segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (IX)

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lembro-me de ser uma noite muito fria. quando saímos de perto do fogão de lenha, onde estivemos reunidos em família, sentimos o ar gelado a entrar nas gargantas, e comentamos entre os três que estávamos perante a noite mais fresca do ano. era assim que eu ia em sorriso, de um lado a minha mãe, do outro o meu pai, ambos com o braço dado a mim, lembrando os poucos dias em que o meu pai sorria para mim. quando eu era pequeno e ele me levava a passear, corria à minha frente e lembro da alegria que tinha em brincar comigo. esses dias já não eram. esses dia foram. esses dias desistiram de ser.
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nessa noite em que todos estivemos juntos de volta do bacalhau e das couves frescas que tirávamos da horta lá de casa, cada um estava no seu transe, cada um na sua interior arrumação, cada um foi em busca de sossego. eu estava animado de volta da pinhas que punha ao lume para que abrissem facilmente para que conseguisse retirar o pinhões, partir a casca grossa, descascar, provar alguns e deixar o resto para as sobremesas dos dias seguintes.
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o meu irmão estava a um canto a ler uma carta enorme que havia chegado há três dias. era uma carta da felícia antunes, a namorada que ele tinha e continuava a ter, mas agora ao longe. ela tinha emigrado para frança com os pais e eles ficaram assim separados pela distância da pobreza. eram muitos os que estavam a viajar para trabalhar.
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eu ia a gravar o último sorriso do meu pai. desde aquele dia de natal, naquela noite, em que caminhamos lado a lado, eu, ele a minha mãe, o sorriso, a promessa da missa do galo, o sonho de uma vida melhor. eu ia para beijar o menino. eu ia para beijar a esperança de que o meu irmão conseguisse arranjar dinheiro para ir viver com a felícia.
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nesses dias de frio eu gostava de viver naquela terra. e sabia que a esperança morreria no dia em que o erro fosse lá ficar.

2 comentários:

Zé Baptista disse...

Um documento da memória comum do povo português. Directa ou indirectamente todos nós estamos ligados a esse passado e vimos de histórias assim.

Vai em frente gajo, o pessoal agradece.

Anónimo disse...

Mas tem cuidado quando fores beijar o menino ...