sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (VII)

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fumava um cigarro de manhã, um a meio da manhã e outro logo a seguir ao toque da saída para o almoço. o antónio trazia consigo a marmita com o resto da comida que preparava no jantar. nunca se sentava ao pé dos colegas. era de poucas conversas e depois do almoço ficava a admirar os autocarros a passar. esperava sempre pelo mais recente e bonito. um dia decidiu ir nele dar uma volta só para lhe sentir o cheiro a novo. prometeu a si mesmo que iria um dia ser dono de uma viagem à volta do mundo.
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quando parou de chorar, no quarto dia seguinte à morte do seu pai, teve o trabalho a dobrar para poupar a sua mãe aos discursos de lamentos dos vizinhos, dos conhecidos e familiares e também do homem da funerária. decidiu pegar no dinheiro que havia poupado durante uns tempos, que estava num falso do chão do seu quarto, e foi ao centro da cidade tratar da papelada e da burocracia para pagar todas as dívidas do velório. as flores, o caixão, a charreta, o padre, o padre? também o padre custa dinheiro? e seguiu para registar o óbito na conservatória e tratar da papelada para dividir a herança por todos os irmãos. não era muita coisa, mas sabia que poderia dar confusão.
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só no fim do dia passou pelo armazém onde trabalhava a dizer que regressaria no dia seguinte. e claro, ainda a tempo de se intolerar com as palmadas nas costas de uns quantos que nunca se interessaram por ele.
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quando chegou a casa, a vizinha saiu e disse-lhe que mais uma vez a sua mãe nada havia dito durante todo o dia. sentou-se ao pé dela e sem força para fazer absolutamente mais nada, deitou-se no seu regaço. encostou a cabeça e já não foi a tempo de ver uma lágrima que caía do rosto da velhota., enquanto lhe passou a mão no cabelo dele.
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nesses minutos suspirou pelo seu erro. suspirou por ter ficado naquela terra.

7 comentários:

Teté disse...

Continuo a ler...

Teté disse...

E o Rio das Flores já mora aqui em cima da secretária, aguardando que acabe primeiro o anterior...

su disse...

Um dia vai saber que se calhar ainda bem que ficou naquela terra...tudo a seu tempo e a seu lugar...mas estou como a teté...continuo a ler!

angela disse...

também eu,
leio

inês disse...

vou ter que ir atrás!

BFDS

Taveira disse...

Também tenho de ir atrás!!!

;-)

Fernando Pessoa disse...

Confesso que até eu continuo a ler :)

E o livro de García Márquez passou à frente do rio das flores. Prioritário é claro :)