terça-feira, 11 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (XI)

[513]

na semana seguinte à missa do galo o meu pai começou a ficar doente. um dia estava cansado e foi mais cedo para a cama. no dia seguinte estava com febre alta e já não saiu de tarde. no dia seguinte ardia em temperatura, delirou com uma dívida ao mercador e já não saiu sequer da cama. a minha mãe estava preocupada e queria chamar o médico. o meu pai vociferou que ia custar muito dinheiro, que não precisava de nada disso, que no dia seguinte ia estar pronto para trabalhar, e embora nem ele acreditasse nisso, a minha mãe esperou até ao final da tarde. ouvi-o a vomitar, com a força que lhe trazia do interior o nada. o nada que comera ao almoço e ao lanche, o pouco do pequeno almoço.
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eu estive a tratar das ervas daninhas. alguém tinha de o fazer. fui percorrer o campo, a horta, os animais tal qual o dono da casa, que se assumia nessa hora difícil. tentei acalmar a minha mãe, e dado que ele delirava cada vez mais sobre uma dívida que eu desconhecia, dei a minha primeira ordem em casa, vai chamar o médico. parecia que a voz abafada do meu pai, pela agonia e pelo sofrimento, saiu dele e entrou em mim, tal foi o estranho olhar que a minha mãe me deu. nem sei se ela orgulhosa de mim por assumir a situação, se por estranhar ver-me crescido de repente.
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quando o médico chegou e o analisou, rapidamente chegou a um consenso no diagnóstico. tinha contraído tuberculose. depois de ter auscultado o corpo do meu pai, já um pouco magro e com as suas peles enrugadas e brancas, ele disse que os remédios poderiam ser caros, até porque os teríamos de tomar todos lá em casa. disse-lhe que levaria o dinheiro no dia seguinte.
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andei a circular um pouco pela avenida com a ideia de pedir emprestado o dinheiro que faltava. pensei na minha tia, a julieta. ela não falava com o meu pai há mais de dez anos. ou era ele que não lhe falava a ela, mas isso nunca percebi. e sei que se lá fosse, ela nos emprestaria o dinheiro. e quando entrei na igreja para meditar um pouco na solução, o padre sentou-se ao pé de mim e disse, que problemas te trazem cá antónio? e eu respondi de forma fugaz, a fé. ele riu-se e disse-me que estava à minha espera com o dinheiro na sacristia. eu agradeci e prometi devolver o mais rápido possível.
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eu sei que um homem de cabeça erguida é um homem que saldas as suas dívidas. um homem que não erra. mas eu errei ao ter ficado nesta terra.

5 comentários:

Teté disse...

Estou a seguir a triste vida do António... Tirando lá a história com a viúva, e das cavadelas de buracos, o coitado não tem grandes recordações...

Fernando Pessoa disse...

:)

vocês pressionam-me ...

:)

há-de chegar a altura de decidirem o que fazer da vida do antónio...

Anónimo disse...

Pode virar cantor e chamar-se TOY :)

Teté disse...

Já não digo mais nada... Só continuo a ler!

Mas aquela ideia do Toy é aberrante...

Anónimo disse...

Cara teté
A minha proposta para a vida do antónio foi uma tentativa (falhada por sinal :) ), de fazer uma piada ... naturalmente que não é isso que espero, a história está cheia de emoção e enfeitiça-nos demasiado para terminar assim ... espero que continues a segui-la e comenta-la sem levar muito a sério o que digo , afinal de contas só digo asneiras segundo a minha mãe ...