quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XV)

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para pagar a dívida ao padre eu tinha de trabalhar. e com meu pai de cama eu tinha ainda mais responsabilidade. pensei durante uns dias e decidi pedir ao doutor antunes o favor de me arranjar trabalho na sua quinta. eu sabia que ele pedia trabalhadores sazonalmente, ora para as vindimas, ora para apanhar castanhas, ora para colher fruta, e por aí em diante, para todos os trabalhos em que os seus caseiros eram poucas mãos para o necessário.
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sabia que a filha do doutor poderia estar lá. espreitei até por entre as portas para perscrutar a visão que sonhei durante alguns dias. a miquinhas chegou por trás e ao tocar-me no ombro dei um salto e ela riu dizendo-me e novo que não olhasse a menina do patrão daquela maneira.
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estava já a apanhar as maçãs nessa tarde, quando o caseiro nos trouxe uma pinga de vinho. confesso que nunca apreciei muito o vinho, bem sei que não é normal, mas eu não sou a normalidade que se vê em todos os livros. não sou um agricultor da estirpe do meu pai. a bem do convívio bebo, porque eles ficariam ofendidos pela recusa. e o frio acaba por passar, seja com o trabalho, seja com a força do vinho.
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quando podava os galhos da macieira mais pequena do campo, junto ao moinho ali bem perto do rio, ouvi de lá de dentro um barulho estranho. fui devagar a ver o que por ali andava. ao entrar ela nem pestanejou, sorriu e fez um sinal para eu me aproximar. ela tinha a perna de fora do vestido. que visão ainda mais doce do corpo de mulher. que momento eterno. que sensação de fraqueza me deu nas mãos ao encostar a porta. ela brincava com coelho que tinha fugido. disse-me que vinha atrás dele e entrara ali. sentada à espera, em cima de uns quantos sacos de farinha, disse-me para me sentar ao pé dela. era uma ordem quase. e ao sentar-me ela agarrou na minha mão e disse para sentir a respiração do coelho. eu pousei a minha mão na pele do coelho e era a dela que sentia. pelo menos isso eu imaginei, eu queria era tocar na pele da perna da filha do doutor antunes. e o coração do coelho batia como o dela. calmo.
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os dias do desterro eram miragens. eu era feliz. e o meu coração batia com a rapidez do rio. e o meu erro foi pensar que ela podia ser minha. o meu erro foi sempre ficar naquela terra.

2 comentários:

Teté disse...

Ui, ui, 3 episódios de seguida...

Fernando Pessoa disse...

:)

o homem queria chegar rápido....