinga de vinho. confesso que nunca apreciei muito o vinho, bem sei que não é normal, mas eu não sou a normalidade que se vê em todos os livros. não sou um agricultor da estirpe do meu pai. a bem do convívio bebo, porque eles ficariam ofendidos pela recusa. e o frio acaba por passar, seja com o trabalho, seja com a força do vinho.
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quando podava os galhos da macieira mais pequena do campo, junto ao moinho ali bem perto do rio, ouvi de lá de dentro um barulho estranho. fui devagar a ver o que por ali andava. ao entrar ela nem pestanejou, sorriu e fez um sinal para eu me aproximar. ela tinha a perna de fora do vestido. que visão ainda mais doce do corpo de mulher. que momento eterno. que sensação de fraqueza me deu nas mãos ao encostar a porta. ela brincava com coelho que tinha fugido. disse-me que vinha atrás dele e entrara ali. sentada à espera, em cima de uns quantos sacos de farinha, disse-me para me sentar ao pé dela. era uma ordem quase. e ao sentar-me ela agarrou na minha mão e disse para sentir a respiração do coelho. eu pousei a minha mão na pele do coelho e era a dela que sentia. pelo menos isso eu imaginei, eu queria era tocar na pele da perna da filha do doutor antunes. e o coração do coelho batia como o dela. calmo.
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os dias do desterro eram miragens. eu era feliz. e o meu coração batia com a rapidez do rio. e o meu erro foi pensar que ela podia ser minha. o meu erro foi sempre ficar naquela terra.

os 47 dias do desterro (XIV)

[518]


uma noite de chuva assim só pode anunciar o fim do mundo. trovões, rajadas de luz a rasgar a escuridão do quarto, estrondos ensurdecedores e assustadores, chuva incessante, bátegas de águas a correrem pelas caleiras do meu telhado, e eu ali parado. como se todo o mundo estivesse nas tintas para o meu estado. como se o mundo estivesse noutra parte e se eu ali parado fosse só eu. o apêndice do mundo, o apêndice corta-se e pronto. com sorte evita-se males maiores. ninguém precisa dele para nada. corta-se e pronto. eu ali só, pensava nisso mesmo, disse em voz baixa ao mundo, corta-me de ti.
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durante a noite a chuva amainou e ele descansou o que precisava como sempre, até porque se não tivesse conseguido repousar até àquele momento, também não iria conseguir mais, porque o seu pai entrou mais uma vez no seu sonho. era recorrente, embora com o passar do tempo ele aparecesse com menos frequência. vinha de longe a longe e sentava-se aos pés dele, ajeitava a colcha, punha-se confortável, sentava-se e falava. com a sua voz normal, mais pausada, com um ritmo de respiração quase imperceptível, dizia o que lhe ia na alma. nunca falava da sua vida, que estranho, ele morto e eu a pensar que ele ainda tinha vida. e de certa forma tinha. à maneira dele falava da vida que teve connosco. com a minha mãe, quando eram novos, quando saia com os amigos, quando trabalhava para este ou para aquele. e eu ali parado. longe do mundo. nunca tive medo de o ver ali tão perto e tão real, ele morto eu vivo, e a falarmos como se estivéssemos ambos mortos, e na verdade a maioria das vezes mais parecia isso.
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antes de sair nessa noite, enquanto ajeitava a colcha, disse-me que era hora de não mais voltar aos meus sonhos. pediu-me que olhasse pela minha mãe o tempo que lhe restava e disse-me umas quantas palavras que já quase não percebi.
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nessa manhã cavei mais um buraco. o desterro ali ao pé de mim. as minhas mãos a enterrarem as roupas do meu pai. o desterro dele, e o meu também. o buraco tapado e eu a fumar e a pensar que ele ainda voltaria algum dia.
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tinha dito com a voz a desvanecer que o meu erro foi ter ficado naquela terra. e eu sabia que sim.

os 47 dias do desterro (XIII)

[517]

era uma manhã como tantas outras. uma manhã com a luz das manhãs. escuro só eu que tinha de entregar o dinheiro ao doutor para os remédios do meu pai. pelo menos tinha o dinheiro. saí para a luz da manhã igual às manhãs de sempre, a gente na rua igual ao de sempre, os mesmo nas esquinas, os mesmo olhares de desdém iguais ao desdém de sempre. eu saí pelo caminho atrás da casa do doutor.
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eu sei que na porta da entrada havia gravado uma frase em latim. dizia sol lucet omnibus. mais tarde soube que significava, o sol quando nasce, nasce para todos. pelo menos para os daquela casa. era uma casa senhorial, comprada pelo doutor antunes depois de se instalar na nossa cidade. tinha umas portadas altíssimas em ferro pintadas em verde, com desenhos e trabalhos rebuscados com pessoas e animais na lida do campo. era a quinta do passal. vivam lá três caseiros. era uma enormidade em terreno, uma riqueza de videiras, árvores de fruto, água, minas, uma riqueza inesgotável. tinha pertencido ao conde da pulé. o conde falira às mãos das suas sete mulheres. e teve de a vender. em frente do desespero do conde em fazer dinheiro, o doutor antunes comprou-a sem pestanejar, sabendo que fazia um grande negócio.
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quem atendeu ao portão foi a micas. a miquinhas era a caseira serviçal e solteira que vivia na mesma casa, embora dormisse no quarto dos fundos. sorridente, deu-me bom dia e disse-me para esperar porque o doutor ainda estava no seu pequeno-almoço. eu sentei-me a ver os cães a correr pela quinta. eram pelo menos sete. dois deles tinham ar de poucos amigos e foi com um deles que eu corri à frente a fugir e a temer pela vida, um dia que regressava da missa.
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quando o doutor deu ordem para eu entrar já o sol ia alto. eu olhei e pensei que era quente, ameno, gostoso o afogo da sua mão na minha cara, e de repente, ainda aturdido pela luminosidade do astro a ver ondas calor entre as minhas pálpebras, senti o cheiro a perfume, e a água de colónia feminina. era a filha do doutor. estarreci ali a olhar para ela, meio enublada a minha visão, a miquinhas a chamar por mim, venha rapaz, agora que o doutor chamou, e eu ali especado a olhar para a filha do doutor, uma visão tão periférica que desejava poder estar ali ao seu lado como um homem desejado pelas mãos dela.
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entrei, paguei e trouxe os remédios. sabia que não podia olhar para ela. pelo menos não daquela forma. foi a miquinhas que me avisara disso.
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eu sei que a alegria daquele dia não esmorece o meu erro de ter ficado nesta terra.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XII)

[515]

amigos destes eu sabia que não havia. eles eram meus amigos. até já percebia que aqueles momentos da vida de criança nunca voltariam. e eu aproveitava e de que maneira. quem me olhava de canto era o meu pai. ele via a minha mãe a remendar a roupa, ora eram as calças remendadas nos joelhos, ora eram as camisolas cozidas nos cotovelos, tudo em mestria suprema das fadadas mãos da minha santa.
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quando chegava a casa, e a minha mãe dizia-me para ir ajudar a dar os restos de comida aos porcos e eu desaparecia, como quem esquece a tarefa e o dever, e depois paga pelos erros. o meu irmão batia-me com uma ripa em madeira que tinha perto da porta. o meu pai já não dizia nada. delegou nos meus irmãos a responsabilidade de me educarem. até ao dia em que descobri que eles andavam a fumar às escondidas. desde esse dia que não mais me bateram. e o meu pai pensou que eu endireitei de vez.
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nos dias em que não íamos à escola, ficávamos a brincar ao pião. eu tinha um monstro, que o meu irmão gervásio me ajudou a fazer, que metia respeito. era um dos campeões. e eu, em sendo o rei dos piões, comecei a fazer sobressair o meu ego. andei com os meus dois compinchas lado a lado, a mostrar que éramos imbatíveis. e éramos. embora neste tempo as coisas fossem mais triviais, as lutas eram teóricas e simplórias, nunca a vingança pairava nos olhos de quem perdia, e nós éramos o que nunca mais seríamos.
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a rita foi a loira mais inocente que eu conheci. era a boneca feita de pele branca e rosada nas bochechas, de olhos pequenos e brilhantes, que escondia quando alguém olhava no fundo. a rita gostava do zé. e o zé nunca ganhava ao pião. ela andava com a joana nos dias em que jogávamos no campo junto à escola. o zé nunca ganhava ao pião. mas ficou com a rita. e eu até gostava da rita, mas nos meus olhos não havia rancor nem vontade de revanche. cada um era bom naquilo para que tinha nascido. e eu, que tinha rasgado a camisola mais uma vez, sentia-me aliviado porque o meu irmão não me ia bater quando chegasse a casa, porque tínhamos um segredo.
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eram os dias em que errar ao pião não interessava. mas ainda não sabia que errar, era ficar naquele lugar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XI)

[513]

na semana seguinte à missa do galo o meu pai começou a ficar doente. um dia estava cansado e foi mais cedo para a cama. no dia seguinte estava com febre alta e já não saiu de tarde. no dia seguinte ardia em temperatura, delirou com uma dívida ao mercador e já não saiu sequer da cama. a minha mãe estava preocupada e queria chamar o médico. o meu pai vociferou que ia custar muito dinheiro, que não precisava de nada disso, que no dia seguinte ia estar pronto para trabalhar, e embora nem ele acreditasse nisso, a minha mãe esperou até ao final da tarde. ouvi-o a vomitar, com a força que lhe trazia do interior o nada. o nada que comera ao almoço e ao lanche, o pouco do pequeno almoço.
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eu estive a tratar das ervas daninhas. alguém tinha de o fazer. fui percorrer o campo, a horta, os animais tal qual o dono da casa, que se assumia nessa hora difícil. tentei acalmar a minha mãe, e dado que ele delirava cada vez mais sobre uma dívida que eu desconhecia, dei a minha primeira ordem em casa, vai chamar o médico. parecia que a voz abafada do meu pai, pela agonia e pelo sofrimento, saiu dele e entrou em mim, tal foi o estranho olhar que a minha mãe me deu. nem sei se ela orgulhosa de mim por assumir a situação, se por estranhar ver-me crescido de repente.
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quando o médico chegou e o analisou, rapidamente chegou a um consenso no diagnóstico. tinha contraído tuberculose. depois de ter auscultado o corpo do meu pai, já um pouco magro e com as suas peles enrugadas e brancas, ele disse que os remédios poderiam ser caros, até porque os teríamos de tomar todos lá em casa. disse-lhe que levaria o dinheiro no dia seguinte.
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andei a circular um pouco pela avenida com a ideia de pedir emprestado o dinheiro que faltava. pensei na minha tia, a julieta. ela não falava com o meu pai há mais de dez anos. ou era ele que não lhe falava a ela, mas isso nunca percebi. e sei que se lá fosse, ela nos emprestaria o dinheiro. e quando entrei na igreja para meditar um pouco na solução, o padre sentou-se ao pé de mim e disse, que problemas te trazem cá antónio? e eu respondi de forma fugaz, a fé. ele riu-se e disse-me que estava à minha espera com o dinheiro na sacristia. eu agradeci e prometi devolver o mais rápido possível.
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eu sei que um homem de cabeça erguida é um homem que saldas as suas dívidas. um homem que não erra. mas eu errei ao ter ficado nesta terra.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (X)

[507]

o antónio é assim desde que cresceu rápido. é assim desde que se apercebeu que o mundo é mundo duro de roer e de digerir. o antónio é o mistério encarnado na forma de ninguém. o seu misterioso hábito é o serviço de ser ele para ele e para mais ninguém. mesmo que mais ninguém o compreenda. mesmo que lhe chamem coveiro. mesmo que às vezes trocem do seu hábito..
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na primeira vez que cavou um buraco no seu quintal, vivia já sozinho. tal era a sua raiva acumulada que ao passar da porta de entrada para o quintal a enchada foi a primeira coisa que apanhou pela frente, e pegou nela ao mesmo tempo que via distorcida a realidade e as cores do dia. ao enterrar na terra a enchada, sentiu o alívio desanuviante do acto e quanto mais cavava mais se sentia livre do podre que havia acumulado nos dias de rancor. e cavava mais fundo até que parou, quando a altura do buraco já o cobria. espreitou em redor a verificar se nenhum vizinho o avistava e então largou no fundo o livro que acabava de ler.
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quase não conseguiu sair do buraco. elevou-se de modo a segurar com a força que tinha, já pouco do esforço e saltou cravando as botas em duas pequenas pedras salientes da terra. olhou uma vez mais o livro que acabara de ler e de odiar. de um só impulso empurrou toda a terra para cobrir o fundo. como no ida em que enterrara o seu pai. como no dia em que sentiu trair o seu progenitor, ao ajudar ao seu encarceramento final.
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depois de cobrir bem o buraco, e de ter sobrado terra suficiente para fazer um pequeno monte, sentou-se em cima a fumar um cigarro. sentiu as mãos quentes e doridas. sentiu-as palpitar teve de fazer um esforço para que o cigarro não caísse. sentiu nesse momento a leveza mais pesada dos últimos anos. e sentiu que podia fazer aquilo por muitos dias, na hora em que a raiva invadisse a sua casa sem a licença devida.
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naquelas horas de descanso pensava que o seu erro era ficar naquela terra, mesmo que por vezes aliviado.

os 47 dias do desterro (IX)

[506]

lembro-me de ser uma noite muito fria. quando saímos de perto do fogão de lenha, onde estivemos reunidos em família, sentimos o ar gelado a entrar nas gargantas, e comentamos entre os três que estávamos perante a noite mais fresca do ano. era assim que eu ia em sorriso, de um lado a minha mãe, do outro o meu pai, ambos com o braço dado a mim, lembrando os poucos dias em que o meu pai sorria para mim. quando eu era pequeno e ele me levava a passear, corria à minha frente e lembro da alegria que tinha em brincar comigo. esses dias já não eram. esses dia foram. esses dias desistiram de ser.
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nessa noite em que todos estivemos juntos de volta do bacalhau e das couves frescas que tirávamos da horta lá de casa, cada um estava no seu transe, cada um na sua interior arrumação, cada um foi em busca de sossego. eu estava animado de volta da pinhas que punha ao lume para que abrissem facilmente para que conseguisse retirar o pinhões, partir a casca grossa, descascar, provar alguns e deixar o resto para as sobremesas dos dias seguintes.
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o meu irmão estava a um canto a ler uma carta enorme que havia chegado há três dias. era uma carta da felícia antunes, a namorada que ele tinha e continuava a ter, mas agora ao longe. ela tinha emigrado para frança com os pais e eles ficaram assim separados pela distância da pobreza. eram muitos os que estavam a viajar para trabalhar.
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eu ia a gravar o último sorriso do meu pai. desde aquele dia de natal, naquela noite, em que caminhamos lado a lado, eu, ele a minha mãe, o sorriso, a promessa da missa do galo, o sonho de uma vida melhor. eu ia para beijar o menino. eu ia para beijar a esperança de que o meu irmão conseguisse arranjar dinheiro para ir viver com a felícia.
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nesses dias de frio eu gostava de viver naquela terra. e sabia que a esperança morreria no dia em que o erro fosse lá ficar.

sábado, 8 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (VIII)

[post 500]
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tem dias de azia tão intensa que parece que lhe vai sair das entranhas o aziomado mundo que se lhe acumulou de tristeza ao longo dos anos. ele encolhe-se de mansinho nos cobertores, tantas vezes húmidos do inverno, que sente entrar nos ossos o gelo da natureza, como um aviso de que a dor que sente nas articulações são resultado do duro enfrentar dos dias.
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quando subiu a escadaria que dava acesso à sua casa, espreitou os animais que vivem por baixo e tudo estava como sempre calmo, sentindo aproximar-se o fim da luz do dia. sacudiu os pés no tapete aspro e rude que se apresenta na porta de entrada, outrora azul, hoje quase palete de cor de tantas vezes usado por todos. as galochas da lida de campo são deixadas na entrada e quando calçava as socas de andar por casa, aninhando-se para as ajeitar, levantou a cabeça na direcção da cozinha e viu a sua mãe deitada na mesa, inerte, para, suspensa pelo escuro que a encobria. entrou a estranhar a fraqueza da mulher forte, de mansinho acendeu a vela do candelabro, e reparou na carta que a sua mãe tinha debaixo dos braços. o meu pai estava fora e eu comecei a ler a carta.
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foi nesse dia que a minha soube que o meu irmão mais velho, gervásio dornas, tinha finado ao serviço dos interesses militares. da estratégia dos grandes de lisboa, do senhor do poder, de quem não se poderia falar, nem reclamar, nem sussurrar. a minha mãe esteve em lágrimas o dia todo, desde que o vizinho a viera avisar de que tinham enviado a lista dos três nomes que seriam condecorados.
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ela olhou para mim e agarrou no meu braço. disse-me baixinho, tu não vais para a guerra. quando fizeres 18 anos e te quiserem levar, eu arranjo maneira de fugires. eu assenti com a cabeça. não tinha medo da guerra. eu queria até ir para a guerra. pelo menos até esse eu queria. o meu irmão chegará daqui a uma semana e eu estarei ao pé do meu pai para receber o seu corpo. O primeiro corpo que eu veria em vida. nesse dia eu não chorei.
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nesse dia eu senti começar a minha própria guerra. porque nesse dia eu sei que o meu erro seria ter ficado naquela terra.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (VII)

[498]

fumava um cigarro de manhã, um a meio da manhã e outro logo a seguir ao toque da saída para o almoço. o antónio trazia consigo a marmita com o resto da comida que preparava no jantar. nunca se sentava ao pé dos colegas. era de poucas conversas e depois do almoço ficava a admirar os autocarros a passar. esperava sempre pelo mais recente e bonito. um dia decidiu ir nele dar uma volta só para lhe sentir o cheiro a novo. prometeu a si mesmo que iria um dia ser dono de uma viagem à volta do mundo.
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quando parou de chorar, no quarto dia seguinte à morte do seu pai, teve o trabalho a dobrar para poupar a sua mãe aos discursos de lamentos dos vizinhos, dos conhecidos e familiares e também do homem da funerária. decidiu pegar no dinheiro que havia poupado durante uns tempos, que estava num falso do chão do seu quarto, e foi ao centro da cidade tratar da papelada e da burocracia para pagar todas as dívidas do velório. as flores, o caixão, a charreta, o padre, o padre? também o padre custa dinheiro? e seguiu para registar o óbito na conservatória e tratar da papelada para dividir a herança por todos os irmãos. não era muita coisa, mas sabia que poderia dar confusão.
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só no fim do dia passou pelo armazém onde trabalhava a dizer que regressaria no dia seguinte. e claro, ainda a tempo de se intolerar com as palmadas nas costas de uns quantos que nunca se interessaram por ele.
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quando chegou a casa, a vizinha saiu e disse-lhe que mais uma vez a sua mãe nada havia dito durante todo o dia. sentou-se ao pé dela e sem força para fazer absolutamente mais nada, deitou-se no seu regaço. encostou a cabeça e já não foi a tempo de ver uma lágrima que caía do rosto da velhota., enquanto lhe passou a mão no cabelo dele.
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nesses minutos suspirou pelo seu erro. suspirou por ter ficado naquela terra.