sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XVII)

[525]

eu fiquei sem trabalho na quinta do passal. fiquei uns dias a pensar naquilo. o meu pai olhou um dia para mim e disse-me que abrisse os olhos e deixasse de pensar na rapariga. e que fosse pedir desculpa ao doutor. eu não fui durante um mês. mas depois de terminado o meu dinheiro, segui o conselho do meu pai, e voltei a trabalhar lá na quinta.
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a filha do doutor foi morar com uma tia para coimbra. iria estudar filosofia, seria doutora a seu tempo, conheceria o rapaz da vida dela, um engenheiro naval, o casamento foi na nossa terra. foi quando a vi pela primeira vez em cinco anos. disse ao meu pai que não iria ao casamento, não iria suportar aquele cenário, mas o meu pai disse-me que nem pensasse em desrespeitar de novo o doutor.
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assim foi aquele dia. o triste dia em que a menina casou com o engenheiro da guarda. a minha mãe esteve a coordenar as mulheres para se fazer um tapete de flores da quinta do doutor até à igreja. o meu pai ajudou a montar a tenda dos convidados. e eu ali naquele estado, nem sei se triste, se resignado. ajudava uns e outros e fui obrigado a estar na igreja o tempo todo daquela cerimónia.
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passaram os dias desde o casamento. as horas sobre as minhas mãos. os dias sobre os meses e os anos também se esvaíam sem conta. sem parar o tempo, moldei a minha história a dois dias. os meus erros a assomarem-me nos pesadelos, o meu destino cravado nas pedras, como as farpas que me entravam nas mãos em dias de poda e de vindima. eu contudo não tinha rancor do doutor. a menina vivia em coimbra. e eu vivia o desterro.
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o erro foi o desterro da minha vida.

3 comentários:

Teté disse...

Isto quer dizer que faltam 5 episódios, certo?

su disse...

Há farpas que ficam para sempre...histórias do passado que nos visitam como fantasmas. Amores que lembrados sabem como da primeira vez.

Fernando Pessoa disse...

já só faltam 5 capítulos :)