[1211]
IV
.
hoje acordei com a casa cheia
de crianças. que me chegava
ao teu corpo e o teu ventre
era de novo dilatado de esperança.
acordei.
hoje acordei ao pé de nós, de novo
com o barulho dos teus sonhos,
como se crianças habitassem
a nossa cama.
acordei.
hoje acordei e voltei a pensar no
teu amor desperdiçado nesta casa
vazia de nós.
por fim acordamos de novo alegres e sós.
.
.
(a insigne residência dos limas [1], [2], [3], [4])
(a insigne poesia dos limas [1], [2], [3])
domingo, 14 de setembro de 2008
a insigne poesia dos limas [4]
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sábado, 13 de setembro de 2008
a insigne residência dos limas [4]
IV
certos domingos são penosos para ele. o nosso ilustre residente desta terra, sabe que os sorrisos da mulher ao brincar com as crianças, são um pouco paliativos. hoje não podem ter filhos, e por isso a dor que ela foi amenizando com o tempo, não deixou de se transferir para ele. ele pressente que nos dias em que regressam da missa na capela da aldeia, o silêncio que se tomba sobre os lábios dela, nada é mais que um toque do passado, que ressoa no seu espírito como os sinos da torre anunciando as horas.
os afazeres semanais são colmatados com algum trabalho comunitário. lúcia e antónio lima, nasceram com a vontade de mudar o mundo de fora para dentro, tantas vezes tentando cortar com as mentalidades ultrapassadas. a educação das crianças era muitas vezes esquecida e este casal preferia dedicar-se a refinar o gosto das crianças pela natureza, pela arte, pela música e pela literatura. era para os limas a única e admitida forma de curar a maleita dos corpos, que secos, jamais conseguiriam dar ao mundo um rebento com o apelido lima.
(tantas vezes a tristeza se apodera de lúcia de tal maneira, que o seu olhar se perde do mundo em todas as pequenas estrelas da noite)
é nesses dias que se dedica com mais afinco a procurar a novidade, mesmo que ao fim de tantos anos lhe pareça mais difícil surpreender a esposa. corre lugares em busca de livros fabulosos e raros. calcorreia ruas e lojas soturnas, escondidas em becos, procurando saber dos objectos que possam fazer saltar o coração ou de novo cintilar os olhos da mulher que ama. hoje decidiu-se por um girassol, tal como os que tem no jardim, um girassol de cor silvestre e aguerrida, algo tão sul americano que talvez a possa alegrar pelo lado carnavalesco. acompanhou-o por uma passagem de eça de queirós, transcrita à mão num papel perfumado e delicado, uma fraqueza que sabia à partida tornar lúcia lima num adocicado principio de noite de primavera.
não era surpresa. ela sabia que quando chegava e os vitrais do lado nascente irradiavam uma luz tremeluzente, era sinal de que a mesa estaria composta de todos os apetrechos romanescos, e as velas ardendo no castiçal do centro seriam o desfazer da dúvida. era mulher de amor controlado, profundo é certo, mas quase sempre calmo e profundamente tranquilo. mas o esforço de quem amava incondicionalmente, deixava-a perdida num lago emocional, numa estreita confluência de prazer e estímulo, que desaguava desmedidamente no seu peito sem poder controlar. e assim, disfarçando o espanto, descerrava o pano do palco, e emocionadamente entregava toda a sua alma naquele cristal polido.
o sonho acordava na manhã seguinte entre os ponteiros dos relógios e os sorrisos carregados de indisfarçável satisfação de ver crescer o rebento do amor, como um filho legítimo.
Publicada por S. G. à(s) 14:00 0 amigos do bagaço
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
a insigne poesia dos limas [3]
[1208]
III
a infinita amargura desprende-se no vento
arrastada pela folha da oliveira. o corpo
suspenso, amarrado ao passado, extirpando
o medo e a vergonha de falhar o presente.
a infinita amargura, despida na aragem
pesando como um fim cumprido ao relento,
sustenta a promessa da vida decepada, na
vinha,
sem as folhagens de setembro
a infinita amargura, de quem enlouquece,
é um tronco
de um homem como fruto nascido
de um tronco
da oliveira em pomo no fim do outono.
.
.
(a insigne residência dos limas [1], [2], [3])
(a insigne poesia dos limas [1], [2])
Publicada por S. G. à(s) 18:26 0 amigos do bagaço
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a insigne residência dos limas [3]
[1207]
III
(…)
a vida de uma casa, mesmo que perdida entre uma imensa paisagem, tem sempre escrita uma página a negro no seu livro de registo. na história desta insigne residência que temos vindo a relatar com o suposto rigor realista de observador, há um episódio que relutantemente vamos revelar. não há nada que possa alterar o passado, seja de uma pessoa, de uma vida, de uma casa, ou mesmo de um santo. contar o que se passou nesta casa há quase sessenta anos atrás, não é senão uma inconfidência que desonra a confiança de que se apoderou o narrador do texto. não há no entanto certeza de que não possa fazer falta ao enredo.
(…)
nos pequenos caminhos que aqui desaguavam nas portadas desta casa, havia sempre um empecilho que impedia o seu dono de transportar a carroça sem ser necessário parar para o resolver. uns dias, pedras de um muro que caíam, noutros uma cobra que atiçava o jumento, e nalguns casos era o padre que se enamorava a uma raza de milho ou feijão. isto é um país de maltrapilhos do alheio, comer e beber sem trabalhar corria no sangue de muita gente.
(o nome do nosso agricultor, de nada importa, nem que sirva para o deixar a salvo de críticas. o seu trabalho de uma vida merece que a tragédia seja revelada pelas palavras mortiças de quem não esteve lá, e, na verdade, pouco mais sabe que a lenda.)
a vida deste desgraçado sacrificado termina num dia de sol arrasador. era um dos dias em que a mulher necessitava recolher água num poço perto de casa. empenhado noutras tarefas, o nosso obstinado trabalhador, nem teve tempo de respirar para tentar salvar o seu filho que caíra, sem salvação possível, das mãos da sua mulher. do fundo do poço saiu um cadáver. ou nem isso. um corpo de uma criança é um pedaço de céu azul, uma lágrima arrancada a um duro homem da terra.
não que esta casa esteja talhada ao azar. mas passados dias - podemos ver ainda baloiçando na oliveira – o corpo do enforcado. o corpo de quem dizima a alma ao mundo estratega e ceifeiro. a mulher enlouqueceu e foi internada numa casa de saúde o resto dos dias. a igreja seria a proprietária durante vários anos, até ser vendida umas quantas vezes até chegar aos ilustres limas.
(…)
o casal está à sombra daquela oliveira neste dia estival. saboreiam a sobremesa de frutos colhidos nos campos. saboreiam a vida. saboreiam tudo o que têm e que um dia faltou nesta terra, nesta casa, debaixo desta mesma oliveira. sabem que para viver em harmonia com a vida, precisam apreciar o silêncio dos dias mesmo que os espaços nos guardem segredos. e os limas sabem fazer isto como ninguém.
(…)
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008
a insigne poesia dos limas [2]
[1206]
beija-lhe na testa a poesia
que se acumulou pelos anos,
aquela que se verga nos riscos marcados
na pele suave.
beija-lhe a testa.
.
beija-lhe o cheiro do cabelo
que se entranhou na memória,
o cheiro que de olhos fechados semeia passados
na pele, no cabelo
beija-lhe a testa.
.
beija-lhe o implícito contrato
que se assinou com olhos postos no horizonte,
num destino bordado a ponto cruz
em tela, no cabelo, na pele.
beija-lhe a testa.
.
.
.
(a insigne residência dos limas [1], [2])
(a insigne poesia dos limas [1])
Publicada por S. G. à(s) 18:03 2 amigos do bagaço
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sexta-feira, 1 de agosto de 2008
a insigne residência dos limas [2]
[1060]
comecemos pelo princípio.
não era mais fácil que começar uma história de duas pessoas pelo princípio. contudo, o início da relação destes dois não pode ser contada do seu princípio, mas antes do seu começo.
foram apresentados numa festa de amigos comuns, e a discussão azedou um pouco quando os elogios a saramago de um lado, e a lobo antunes do outro, tornou evidente que eram pessoas de opinião vincada e que dificilmente seriam mudadas. terminaram a noite de costas voltadas e nem se despediram no final.
só um mês depois desta festa, se encontraram por acaso numa repartição de finanças local, quando ambos se preparavam para apresentar a declaração de rendimentos. em ambos surgiu um sorriso desarmante como que assumindo a infantilidade da discussão que os separou naquele dia,
bom dia, suponho que posso acompanhar a menina para não ter de aguentar esta fila enorme em solidão.
claro que sim, julgo que nossa discussão foi um pouco despropositada e desmesurada, e peço desculpa pela minha atitude.
ora essa, eu é que peço desculpa, não me parece que Saramago mereça esta desavença.
concordo consigo
contigo, trata-me por tu.
seguiram assim durante uma hora, a conversa animando, ambos falando sobre as suas tarefas, longe do clima crispado em que se tinham conhecido.
(as intricadas anomalias dos fusíveis que regem o destino, permitiram que se encontrassem mais uma ou duas vezes sem intenção, sendo que ao terceiro encontro já tudo se fazia com o propósito de conhecerem, e o brilho nos olhos de ambos reacendia-se a cada novo encontro, provando que a paixão não se rende aos caminhos desencontrados.)
o nosso casal, que hoje se senta na varanda do quarto, virada a sul com vista sobre o jardim e o quintal, tomando um chá frio refrescando na noite de verão, é uma forma de vida unificada pelo tempo, pelas horas de algum desconforto, pelas dificuldades iniciais de um casal, por tudo o que confirma a existência de um amor sacrificado.
ele levanta-se sempre devagar, beija-a na testa, e procura o romance de saramago para reler, as obras favoritas que se mantêm numa colecção especial, sempre prontas a salvarem os seus olhos antes de dormir.
e tantas vezes é ela quem lhe retira o livro das mãos, e com um beijo pousado de forma suave, apaga a luz do candeeiro, lembrando a discussão que tiveram numa noite em que os astros renunciaram a vigiar este amor que de tão impossível se tornou verdadeiro.
(hoje a lua parece um pouco normal, sem poesia, sem brilho, feita de esfera vulgar. talvez seja assim para não ofuscar certos momentos em a luz prata emana de uma casa perdida numa terra sossegada, em que nada se desproporciona do equilíbrio universal.)
Publicada por S. G. à(s) 00:01 1 amigos do bagaço
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quinta-feira, 31 de julho de 2008
a insigne poesia dos limas
[1159]
uma casa ancorada num sopé
enraízada no rio,
tombada nas eras,
amíude cortada por ventos,
assustada pela tempestade.
.
é uma casa secular,
consentida pelas mãos do tempo,
moldada pelos olhos,
suja pela poeira,
sentida nos lábios dos dois.
é a casa deles. não só deles.
agora nossa também.
Publicada por S. G. à(s) 23:59 2 amigos do bagaço
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quarta-feira, 30 de julho de 2008
a insigne residência dos limas
[1156]
.
é assim a vida de duas pessoas que vivem no campo. são ambos cuidadosos nos seus afazeres. ela professora universitária, ele engenheiro agrónomo. nada fora do comum, a não ser terem escolhido viver num recolhimento apaziguador. cumprem a sua vida diária nas cidades vizinhas, correm como outros contra o tempo do dia-a-dia estafante, deambulam pelo trânsito caótico como o comum mortal, mas ao converteram-se a este viver recatado, recuperam em pouco tempo o ritmo desacelerado dos pássaros que os visitam nos jardins.
.
(a quinta é mais uma pequena casa recuperada por um arquitecto amigo com experiência nesta área. tudo foi meticulosamente tratado de forma a que nada excedesse o ambiente rural, e a imagem que todos os dias eles veriam ao regressarem a casa seria a de um paraíso perdido, coberto de folhagem, árvores e heras sinuosas. uma recuperação sóbria e condizente com os seus estados de espírito.)
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hoje estão ambos na sala de estar. não é uma sala comum, com uma enorme passadeira que se estende de uma ponta à outra, com duas mesas de trabalho de ambos os lados. a simetria era algo tão natural na sua organização, que por vezes nem se apercebiam do ambiente geométrico em que se estabeleceram. ela lê uma tese sobre os micro-organismos paleais, ele insiste em resolver enigmas, tentando descodificar umas frases hieroglíficas, uma paixão antiga.
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na janela, por onde a luz entra sempre com moderação, esbatendo as imagens definidas pelos corpos, está um colibri a observar os nossos inquilinos da natureza. o seu azul-turquesa não passa despercebido ao nosso amante do egipto, que sorri quando o vê.
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és um colibri que desmaia de azul na minha vida,
que queres tu poeta?
um beijo e um passeio era capaz de servir para relaxar.
tortuosos são os caminhos do senhor…
sim, pois então endireitemos as veredas que ele pode voltar a qualquer momento.
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seguem de mão dada pelo caminho que dá para o rio, conversando sobre o tempo que ele perde a desvendar mistérios tão inúteis como os egípcios.
Publicada por S. G. à(s) 00:01 4 amigos do bagaço
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terça-feira, 29 de julho de 2008
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
os 47 dias do desterro (XXII)
ele sentou-se na berma da estrada. olhou com produnda saudade os campos que na sua cabeça ainda estavam a ser arados, fresados, adubados e amanhados ao gosto dos agricultores. a sua cabeça era a paz liberta dos pecados e dos erros. sentado a fumar o seu cigarro, pensava ainda nas lutas que travara, na mulher que ficara para trás, a viúva fazia o mesmo naquele momento. e ele ali sentado, os carros passando em marcha lenta como o seu pensamento, marcava a sua vida em pautas de música, pássaros chilreando perto em uníssono, a sua miséria termina assim sem a glória que ele pensava alcançar.
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desceu da camioneta. parou como a tirar medidas aos espaços, às ruas, aos caminhos, todos a olharem com ar de poucos amigos, desconfiando da sua presença. chamou um táxi pela primeira vez na sua vida. deu a indicação da morada, e aproveitou a viagem a pensar no que diria. assim as palavras saíssem da sua boca, com a mesma profusão com que decidira a sua vida. pagou o táxi, tirou as malas e ao aproximar-se da porta, antes de bater, pensou ainda no discurso que ensaiara, e naquele momento apenas assolava à sua cabeça a decisão. mas nada o impediria. bateu à porta. duas vezes. ninguém abriu. desceu as escadas da entrada e deixando as malas à porta foi pelas traseiras. ali estava ela. sentada a ver os campos lavrados, semeados, germinando neles a semente ainda pelas mãos dele plantada.
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a viúva olhou com embargo nas palavras, e apenas disse, antónio voltaste. e ele ali parado sem saber o que dizer, apenas sorriu dizendo, voltei para viver contigo. e ela disse que ele podia ficar ali mesmo na sua casa, para que os desejos noctívagos que lhe assaltavam o corpo pudessem ser saciados à hora e ao sabor dos seus anseios. a única coisa que ele fez foi afagar a cara dela com a mão direita, fazendo lembrar o dia em que se conheceram, e sentindo a sua pele, entraram deitando-se na cama, sem palavras desnecessárias, ela de lado na sua posição, ele entrando devagar na cama, dois ou três beijos fugidios, e o amor de ambos em movimentos secretos, escondidos no intimo, revelado por esta pena, sendo selados para o fim dos dias do desterro.
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o homem que vemos sentado no quintal, a fumar o cigarro e falando para a sombra, está no fim dos seus dias, olhando o seu pai nos olhos, dizendo que morria feliz hoje. o seu pai veio acompanhar a sua partida para o mundo dos desaparecidos. ele sorri ao seu pai e suspira encostado à oliveira com mais de cem anos. lá dentro a viúva deitada na cama, sorri ao seu pai falecido, que a vinha buscar também. o momento gravado na memória deles. o suspiro final de ambos na terra do desterro. na terra do nada. onde todos são a prova dos dias que continuam. mesmo que o amor vingue a espaços, nada é eterno.
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à entrada da aldeia colocaram um letreiro que diz "dos amores aqui vividos, reza uma história de desterro. o erro será não visitar este paraíso".
Publicada por S. G. à(s) 17:50 8 amigos do bagaço
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007
os 47 dias do desterro (XXI)
[535]
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os 47 dias do desterro (XX)
[534]
Publicada por S. G. à(s) 17:55 0 amigos do bagaço
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
os 47 dias do desterro (XIX)
[530]
Publicada por S. G. à(s) 17:46 9 amigos do bagaço
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sábado, 15 de dezembro de 2007
os 47 dias do desterro (XVIII)
[527]
eu sabia que ela viria. e quando estavam a velar o corpo lá em casa, eu fui dar os meus pêsames à familia, mostrar os meus sinceros sentimentos de compaixão com aquela dor. repentina. ela estava ali um pouco parada no tempo, ou fui eu que a parei pelo modo como a olhei. inclinei-me respeitosamente e agarrei a sua mão para a cumprimentar. nesse momento revisitei os lugares frios e frescos da quinta, os anos passados acabrunhado na leve de dor de a não ter um dia só para mim. ela agradeceu e deu-me um bilhete para nos encontrarmos no dia seguinte.
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
os 47 dias do desterro (XVII)
[525]
Publicada por S. G. à(s) 17:28 3 amigos do bagaço
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os 47 dias do desterro (XVI)
[523]
Publicada por S. G. à(s) 09:32 14 amigos do bagaço
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
os 47 dias do desterro (XV)
[519]
Publicada por S. G. à(s) 10:10 2 amigos do bagaço
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os 47 dias do desterro (XIV)
[518]
uma noite de chuva assim só pode anunciar o fim do mundo. trovões, rajadas de luz a rasgar a escuridão do quarto, estrondos ensurdecedores e assustadores, chuva incessante, bátegas de águas a correrem pelas caleiras do meu telhado, e eu ali parado. como se todo o mundo estivesse nas tintas para o meu estado. como se o mundo estivesse noutra parte e se eu ali parado fosse só eu. o apêndice do mundo, o apêndice corta-se e pronto. com sorte evita-se males maiores. ninguém precisa dele para nada. corta-se e pronto. eu ali só, pensava nisso mesmo, disse em voz baixa ao mundo, corta-me de ti.
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durante a noite a chuva amainou e ele descansou o que precisava como sempre, até porque se não tivesse conseguido repousar até àquele momento, também não iria conseguir mais, porque o seu pai entrou mais uma vez no seu sonho. era recorrente, embora com o passar do tempo ele aparecesse com menos frequência. vinha de longe a longe e sentava-se aos pés dele, ajeitava a colcha, punha-se confortável, sentava-se e falava. com a sua voz normal, mais pausada, com um ritmo de respiração quase imperceptível, dizia o que lhe ia na alma. nunca falava da sua vida, que estranho, ele morto e eu a pensar que ele ainda tinha vida. e de certa forma tinha. à maneira dele falava da vida que teve connosco. com a minha mãe, quando eram novos, quando saia com os amigos, quando trabalhava para este ou para aquele. e eu ali parado. longe do mundo. nunca tive medo de o ver ali tão perto e tão real, ele morto eu vivo, e a falarmos como se estivéssemos ambos mortos, e na verdade a maioria das vezes mais parecia isso.
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antes de sair nessa noite, enquanto ajeitava a colcha, disse-me que era hora de não mais voltar aos meus sonhos. pediu-me que olhasse pela minha mãe o tempo que lhe restava e disse-me umas quantas palavras que já quase não percebi.
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nessa manhã cavei mais um buraco. o desterro ali ao pé de mim. as minhas mãos a enterrarem as roupas do meu pai. o desterro dele, e o meu também. o buraco tapado e eu a fumar e a pensar que ele ainda voltaria algum dia.
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tinha dito com a voz a desvanecer que o meu erro foi ter ficado naquela terra. e eu sabia que sim.
Publicada por S. G. à(s) 10:09 0 amigos do bagaço
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os 47 dias do desterro (XIII)
[517]
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eu sei que na porta da entrada havia gravado uma frase em latim. dizia sol lucet omnibus. mais tarde soube que significava, o sol quando nasce, nasce para todos. pelo menos para os daquela casa. era uma casa senhorial, comprada pelo doutor antunes depois de se instalar na nossa cidade. tinha umas portadas altíssimas em ferro pintadas em verde, com desenhos e trabalhos rebuscados com pessoas e animais na lida do campo. era a quinta do passal. vivam lá três caseiros. era uma enormidade em terreno, uma riqueza de videiras, árvores de fruto, água, minas, uma riqueza inesgotável. tinha pertencido ao conde da pulé. o conde falira às mãos das suas sete mulheres. e teve de a vender. em frente do desespero do conde em fazer dinheiro, o doutor antunes comprou-a sem pestanejar, sabendo que fazia um grande negócio.
Publicada por S. G. à(s) 10:08 0 amigos do bagaço
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
os 47 dias do desterro (XII)
[515]
Publicada por S. G. à(s) 09:40 2 amigos do bagaço
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