sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XVI)

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o dia da festa da terra, era a da santa luzia. eu ia com os meus amigos, gastar o dinheiro ganho nas colheitas, nesse trabalho que não mais deixei de fazer desde que o meu pai ficou doente. ele curou-se, rapidamente aliás, e depois dele começar a trabalhar eu continuei a fazer o mesmo de sempre, sempre que me chamava o doutor para alguma labuta diária. e eu adorava lá ir.
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para além de receber dinheirinho ao dia, que eu juntava por ser poupado, ia ver algumas vezes a filha do doutor antunes. tinhamo-nos tornado amigos, viamo-nos com frequência, mas sempre às escondidas porque o pai da menina não gostava que ela andasse pela quinta a conversar com os trabalhadores. e era compreensível que para alguém com o sobrenome dela teria de ter cuidado com as amizades. ela contudo era rebelde e gostava de fugir de vez em quando, tantas vezes àquele lugar do moinho, onde nos havíamos encontrado a primeira vez.
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eu sabia que a festa deste ano seria um portento. a maior banda de música da região estaria lá. os ranchos cantariam três dias seguidos, os cantares populares e ao desafio seriam para uma semana, e eu com a minha ideia de tentar beijar a filha do doutor. a festa começava no dia dos caretos. era na quarta-feira que depois da meia noite, os rapazes da freguesia iam pelas casas a pegar em tudo o que lhes aparecia pela frente. vasos, carrinhos de mão, enchadas, pás, sacos de fermentos, e até uma carroça trouxeram para o adro da igreja. no dia seguinte a aldeia toda ia ver os estragos e riam toda a manhã dos que tinham de ir buscar os seus utensílios, tantas vezes pigarreando contra a juventude, gritando, não há remédio, no meu tempo era com pau de marmeleiro que isto se resolvia.
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na noite do baile, eu vi a menina mas ela vinha com o doutor. tive o cuidado de esperar que ele se distraísse, agarrei a mão dela e puxei-a para as traseiras da igreja. ela sorriu, sabia há muito que eu ansiava pelo seu beijo. ela ria muitas vezes com o mesmo brilho do primeiro dia que nos vimos. senti de novo o cheiro a água de colónia, e finalmente pousei a minha mão na sua perna. ia beijar a menina, ela de olhos fechados, eu de olhos abertos a gravar o momento, quando o pai dela aparece do nada e agarrando-me pela camisola sacode-me com a força da raiva e olhando-me nos olhos disse o que nunca mais esqueci na minha vida, nunca mais verás a minha filha.
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o erro dela foi ter gostado de mim. o meu erro foi ter ficado naquela terra.

14 comentários:

tonsdeazul disse...

Oh! Não houve beijo...
Continua que estou a gostar.

Fernando Pessoa disse...

Tanto tempo à espera do beijo, daqui a pouco parece a floribela :)

Fernando Pessoa disse...

Serão 22 episódios...para que fiquem a saber.

Já só falta escrever a partir do 20, e não há ainda final definido, mas pensado...

O Poeta Morto disse...

isso é uma temporada. ainda vai passar para a tv. quando passa na fox? estou a ficar farto do HOuse...

Zé Baptista disse...

Já estou a ver a festa, "Diapasão", "Rancho de Stª Marta de Portozelo" e ao desafio "Canário vs. Peta".

Mais nada!

p.s.- O Dornas é um pinante!

Fernando Pessoa disse...

Ó ZÉ,

EU NÃO SEI SE É, AINDA NÃO SEI SE ELE VAI LÁ CHEGAR!

RSM disse...

Já andei para aí na "candonga" a tentar fazer dowload da obra completa mas não consegui arranjar... o melhor mesmo é aguardar pelo final...

Fernando Pessoa disse...

A obra quando terminar, terá tratamento de design, arranjo de paginação, e compilação em condições. Ficará depois disponível para download, em formato pdf para quem quiser. Já so falta o prefácio.

Companhia das Camurcinas disse...

eu compreendo o meu amigo... eu sei pq tb ja fui artista!! :)
e nas minhas obras o final era sempre uma grande emoção... e o dornas vai acabar por beijar a filha do doutor... mas depois pela força do destino vão separar-se para sempre...

:)

RSM disse...

Tu é que és o verdadeiro artista... O heroi... artista... artista... artista... lembras-te?

Quem é que vai escrever o prefácio, tamos todos anciosos por ver isto nas bancas...

Fernando Pessoa disse...

voces a precionarem o finla da história......so faltam escrever dois capitulos..

vão ser mais longos e mais dedicados ao coração :)

e ao final ainda incógnito...

Teté disse...

Eh, eh, eh! Tanta sugestão...

O que é um pinante?

su disse...

Amores lá da terra...os encontros proibidos! :) As tradições, os recantos.

:)

RSM disse...

Tété, com essa do que é um pinante? Fizeste-me rir...

Amigo Batista vê lá se explicas á amiga Tété o que é isso...