segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XIX)

[530]

vivemos o que temos de viver, sentimos a falta dos dias que passaram, nas horas que agora vivemos. e em esquinas com desencontros de caras familiares, vi o rosto dela em espelhos da minha alma. demasiados dias pesados, contrabalançados ao sabor da alegria que encontrei nos meus livros. depois a morte do meu pai derreou por completo a minha vontade em viver de sorriso nos lábios. eu era o triste sinal dos tempos. a prova de que haveria gente a viver uma vida inteira de desgraças.
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os dias depois da morte do pai, em que todos sabem que a minha mãe se prostrou perante o empenho resignado da sua força, acorrendo aos fugazes momentos tarefeiros da casa, ela viveu sem ser mais nada do que um autómato de movimentos. eu cuidei de terminar todas as coisas que precisavam ser feitas. defendi e protegi a minha mãe das pobres cadências de tempo, tentando resgatá-la do marasmo.
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dias houve em que ia ao cemitério só tentar sentir a presença do meu pai. e consegui muitas vezes, antes de ele me aparecer em sonhos, vibrar com o vento que me trazia a sua voz, tantas vezes fria como o ar.
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os dias trazem-nos surpresas. uma certa manhã em que renovava as flores do vaso que tinha a sepultura do meu pai, vi ao longe um vulto negro, sentado no banco, apreciando as árvores altas e esguias do cemitério. eu sabia que era ela. aproximei-me a medo e com cuidado redobrados, sabendo que em todas as vezes que me aproximei ela fugiu no dia seguinte. mas desta ela não iria. viera visitar o pai e o seu negro era condição da viuvez. o engenheiro falecera em alto-mar. e ela regressara há dois dias a casa do seu pai para se instalar definitivamente. o meu coração bateu pouco, estava seco, e o caminho que eu percorrera de solidão, dera-lhe uma rigidez pouco maleável perante o amor da minha vida. ela pediu-me que passasse em sua casa para que eu pudesse trabalhar em alguns arranjos, umas obras necessárias ao seu regresso.
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esse primeiro dia, foi o dia em que eu estive com a viúva pela primeira vez. a filha do doutor, agora viúva, estava em casa a todo o tempo e dizia-me só, que ninguém nos poderia impedir os dias de aconchego que ambos queríamos. assim foi por muito tempo. eu visitava a viúva algumas vezes, sem avisar, sem dizer palavra e nós éramos desconhecidos dentro de nós, mostrando mutuamente o nosso exterior, expondo a nossa liberdade final, pouco viva e febril, mas sincera e carinhosa.
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esses dias em que meditei partir, o meu erro foi ter ficado.

9 comentários:

elvis disse...

Desfolhar ou folhear?
“O Miguel desfolhou com atenção o livro e não encontrou a receita!”

Nesta frase há uma nítida confusão entre o verbo “desfolhar” que significa “tirar as folhas” e o verbo folhear, que significa “virar as folhas de um livro”, “ler por alto”, “consultar um livro”. Se considerássemos a frase como correcta, significaria que o Miguel tinha arrancado as folhas todas do livro. Se quiséssemos dizer que ele viu todas as folhas e, mesmo assim, não encontrou a receita, então a frase correcta seria:




“O Miguel folheou com atenção o livro e não encontrou a receita!”

Fernando Pessoa disse...

Juro que pensei que tavas morto...

:)

Agora mais a sério,

Já aqui foram feitas muitas vezes tentativas de correcção a algumas das minhas palavras. O que aí está escrito tem dois sentidos, significa claro "folhear" mas também significa "desfolhada" como o cair das folhas de uma árvore como tempo, como o tempo que se demora a ler o livro.

Para mim o português deve ser sempre respeitado, mas a criação ou (re)criação não devem ter limites.

Obrigado.
( o miguel que não encontra a receita, é o gordo, ou o pêlo?)

El Salib disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
El Salib disse...

Eu bem digo. Se fosse o saramago ninguém questionava...

Agora se "questiona-se" a frase "ela pediu-me que passa-se em sua casa".
Mas para isso é que servem os revisores ortográficos.

Teté disse...

Há sim um erro ou outro, mas isso não tira nada ao encanto da história, que é muito poética e triste...

Fernando Pessoa disse...

O problema dos erros ortográficos, está no facto de ter muitas vezes escrito estas histórias em 15 ou 20minutos. De facto o corrector automático não resolve nada. Fui reparando que tinha de ler 3 ou 4 vezes o exto para corrigir todos os textos. Muitas vezes não é possível.

Pelo facto de conter erros (e ninguém mais que eu se irrita com isso) as minhas desculpas.

Fernando Pessoa disse...

O que eu quis dizer, caro amigo salib, é que existindo a palavra "passa-se", o corrector não assume como erro.

El Salib disse...

Tá tudo. Mas revisor ortográfico é diferente de corrector ortográfico. De qualquer forma, eu não escrevi o comentário como uma crítica, era só um comentário na sequência da conversa que tivemos no outro dia acerca das formas de escrever. Coisas de camurcinas...

O Poeta Morto disse...

aqui no blog tratam-se por "caro amigo", na adega é de filho da p*t* e c*r*lh* pa cima...

Somos mesmo uns camurças