sábado, 15 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XVIII)

[527]

o dia amanheceu cinzento na terra do nada. na terra que hoje estava calada. o doutor morreu. o seu coração não resistiu a uma síncope cardíaca. as nuvens carregadas, aliando-se ao peso da terra, as nuvens com olheiras do choro incessante, as nuvéns ainda vão chorar mais no dia de hoje, mais para a hora do funeral.
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a azáfama da minha mãe, a correr de um lado para o outro, a ir à florista, a arranjar linho do melhor que houvesse, a ajudar a mulher do doutor, que coitada, aturdida pelo choque, nem falava. eu ajudei a abrir a cova. queria ajudar o homem que me ajudou em muitos dias. a mim, aos meus irmãos, ao meu pai à minha mãe. não sei se era a melhor forma, mas depois de morto, não haverá muito a fazer pelo seu corpo, a não ser rezar pela sua alma.
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eu sabia que ela viria. e quando estavam a velar o corpo lá em casa, eu fui dar os meus pêsames à familia, mostrar os meus sinceros sentimentos de compaixão com aquela dor. repentina. ela estava ali um pouco parada no tempo, ou fui eu que a parei pelo modo como a olhei. inclinei-me respeitosamente e agarrei a sua mão para a cumprimentar. nesse momento revisitei os lugares frios e frescos da quinta, os anos passados acabrunhado na leve de dor de a não ter um dia só para mim. ela agradeceu e deu-me um bilhete para nos encontrarmos no dia seguinte.
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eu fui a casa dela nas horas em que o sol não nos faz sombra. entrei e fiquei calado. senteado ao lado do piano, as fotos do morto por todo o lado, e eu ali a olhar para a casa muitas vezes familiar, agora demasiado vazia e parada. ela entrou com um chá para mim. disse-me, preciso que me faças um favor, inclinando-se para a frente disse-me as palavras quentes do calor que da sua boca atravesssou a minha pele em direcção ao meu desaranjo cardíaco..
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antes de saír ela agarrou a minha mão e puxou-me para o quarto. sem palavras. sem gestos bruscos, despiu-se no quarto dos fundos, onde dormia a miquinhas, e despiu-me a mim, sempre sem palavras, em olhares misturados de ternura e suavidade, com as carregadas formas de ter passado o dia anterior a chorar. e assim foi que eu libertei o meu espírto. ela desencarcerou a agonia que carregava, o marido em alto mar, eu ali a tocar a pele da perna, entrando e saindo na porta fechada durante anos no meu pensamento. deitei-me um instante no seu peito branco, e fiquei parado em suspenso até que ela me empurrou de cima dela e saímos. ela teria de voltar ao seu mundo. e eu ao meu desterro.
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o cheiro em mim é o mesmo a colónia feminina. embora o erro estive sempre presente num dos quadros que nos olhou o tempo todo.

2 comentários:

Teté disse...

Hummm... isto está a aquecer, ou a arrefecer?

Fernando Pessoa disse...

Está só a terminar...

:)