sexta-feira, 1 de agosto de 2008

a insigne residência dos limas [2]

[1060]

episódios da vida rural

comecemos pelo princípio.

não era mais fácil que começar uma história de duas pessoas pelo princípio. contudo, o início da relação destes dois não pode ser contada do seu princípio, mas antes do seu começo.

foram apresentados numa festa de amigos comuns, e a discussão azedou um pouco quando os elogios a saramago de um lado, e a lobo antunes do outro, tornou evidente que eram pessoas de opinião vincada e que dificilmente seriam mudadas. terminaram a noite de costas voltadas e nem se despediram no final.
só um mês depois desta festa, se encontraram por acaso numa repartição de finanças local, quando ambos se preparavam para apresentar a declaração de rendimentos. em ambos surgiu um sorriso desarmante como que assumindo a infantilidade da discussão que os separou naquele dia,



bom dia, suponho que posso acompanhar a menina para não ter de aguentar esta fila enorme em solidão.

claro que sim, julgo que nossa discussão foi um pouco despropositada e desmesurada, e peço desculpa pela minha atitude.

ora essa, eu é que peço desculpa, não me parece que Saramago mereça esta desavença.

concordo consigo

contigo, trata-me por tu.




seguiram assim durante uma hora, a conversa animando, ambos falando sobre as suas tarefas, longe do clima crispado em que se tinham conhecido.

(as intricadas anomalias dos fusíveis que regem o destino, permitiram que se encontrassem mais uma ou duas vezes sem intenção, sendo que ao terceiro encontro já tudo se fazia com o propósito de conhecerem, e o brilho nos olhos de ambos reacendia-se a cada novo encontro, provando que a paixão não se rende aos caminhos desencontrados.)

o nosso casal, que hoje se senta na varanda do quarto, virada a sul com vista sobre o jardim e o quintal, tomando um chá frio refrescando na noite de verão, é uma forma de vida unificada pelo tempo, pelas horas de algum desconforto, pelas dificuldades iniciais de um casal, por tudo o que confirma a existência de um amor sacrificado.

ele levanta-se sempre devagar, beija-a na testa, e procura o romance de saramago para reler, as obras favoritas que se mantêm numa colecção especial, sempre prontas a salvarem os seus olhos antes de dormir.
e tantas vezes é ela quem lhe retira o livro das mãos, e com um beijo pousado de forma suave, apaga a luz do candeeiro, lembrando a discussão que tiveram numa noite em que os astros renunciaram a vigiar este amor que de tão impossível se tornou verdadeiro.

(hoje a lua parece um pouco normal, sem poesia, sem brilho, feita de esfera vulgar. talvez seja assim para não ofuscar certos momentos em a luz prata emana de uma casa perdida numa terra sossegada, em que nada se desproporciona do equilíbrio universal.)

1 comentário:

Fernando Pessoa disse...

desculpem lá.

só agora me apercebi que este texto ficou muito "light", demasiado margarida rebelo pinto.

pelo sucedido, as minhas desculpas...