terça-feira, 18 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XXI)

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o homem que vimos muitas vezes a fumar, deitado nos seus dias sonolentos, olhando o futuro e desenhando o passado com as nossas palavras, está definitivamente desprendido da terra. nada mais augura ou aspira a ter neste mundo igual todos os dias, de campos e terrenos lavrados, de dias ao sol e frios, de dias sozinho a ler, a pensar, dos dias com a viúva, ainda que quentes, que já não servem para o prender a este caminho que tem para percorrer.
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depois de fazer o funeral da sua mãe, em que todos os seus irmãos vieram de frança e da suiça, acompanhado ao longe pela ajuda da viúva, nesta altura em que já muita gente sabia da sua concubinagem com ela, e no dia em que todos vieram prestar a sua homenagem tantas vezes só para ver as condições da sua casa, as condições em que vivia, e falar mal da viúva que se entregara a este homem duro, uma mulher da sua condição só podia estar desesperada pelo desgosto.
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o dia foi escuro. escureceu cedo e, como que o dia não existisse, cedo se tornou negro. parecia que aquela terra se entregava a este papel nos dias em que desaparecia alguém do convívio. foi um funeral concorrido. muitas pessoas em ordeira manifestação de pesar. seguia o carro à frente com o caixão. e o dia negro. as pessoas de cabeça baixa, murmuravam as conversas do dia-a-dia, e todos a olharem a viúva perto do antónio. lá na frente. e o dia escurecendo mais. chegaram às portas do cemitério, descerraram o lençol que vinha em cima da urna, e os quatro irmãos, incluindo o antónio, pegaram no corpo e ali no centro do cemitério, pousado no que chamavam de banco, foram ditas as palavras tantas vezes repetidas pelos anos fora, e que todos sabiam quase de cor. a hora do fim desta mulher chegara devagar e lento, tal como ela não queria. ou o antónio começou a chorar, ou a chuva começou a cair. levaram a caixa pesada e enterram junto da do marido. o antónio não deitou o punhado de terra. todos os seus irmãos fizeram essa gesto de traição. e jurou a si mesmo que vira os dois, o seu pai e a sua mãe a sair pelo portão de mão dada. olharam para trás e sorriram ao partir.
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o homem que vêem no comboio, parte para zurique. com o bilhete de ida. olha pela janela e pensa que finalmente se vai livrar dos seus erros de sempre.

9 comentários:

Andy disse...

Seria realmente uma bela imagem ver o pai e mae da maos dadas a sorrirem para ele ... nova blog-novela em zurique?

Teté disse...

Mas ainda falta mais um episódio, não é verdade?

Fernando Pessoa disse...

:)

o andy é que está distraído.

tonsdeazul disse...

Será que é hoje que nos brindas com o último episódio? Ou vais deixar-nos a desesperar por mais uns dias? :)
Depois de tantos anos naquela terra... sempre pensei que o António acabava por ficar nela... será que vai mesmo para Zurique?

Fernando Pessoa disse...

18:00 de hoje.

o final.

Andy disse...

Pareço os putos à porta da loja, à espera do ultimo livro do Harry Potter ... nunca mais chegam as 18 h :)

Fernando Pessoa disse...

Onde está o fim?!

que seca...

Andy disse...

QUEREMOS O FIM
QUEREMOS O FIM
QUEREMOS O FIM
...

Fernando Pessoa disse...

EH...EH...EH...GANDA MALUCO!


AQUI VAI ELE 15 adiantado....

Abraço a todos e obrigado por tudo!