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domingo, 14 de setembro de 2008

a insigne poesia dos limas [4]

[1211]

IV
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hoje acordei com a casa cheia
de crianças. que me chegava
ao teu corpo e o teu ventre
era de novo dilatado de esperança.
acordei.
hoje acordei ao pé de nós, de novo
com o barulho dos teus sonhos,
como se crianças habitassem
a nossa cama.
acordei.
hoje acordei e voltei a pensar no
teu amor desperdiçado nesta casa
vazia de nós.
por fim acordamos de novo alegres e sós.
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(a insigne residência dos limas [1], [2], [3], [4])
(a insigne poesia dos limas
[1], [2], [3])

sábado, 13 de setembro de 2008

a insigne residência dos limas [4]

[1210]

IV

certos domingos são penosos para ele. o nosso ilustre residente desta terra, sabe que os sorrisos da mulher ao brincar com as crianças, são um pouco paliativos. hoje não podem ter filhos, e por isso a dor que ela foi amenizando com o tempo, não deixou de se transferir para ele. ele pressente que nos dias em que regressam da missa na capela da aldeia, o silêncio que se tomba sobre os lábios dela, nada é mais que um toque do passado, que ressoa no seu espírito como os sinos da torre anunciando as horas.
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os afazeres semanais são colmatados com algum trabalho comunitário. lúcia e antónio lima, nasceram com a vontade de mudar o mundo de fora para dentro, tantas vezes tentando cortar com as mentalidades ultrapassadas. a educação das crianças era muitas vezes esquecida e este casal preferia dedicar-se a refinar o gosto das crianças pela natureza, pela arte, pela música e pela literatura. era para os limas a única e admitida forma de curar a maleita dos corpos, que secos, jamais conseguiriam dar ao mundo um rebento com o apelido lima.
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(tantas vezes a tristeza se apodera de lúcia de tal maneira, que o seu olhar se perde do mundo em todas as pequenas estrelas da noite)
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é nesses dias que se dedica com mais afinco a procurar a novidade, mesmo que ao fim de tantos anos lhe pareça mais difícil surpreender a esposa. corre lugares em busca de livros fabulosos e raros. calcorreia ruas e lojas soturnas, escondidas em becos, procurando saber dos objectos que possam fazer saltar o coração ou de novo cintilar os olhos da mulher que ama. hoje decidiu-se por um girassol, tal como os que tem no jardim, um girassol de cor silvestre e aguerrida, algo tão sul americano que talvez a possa alegrar pelo lado carnavalesco. acompanhou-o por uma passagem de eça de queirós, transcrita à mão num papel perfumado e delicado, uma fraqueza que sabia à partida tornar lúcia lima num adocicado principio de noite de primavera.
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não era surpresa. ela sabia que quando chegava e os vitrais do lado nascente irradiavam uma luz tremeluzente, era sinal de que a mesa estaria composta de todos os apetrechos romanescos, e as velas ardendo no castiçal do centro seriam o desfazer da dúvida. era mulher de amor controlado, profundo é certo, mas quase sempre calmo e profundamente tranquilo. mas o esforço de quem amava incondicionalmente, deixava-a perdida num lago emocional, numa estreita confluência de prazer e estímulo, que desaguava desmedidamente no seu peito sem poder controlar. e assim, disfarçando o espanto, descerrava o pano do palco, e emocionadamente entregava toda a sua alma naquele cristal polido.
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o sonho acordava na manhã seguinte entre os ponteiros dos relógios e os sorrisos carregados de indisfarçável satisfação de ver crescer o rebento do amor, como um filho legítimo.
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(a insigne residência dos limas [1], [2], [3])
(a insigne poesia dos limas [1], [2], [3])

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

a insigne poesia dos limas [3]

[1208]

III

a infinita amargura desprende-se no vento
arrastada pela folha da oliveira. o corpo
suspenso, amarrado ao passado, extirpando
o medo e a vergonha de falhar o presente.

a infinita amargura, despida na aragem
pesando como um fim cumprido ao relento,
sustenta a promessa da vida decepada, na
vinha,
sem as folhagens de setembro

a infinita amargura, de quem enlouquece,
é um tronco
de um homem como fruto nascido
de um tronco
da oliveira em pomo no fim do outono.
.
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(a insigne residência dos limas [1], [2], [3])
(a insigne poesia dos limas
[1], [2])

a insigne residência dos limas [3]

[1207]



episódios da vida rural

III


(…)
a vida de uma casa, mesmo que perdida entre uma imensa paisagem, tem sempre escrita uma página a negro no seu livro de registo. na história desta insigne residência que temos vindo a relatar com o suposto rigor realista de observador, há um episódio que relutantemente vamos revelar. não há nada que possa alterar o passado, seja de uma pessoa, de uma vida, de uma casa, ou mesmo de um santo. contar o que se passou nesta casa há quase sessenta anos atrás, não é senão uma inconfidência que desonra a confiança de que se apoderou o narrador do texto. não há no entanto certeza de que não possa fazer falta ao enredo.
(…)


nos pequenos caminhos que aqui desaguavam nas portadas desta casa, havia sempre um empecilho que impedia o seu dono de transportar a carroça sem ser necessário parar para o resolver. uns dias, pedras de um muro que caíam, noutros uma cobra que atiçava o jumento, e nalguns casos era o padre que se enamorava a uma raza de milho ou feijão. isto é um país de maltrapilhos do alheio, comer e beber sem trabalhar corria no sangue de muita gente.
(o nome do nosso agricultor, de nada importa, nem que sirva para o deixar a salvo de críticas. o seu trabalho de uma vida merece que a tragédia seja revelada pelas palavras mortiças de quem não esteve lá, e, na verdade, pouco mais sabe que a lenda.)


a vida deste desgraçado sacrificado termina num dia de sol arrasador. era um dos dias em que a mulher necessitava recolher água num poço perto de casa. empenhado noutras tarefas, o nosso obstinado trabalhador, nem teve tempo de respirar para tentar salvar o seu filho que caíra, sem salvação possível, das mãos da sua mulher. do fundo do poço saiu um cadáver. ou nem isso. um corpo de uma criança é um pedaço de céu azul, uma lágrima arrancada a um duro homem da terra.


não que esta casa esteja talhada ao azar. mas passados dias - podemos ver ainda baloiçando na oliveira – o corpo do enforcado. o corpo de quem dizima a alma ao mundo estratega e ceifeiro. a mulher enlouqueceu e foi internada numa casa de saúde o resto dos dias. a igreja seria a proprietária durante vários anos, até ser vendida umas quantas vezes até chegar aos ilustres limas.

(…)
o casal está à sombra daquela oliveira neste dia estival. saboreiam a sobremesa de frutos colhidos nos campos. saboreiam a vida. saboreiam tudo o que têm e que um dia faltou nesta terra, nesta casa, debaixo desta mesma oliveira. sabem que para viver em harmonia com a vida, precisam apreciar o silêncio dos dias mesmo que os espaços nos guardem segredos. e os limas sabem fazer isto como ninguém.
(…)

(a insigne residência dos limas [1], [2])

(a insigne poesia dos limas [1], [2])

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

a insigne poesia dos limas [2]

[1206]

beija-lhe na testa a poesia
que se acumulou pelos anos,
aquela que se verga nos riscos marcados
na pele suave.
beija-lhe a testa.
.
beija-lhe o cheiro do cabelo
que se entranhou na memória,
o cheiro que de olhos fechados semeia passados
na pele, no cabelo
beija-lhe a testa.
.
beija-lhe o implícito contrato
que se assinou com olhos postos no horizonte,
num destino bordado a ponto cruz
em tela, no cabelo, na pele.
beija-lhe a testa.
.
.
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(a insigne residência dos limas [1], [2])
(a insigne poesia dos limas [1])

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

a insigne residência dos limas [2]

[1060]

episódios da vida rural

comecemos pelo princípio.

não era mais fácil que começar uma história de duas pessoas pelo princípio. contudo, o início da relação destes dois não pode ser contada do seu princípio, mas antes do seu começo.

foram apresentados numa festa de amigos comuns, e a discussão azedou um pouco quando os elogios a saramago de um lado, e a lobo antunes do outro, tornou evidente que eram pessoas de opinião vincada e que dificilmente seriam mudadas. terminaram a noite de costas voltadas e nem se despediram no final.
só um mês depois desta festa, se encontraram por acaso numa repartição de finanças local, quando ambos se preparavam para apresentar a declaração de rendimentos. em ambos surgiu um sorriso desarmante como que assumindo a infantilidade da discussão que os separou naquele dia,



bom dia, suponho que posso acompanhar a menina para não ter de aguentar esta fila enorme em solidão.

claro que sim, julgo que nossa discussão foi um pouco despropositada e desmesurada, e peço desculpa pela minha atitude.

ora essa, eu é que peço desculpa, não me parece que Saramago mereça esta desavença.

concordo consigo

contigo, trata-me por tu.




seguiram assim durante uma hora, a conversa animando, ambos falando sobre as suas tarefas, longe do clima crispado em que se tinham conhecido.

(as intricadas anomalias dos fusíveis que regem o destino, permitiram que se encontrassem mais uma ou duas vezes sem intenção, sendo que ao terceiro encontro já tudo se fazia com o propósito de conhecerem, e o brilho nos olhos de ambos reacendia-se a cada novo encontro, provando que a paixão não se rende aos caminhos desencontrados.)

o nosso casal, que hoje se senta na varanda do quarto, virada a sul com vista sobre o jardim e o quintal, tomando um chá frio refrescando na noite de verão, é uma forma de vida unificada pelo tempo, pelas horas de algum desconforto, pelas dificuldades iniciais de um casal, por tudo o que confirma a existência de um amor sacrificado.

ele levanta-se sempre devagar, beija-a na testa, e procura o romance de saramago para reler, as obras favoritas que se mantêm numa colecção especial, sempre prontas a salvarem os seus olhos antes de dormir.
e tantas vezes é ela quem lhe retira o livro das mãos, e com um beijo pousado de forma suave, apaga a luz do candeeiro, lembrando a discussão que tiveram numa noite em que os astros renunciaram a vigiar este amor que de tão impossível se tornou verdadeiro.

(hoje a lua parece um pouco normal, sem poesia, sem brilho, feita de esfera vulgar. talvez seja assim para não ofuscar certos momentos em a luz prata emana de uma casa perdida numa terra sossegada, em que nada se desproporciona do equilíbrio universal.)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

a insigne poesia dos limas

[1159]

uma casa ancorada num sopé
enraízada no rio,
tombada nas eras,
amíude cortada por ventos,
assustada pela tempestade.
.
é uma casa secular,
consentida pelas mãos do tempo,
moldada pelos olhos,
suja pela poeira,
sentida nos lábios dos dois.

é a casa deles. não só deles.
agora nossa também.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

a insigne residência dos limas

[1156]

episódios da vida rural
.
a aldeia é pequena, recatada, ordeira, sem sinais de grande desenvolvimento, um ou outro acesso mais arranjado, mas no fim de contas foi por isso que vieram viver para aqui, pelo isolamento. estes dois, marido e mulher sem papel oficial passado pela santa igreja de roma, vivem juntos há doze anos, e nesta terra perdida do mapa mundo, vivem há sete parcimoniosos anos.
..
(a quinta foi comprada depois da morte do velho jeremias, a quem a sorte da viuvez remeteu para um arrastar penoso no tempo, como se perdido da casa, do tempo, dos dias, como que a sua alma há muito vagueasse por outro mundo, e do seu corpo apenas restasse a carcaça ambulante)
..
duas pessoas assim já não se fazem, já não existem, diz o povo que nunca os viu em desentendimento ou discussão. e a verdade é que são uma harmonia em forma de união. dizem que o homem pode ser mais sisudo que a mulher. e talvez o seja. talvez pelas manhãs mais frias se faça sentir a sua indisposição e o seu temperamento acutilante contra o remoinho interior causado pelo frio. são achaques repentinos e passageiros. ao beber um café e ao sair para a lida do jardim, os meandros insondáveis do mau humor rapidamente dão lugar a uma sintonia perfeita com a natureza.
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é assim a vida de duas pessoas que vivem no campo. são ambos cuidadosos nos seus afazeres. ela professora universitária, ele engenheiro agrónomo. nada fora do comum, a não ser terem escolhido viver num recolhimento apaziguador. cumprem a sua vida diária nas cidades vizinhas, correm como outros contra o tempo do dia-a-dia estafante, deambulam pelo trânsito caótico como o comum mortal, mas ao converteram-se a este viver recatado, recuperam em pouco tempo o ritmo desacelerado dos pássaros que os visitam nos jardins.
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(a quinta é mais uma pequena casa recuperada por um arquitecto amigo com experiência nesta área. tudo foi meticulosamente tratado de forma a que nada excedesse o ambiente rural, e a imagem que todos os dias eles veriam ao regressarem a casa seria a de um paraíso perdido, coberto de folhagem, árvores e heras sinuosas. uma recuperação sóbria e condizente com os seus estados de espírito.)
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hoje estão ambos na sala de estar. não é uma sala comum, com uma enorme passadeira que se estende de uma ponta à outra, com duas mesas de trabalho de ambos os lados. a simetria era algo tão natural na sua organização, que por vezes nem se apercebiam do ambiente geométrico em que se estabeleceram. ela lê uma tese sobre os micro-organismos paleais, ele insiste em resolver enigmas, tentando descodificar umas frases hieroglíficas, uma paixão antiga.
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na janela, por onde a luz entra sempre com moderação, esbatendo as imagens definidas pelos corpos, está um colibri a observar os nossos inquilinos da natureza. o seu azul-turquesa não passa despercebido ao nosso amante do egipto, que sorri quando o vê.
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és um colibri que desmaia de azul na minha vida,
que queres tu poeta?
um beijo e um passeio era capaz de servir para relaxar.
tortuosos são os caminhos do senhor…
sim, pois então endireitemos as veredas que ele pode voltar a qualquer momento.

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seguem de mão dada pelo caminho que dá para o rio, conversando sobre o tempo que ele perde a desvendar mistérios tão inúteis como os egípcios.

terça-feira, 29 de julho de 2008

a última blog-novela

[1155]

a insigne residência dos limas
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episódios da vida rural
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hoje a partir das 00:01

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XXII)

[538]

ele sentou-se na berma da estrada. olhou com produnda saudade os campos que na sua cabeça ainda estavam a ser arados, fresados, adubados e amanhados ao gosto dos agricultores. a sua cabeça era a paz liberta dos pecados e dos erros. sentado a fumar o seu cigarro, pensava ainda nas lutas que travara, na mulher que ficara para trás, a viúva fazia o mesmo naquele momento. e ele ali sentado, os carros passando em marcha lenta como o seu pensamento, marcava a sua vida em pautas de música, pássaros chilreando perto em uníssono, a sua miséria termina assim sem a glória que ele pensava alcançar.
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desceu da camioneta. parou como a tirar medidas aos espaços, às ruas, aos caminhos, todos a olharem com ar de poucos amigos, desconfiando da sua presença. chamou um táxi pela primeira vez na sua vida. deu a indicação da morada, e aproveitou a viagem a pensar no que diria. assim as palavras saíssem da sua boca, com a mesma profusão com que decidira a sua vida. pagou o táxi, tirou as malas e ao aproximar-se da porta, antes de bater, pensou ainda no discurso que ensaiara, e naquele momento apenas assolava à sua cabeça a decisão. mas nada o impediria. bateu à porta. duas vezes. ninguém abriu. desceu as escadas da entrada e deixando as malas à porta foi pelas traseiras. ali estava ela. sentada a ver os campos lavrados, semeados, germinando neles a semente ainda pelas mãos dele plantada.
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a viúva olhou com embargo nas palavras, e apenas disse, antónio voltaste. e ele ali parado sem saber o que dizer, apenas sorriu dizendo, voltei para viver contigo. e ela disse que ele podia ficar ali mesmo na sua casa, para que os desejos noctívagos que lhe assaltavam o corpo pudessem ser saciados à hora e ao sabor dos seus anseios. a única coisa que ele fez foi afagar a cara dela com a mão direita, fazendo lembrar o dia em que se conheceram, e sentindo a sua pele, entraram deitando-se na cama, sem palavras desnecessárias, ela de lado na sua posição, ele entrando devagar na cama, dois ou três beijos fugidios, e o amor de ambos em movimentos secretos, escondidos no intimo, revelado por esta pena, sendo selados para o fim dos dias do desterro.
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o homem que vemos sentado no quintal, a fumar o cigarro e falando para a sombra, está no fim dos seus dias, olhando o seu pai nos olhos, dizendo que morria feliz hoje. o seu pai veio acompanhar a sua partida para o mundo dos desaparecidos. ele sorri ao seu pai e suspira encostado à oliveira com mais de cem anos. lá dentro a viúva deitada na cama, sorri ao seu pai falecido, que a vinha buscar também. o momento gravado na memória deles. o suspiro final de ambos na terra do desterro. na terra do nada. onde todos são a prova dos dias que continuam. mesmo que o amor vingue a espaços, nada é eterno.
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à entrada da aldeia colocaram um letreiro que diz "dos amores aqui vividos, reza uma história de desterro. o erro será não visitar este paraíso".

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XXI)

[535]

o homem que vimos muitas vezes a fumar, deitado nos seus dias sonolentos, olhando o futuro e desenhando o passado com as nossas palavras, está definitivamente desprendido da terra. nada mais augura ou aspira a ter neste mundo igual todos os dias, de campos e terrenos lavrados, de dias ao sol e frios, de dias sozinho a ler, a pensar, dos dias com a viúva, ainda que quentes, que já não servem para o prender a este caminho que tem para percorrer.
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depois de fazer o funeral da sua mãe, em que todos os seus irmãos vieram de frança e da suiça, acompanhado ao longe pela ajuda da viúva, nesta altura em que já muita gente sabia da sua concubinagem com ela, e no dia em que todos vieram prestar a sua homenagem tantas vezes só para ver as condições da sua casa, as condições em que vivia, e falar mal da viúva que se entregara a este homem duro, uma mulher da sua condição só podia estar desesperada pelo desgosto.
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o dia foi escuro. escureceu cedo e, como que o dia não existisse, cedo se tornou negro. parecia que aquela terra se entregava a este papel nos dias em que desaparecia alguém do convívio. foi um funeral concorrido. muitas pessoas em ordeira manifestação de pesar. seguia o carro à frente com o caixão. e o dia negro. as pessoas de cabeça baixa, murmuravam as conversas do dia-a-dia, e todos a olharem a viúva perto do antónio. lá na frente. e o dia escurecendo mais. chegaram às portas do cemitério, descerraram o lençol que vinha em cima da urna, e os quatro irmãos, incluindo o antónio, pegaram no corpo e ali no centro do cemitério, pousado no que chamavam de banco, foram ditas as palavras tantas vezes repetidas pelos anos fora, e que todos sabiam quase de cor. a hora do fim desta mulher chegara devagar e lento, tal como ela não queria. ou o antónio começou a chorar, ou a chuva começou a cair. levaram a caixa pesada e enterram junto da do marido. o antónio não deitou o punhado de terra. todos os seus irmãos fizeram essa gesto de traição. e jurou a si mesmo que vira os dois, o seu pai e a sua mãe a sair pelo portão de mão dada. olharam para trás e sorriram ao partir.
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o homem que vêem no comboio, parte para zurique. com o bilhete de ida. olha pela janela e pensa que finalmente se vai livrar dos seus erros de sempre.

os 47 dias do desterro (XX)

[534]

o homem que vemos por estes dias deambulando na sua vida diária, normal, descomprometido perante o que se assume corriqueiro, vive os dias assim, incertos, maleáveis ao sabor das vontades do seu intimo, dos desejos mais banais, como o que ele agora faz. sentado em cima de uma monte de terra, fresco e fumegante do frio, ele fuma o seu cigarro, naquele que sabemos ser o 47º buraco e último da sua vida. neste seu quintal.
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os seus dias tem sido premonitórios, de sabores a batata cozida e um peixe, ora cozido ora grelhado no seu fogão de sala. vive assim só e em paz. vive de fugazes escapadelas à mulher da sua vida. a viúva cada vez mais saborosa, não tanto como o peixe, embora de sabor a pele com água de colónia feminina, tem sido o plano mais simples e conseguido de toda a sua existência.
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a espontânea conversa de café, fim de tarde arrefecendo ao ritmo dos minutos a passar, e ao por do sol do lado da torre da igreja, foi interrompida pela visita de uma assistente do lar onde a minha mãe estava a viver os seus dias. eu a sentir pulsar nos meus dedos as premonições que me invadiam nos últimos tempos, o dia a escurecer enquanto eu me aproximava do lar e a cor dos meus olhos a tornarem-se brilhantes. ao aproximar-me do quarto onde a minha mãe descansava, julguei ter tido a visão de uma sombra encostada no fundo do corredor, e a assistente disse para eu não fazer muitas perguntas. a minha mãe estava com o seu ar cansado, mas aparentava uma calma que não me impressionava, dada a sua apetência para gostar dos seus dias do fim. ele olhou para mim virou-se, e pela primeira vez falou desde o o dia em que quase se afogara. disse-me que deixasse tudo o que tinha e a partir de amanhã fugisse com tudo para junto dos meus irmãos emigrados. fiquei espantado por ter falado e por me ter aconselhado a partir. ela suspirou e não falou mais. quando saí a sombra estava ao pé dela e pareceria a silhueta do meu pai, que nunca mais me visitara em sonhos. a minha mãe morreu nessa noite.
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questiono-me se o meu erro ainda se manteria ao continuar naquela terra.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XIX)

[530]

vivemos o que temos de viver, sentimos a falta dos dias que passaram, nas horas que agora vivemos. e em esquinas com desencontros de caras familiares, vi o rosto dela em espelhos da minha alma. demasiados dias pesados, contrabalançados ao sabor da alegria que encontrei nos meus livros. depois a morte do meu pai derreou por completo a minha vontade em viver de sorriso nos lábios. eu era o triste sinal dos tempos. a prova de que haveria gente a viver uma vida inteira de desgraças.
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os dias depois da morte do pai, em que todos sabem que a minha mãe se prostrou perante o empenho resignado da sua força, acorrendo aos fugazes momentos tarefeiros da casa, ela viveu sem ser mais nada do que um autómato de movimentos. eu cuidei de terminar todas as coisas que precisavam ser feitas. defendi e protegi a minha mãe das pobres cadências de tempo, tentando resgatá-la do marasmo.
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dias houve em que ia ao cemitério só tentar sentir a presença do meu pai. e consegui muitas vezes, antes de ele me aparecer em sonhos, vibrar com o vento que me trazia a sua voz, tantas vezes fria como o ar.
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os dias trazem-nos surpresas. uma certa manhã em que renovava as flores do vaso que tinha a sepultura do meu pai, vi ao longe um vulto negro, sentado no banco, apreciando as árvores altas e esguias do cemitério. eu sabia que era ela. aproximei-me a medo e com cuidado redobrados, sabendo que em todas as vezes que me aproximei ela fugiu no dia seguinte. mas desta ela não iria. viera visitar o pai e o seu negro era condição da viuvez. o engenheiro falecera em alto-mar. e ela regressara há dois dias a casa do seu pai para se instalar definitivamente. o meu coração bateu pouco, estava seco, e o caminho que eu percorrera de solidão, dera-lhe uma rigidez pouco maleável perante o amor da minha vida. ela pediu-me que passasse em sua casa para que eu pudesse trabalhar em alguns arranjos, umas obras necessárias ao seu regresso.
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esse primeiro dia, foi o dia em que eu estive com a viúva pela primeira vez. a filha do doutor, agora viúva, estava em casa a todo o tempo e dizia-me só, que ninguém nos poderia impedir os dias de aconchego que ambos queríamos. assim foi por muito tempo. eu visitava a viúva algumas vezes, sem avisar, sem dizer palavra e nós éramos desconhecidos dentro de nós, mostrando mutuamente o nosso exterior, expondo a nossa liberdade final, pouco viva e febril, mas sincera e carinhosa.
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esses dias em que meditei partir, o meu erro foi ter ficado.

sábado, 15 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XVIII)

[527]

o dia amanheceu cinzento na terra do nada. na terra que hoje estava calada. o doutor morreu. o seu coração não resistiu a uma síncope cardíaca. as nuvens carregadas, aliando-se ao peso da terra, as nuvens com olheiras do choro incessante, as nuvéns ainda vão chorar mais no dia de hoje, mais para a hora do funeral.
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a azáfama da minha mãe, a correr de um lado para o outro, a ir à florista, a arranjar linho do melhor que houvesse, a ajudar a mulher do doutor, que coitada, aturdida pelo choque, nem falava. eu ajudei a abrir a cova. queria ajudar o homem que me ajudou em muitos dias. a mim, aos meus irmãos, ao meu pai à minha mãe. não sei se era a melhor forma, mas depois de morto, não haverá muito a fazer pelo seu corpo, a não ser rezar pela sua alma.
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eu sabia que ela viria. e quando estavam a velar o corpo lá em casa, eu fui dar os meus pêsames à familia, mostrar os meus sinceros sentimentos de compaixão com aquela dor. repentina. ela estava ali um pouco parada no tempo, ou fui eu que a parei pelo modo como a olhei. inclinei-me respeitosamente e agarrei a sua mão para a cumprimentar. nesse momento revisitei os lugares frios e frescos da quinta, os anos passados acabrunhado na leve de dor de a não ter um dia só para mim. ela agradeceu e deu-me um bilhete para nos encontrarmos no dia seguinte.
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eu fui a casa dela nas horas em que o sol não nos faz sombra. entrei e fiquei calado. senteado ao lado do piano, as fotos do morto por todo o lado, e eu ali a olhar para a casa muitas vezes familiar, agora demasiado vazia e parada. ela entrou com um chá para mim. disse-me, preciso que me faças um favor, inclinando-se para a frente disse-me as palavras quentes do calor que da sua boca atravesssou a minha pele em direcção ao meu desaranjo cardíaco..
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antes de saír ela agarrou a minha mão e puxou-me para o quarto. sem palavras. sem gestos bruscos, despiu-se no quarto dos fundos, onde dormia a miquinhas, e despiu-me a mim, sempre sem palavras, em olhares misturados de ternura e suavidade, com as carregadas formas de ter passado o dia anterior a chorar. e assim foi que eu libertei o meu espírto. ela desencarcerou a agonia que carregava, o marido em alto mar, eu ali a tocar a pele da perna, entrando e saindo na porta fechada durante anos no meu pensamento. deitei-me um instante no seu peito branco, e fiquei parado em suspenso até que ela me empurrou de cima dela e saímos. ela teria de voltar ao seu mundo. e eu ao meu desterro.
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o cheiro em mim é o mesmo a colónia feminina. embora o erro estive sempre presente num dos quadros que nos olhou o tempo todo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XVII)

[525]

eu fiquei sem trabalho na quinta do passal. fiquei uns dias a pensar naquilo. o meu pai olhou um dia para mim e disse-me que abrisse os olhos e deixasse de pensar na rapariga. e que fosse pedir desculpa ao doutor. eu não fui durante um mês. mas depois de terminado o meu dinheiro, segui o conselho do meu pai, e voltei a trabalhar lá na quinta.
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a filha do doutor foi morar com uma tia para coimbra. iria estudar filosofia, seria doutora a seu tempo, conheceria o rapaz da vida dela, um engenheiro naval, o casamento foi na nossa terra. foi quando a vi pela primeira vez em cinco anos. disse ao meu pai que não iria ao casamento, não iria suportar aquele cenário, mas o meu pai disse-me que nem pensasse em desrespeitar de novo o doutor.
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assim foi aquele dia. o triste dia em que a menina casou com o engenheiro da guarda. a minha mãe esteve a coordenar as mulheres para se fazer um tapete de flores da quinta do doutor até à igreja. o meu pai ajudou a montar a tenda dos convidados. e eu ali naquele estado, nem sei se triste, se resignado. ajudava uns e outros e fui obrigado a estar na igreja o tempo todo daquela cerimónia.
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passaram os dias desde o casamento. as horas sobre as minhas mãos. os dias sobre os meses e os anos também se esvaíam sem conta. sem parar o tempo, moldei a minha história a dois dias. os meus erros a assomarem-me nos pesadelos, o meu destino cravado nas pedras, como as farpas que me entravam nas mãos em dias de poda e de vindima. eu contudo não tinha rancor do doutor. a menina vivia em coimbra. e eu vivia o desterro.
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o erro foi o desterro da minha vida.

os 47 dias do desterro (XVI)

[523]

o dia da festa da terra, era a da santa luzia. eu ia com os meus amigos, gastar o dinheiro ganho nas colheitas, nesse trabalho que não mais deixei de fazer desde que o meu pai ficou doente. ele curou-se, rapidamente aliás, e depois dele começar a trabalhar eu continuei a fazer o mesmo de sempre, sempre que me chamava o doutor para alguma labuta diária. e eu adorava lá ir.
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para além de receber dinheirinho ao dia, que eu juntava por ser poupado, ia ver algumas vezes a filha do doutor antunes. tinhamo-nos tornado amigos, viamo-nos com frequência, mas sempre às escondidas porque o pai da menina não gostava que ela andasse pela quinta a conversar com os trabalhadores. e era compreensível que para alguém com o sobrenome dela teria de ter cuidado com as amizades. ela contudo era rebelde e gostava de fugir de vez em quando, tantas vezes àquele lugar do moinho, onde nos havíamos encontrado a primeira vez.
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eu sabia que a festa deste ano seria um portento. a maior banda de música da região estaria lá. os ranchos cantariam três dias seguidos, os cantares populares e ao desafio seriam para uma semana, e eu com a minha ideia de tentar beijar a filha do doutor. a festa começava no dia dos caretos. era na quarta-feira que depois da meia noite, os rapazes da freguesia iam pelas casas a pegar em tudo o que lhes aparecia pela frente. vasos, carrinhos de mão, enchadas, pás, sacos de fermentos, e até uma carroça trouxeram para o adro da igreja. no dia seguinte a aldeia toda ia ver os estragos e riam toda a manhã dos que tinham de ir buscar os seus utensílios, tantas vezes pigarreando contra a juventude, gritando, não há remédio, no meu tempo era com pau de marmeleiro que isto se resolvia.
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na noite do baile, eu vi a menina mas ela vinha com o doutor. tive o cuidado de esperar que ele se distraísse, agarrei a mão dela e puxei-a para as traseiras da igreja. ela sorriu, sabia há muito que eu ansiava pelo seu beijo. ela ria muitas vezes com o mesmo brilho do primeiro dia que nos vimos. senti de novo o cheiro a água de colónia, e finalmente pousei a minha mão na sua perna. ia beijar a menina, ela de olhos fechados, eu de olhos abertos a gravar o momento, quando o pai dela aparece do nada e agarrando-me pela camisola sacode-me com a força da raiva e olhando-me nos olhos disse o que nunca mais esqueci na minha vida, nunca mais verás a minha filha.
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o erro dela foi ter gostado de mim. o meu erro foi ter ficado naquela terra.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XV)

[519]

para pagar a dívida ao padre eu tinha de trabalhar. e com meu pai de cama eu tinha ainda mais responsabilidade. pensei durante uns dias e decidi pedir ao doutor antunes o favor de me arranjar trabalho na sua quinta. eu sabia que ele pedia trabalhadores sazonalmente, ora para as vindimas, ora para apanhar castanhas, ora para colher fruta, e por aí em diante, para todos os trabalhos em que os seus caseiros eram poucas mãos para o necessário.
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sabia que a filha do doutor poderia estar lá. espreitei até por entre as portas para perscrutar a visão que sonhei durante alguns dias. a miquinhas chegou por trás e ao tocar-me no ombro dei um salto e ela riu dizendo-me e novo que não olhasse a menina do patrão daquela maneira.
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estava já a apanhar as maçãs nessa tarde, quando o caseiro nos trouxe uma pinga de vinho. confesso que nunca apreciei muito o vinho, bem sei que não é normal, mas eu não sou a normalidade que se vê em todos os livros. não sou um agricultor da estirpe do meu pai. a bem do convívio bebo, porque eles ficariam ofendidos pela recusa. e o frio acaba por passar, seja com o trabalho, seja com a força do vinho.
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quando podava os galhos da macieira mais pequena do campo, junto ao moinho ali bem perto do rio, ouvi de lá de dentro um barulho estranho. fui devagar a ver o que por ali andava. ao entrar ela nem pestanejou, sorriu e fez um sinal para eu me aproximar. ela tinha a perna de fora do vestido. que visão ainda mais doce do corpo de mulher. que momento eterno. que sensação de fraqueza me deu nas mãos ao encostar a porta. ela brincava com coelho que tinha fugido. disse-me que vinha atrás dele e entrara ali. sentada à espera, em cima de uns quantos sacos de farinha, disse-me para me sentar ao pé dela. era uma ordem quase. e ao sentar-me ela agarrou na minha mão e disse para sentir a respiração do coelho. eu pousei a minha mão na pele do coelho e era a dela que sentia. pelo menos isso eu imaginei, eu queria era tocar na pele da perna da filha do doutor antunes. e o coração do coelho batia como o dela. calmo.
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os dias do desterro eram miragens. eu era feliz. e o meu coração batia com a rapidez do rio. e o meu erro foi pensar que ela podia ser minha. o meu erro foi sempre ficar naquela terra.

os 47 dias do desterro (XIV)

[518]


uma noite de chuva assim só pode anunciar o fim do mundo. trovões, rajadas de luz a rasgar a escuridão do quarto, estrondos ensurdecedores e assustadores, chuva incessante, bátegas de águas a correrem pelas caleiras do meu telhado, e eu ali parado. como se todo o mundo estivesse nas tintas para o meu estado. como se o mundo estivesse noutra parte e se eu ali parado fosse só eu. o apêndice do mundo, o apêndice corta-se e pronto. com sorte evita-se males maiores. ninguém precisa dele para nada. corta-se e pronto. eu ali só, pensava nisso mesmo, disse em voz baixa ao mundo, corta-me de ti.
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durante a noite a chuva amainou e ele descansou o que precisava como sempre, até porque se não tivesse conseguido repousar até àquele momento, também não iria conseguir mais, porque o seu pai entrou mais uma vez no seu sonho. era recorrente, embora com o passar do tempo ele aparecesse com menos frequência. vinha de longe a longe e sentava-se aos pés dele, ajeitava a colcha, punha-se confortável, sentava-se e falava. com a sua voz normal, mais pausada, com um ritmo de respiração quase imperceptível, dizia o que lhe ia na alma. nunca falava da sua vida, que estranho, ele morto e eu a pensar que ele ainda tinha vida. e de certa forma tinha. à maneira dele falava da vida que teve connosco. com a minha mãe, quando eram novos, quando saia com os amigos, quando trabalhava para este ou para aquele. e eu ali parado. longe do mundo. nunca tive medo de o ver ali tão perto e tão real, ele morto eu vivo, e a falarmos como se estivéssemos ambos mortos, e na verdade a maioria das vezes mais parecia isso.
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antes de sair nessa noite, enquanto ajeitava a colcha, disse-me que era hora de não mais voltar aos meus sonhos. pediu-me que olhasse pela minha mãe o tempo que lhe restava e disse-me umas quantas palavras que já quase não percebi.
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nessa manhã cavei mais um buraco. o desterro ali ao pé de mim. as minhas mãos a enterrarem as roupas do meu pai. o desterro dele, e o meu também. o buraco tapado e eu a fumar e a pensar que ele ainda voltaria algum dia.
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tinha dito com a voz a desvanecer que o meu erro foi ter ficado naquela terra. e eu sabia que sim.

os 47 dias do desterro (XIII)

[517]

era uma manhã como tantas outras. uma manhã com a luz das manhãs. escuro só eu que tinha de entregar o dinheiro ao doutor para os remédios do meu pai. pelo menos tinha o dinheiro. saí para a luz da manhã igual às manhãs de sempre, a gente na rua igual ao de sempre, os mesmo nas esquinas, os mesmo olhares de desdém iguais ao desdém de sempre. eu saí pelo caminho atrás da casa do doutor.
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eu sei que na porta da entrada havia gravado uma frase em latim. dizia sol lucet omnibus. mais tarde soube que significava, o sol quando nasce, nasce para todos. pelo menos para os daquela casa. era uma casa senhorial, comprada pelo doutor antunes depois de se instalar na nossa cidade. tinha umas portadas altíssimas em ferro pintadas em verde, com desenhos e trabalhos rebuscados com pessoas e animais na lida do campo. era a quinta do passal. vivam lá três caseiros. era uma enormidade em terreno, uma riqueza de videiras, árvores de fruto, água, minas, uma riqueza inesgotável. tinha pertencido ao conde da pulé. o conde falira às mãos das suas sete mulheres. e teve de a vender. em frente do desespero do conde em fazer dinheiro, o doutor antunes comprou-a sem pestanejar, sabendo que fazia um grande negócio.
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quem atendeu ao portão foi a micas. a miquinhas era a caseira serviçal e solteira que vivia na mesma casa, embora dormisse no quarto dos fundos. sorridente, deu-me bom dia e disse-me para esperar porque o doutor ainda estava no seu pequeno-almoço. eu sentei-me a ver os cães a correr pela quinta. eram pelo menos sete. dois deles tinham ar de poucos amigos e foi com um deles que eu corri à frente a fugir e a temer pela vida, um dia que regressava da missa.
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quando o doutor deu ordem para eu entrar já o sol ia alto. eu olhei e pensei que era quente, ameno, gostoso o afogo da sua mão na minha cara, e de repente, ainda aturdido pela luminosidade do astro a ver ondas calor entre as minhas pálpebras, senti o cheiro a perfume, e a água de colónia feminina. era a filha do doutor. estarreci ali a olhar para ela, meio enublada a minha visão, a miquinhas a chamar por mim, venha rapaz, agora que o doutor chamou, e eu ali especado a olhar para a filha do doutor, uma visão tão periférica que desejava poder estar ali ao seu lado como um homem desejado pelas mãos dela.
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entrei, paguei e trouxe os remédios. sabia que não podia olhar para ela. pelo menos não daquela forma. foi a miquinhas que me avisara disso.
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eu sei que a alegria daquele dia não esmorece o meu erro de ter ficado nesta terra.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XII)

[515]

amigos destes eu sabia que não havia. eles eram meus amigos. até já percebia que aqueles momentos da vida de criança nunca voltariam. e eu aproveitava e de que maneira. quem me olhava de canto era o meu pai. ele via a minha mãe a remendar a roupa, ora eram as calças remendadas nos joelhos, ora eram as camisolas cozidas nos cotovelos, tudo em mestria suprema das fadadas mãos da minha santa.
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quando chegava a casa, e a minha mãe dizia-me para ir ajudar a dar os restos de comida aos porcos e eu desaparecia, como quem esquece a tarefa e o dever, e depois paga pelos erros. o meu irmão batia-me com uma ripa em madeira que tinha perto da porta. o meu pai já não dizia nada. delegou nos meus irmãos a responsabilidade de me educarem. até ao dia em que descobri que eles andavam a fumar às escondidas. desde esse dia que não mais me bateram. e o meu pai pensou que eu endireitei de vez.
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nos dias em que não íamos à escola, ficávamos a brincar ao pião. eu tinha um monstro, que o meu irmão gervásio me ajudou a fazer, que metia respeito. era um dos campeões. e eu, em sendo o rei dos piões, comecei a fazer sobressair o meu ego. andei com os meus dois compinchas lado a lado, a mostrar que éramos imbatíveis. e éramos. embora neste tempo as coisas fossem mais triviais, as lutas eram teóricas e simplórias, nunca a vingança pairava nos olhos de quem perdia, e nós éramos o que nunca mais seríamos.
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a rita foi a loira mais inocente que eu conheci. era a boneca feita de pele branca e rosada nas bochechas, de olhos pequenos e brilhantes, que escondia quando alguém olhava no fundo. a rita gostava do zé. e o zé nunca ganhava ao pião. ela andava com a joana nos dias em que jogávamos no campo junto à escola. o zé nunca ganhava ao pião. mas ficou com a rita. e eu até gostava da rita, mas nos meus olhos não havia rancor nem vontade de revanche. cada um era bom naquilo para que tinha nascido. e eu, que tinha rasgado a camisola mais uma vez, sentia-me aliviado porque o meu irmão não me ia bater quando chegasse a casa, porque tínhamos um segredo.
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eram os dias em que errar ao pião não interessava. mas ainda não sabia que errar, era ficar naquele lugar.