segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (X)

[507]

o antónio é assim desde que cresceu rápido. é assim desde que se apercebeu que o mundo é mundo duro de roer e de digerir. o antónio é o mistério encarnado na forma de ninguém. o seu misterioso hábito é o serviço de ser ele para ele e para mais ninguém. mesmo que mais ninguém o compreenda. mesmo que lhe chamem coveiro. mesmo que às vezes trocem do seu hábito..
.
na primeira vez que cavou um buraco no seu quintal, vivia já sozinho. tal era a sua raiva acumulada que ao passar da porta de entrada para o quintal a enchada foi a primeira coisa que apanhou pela frente, e pegou nela ao mesmo tempo que via distorcida a realidade e as cores do dia. ao enterrar na terra a enchada, sentiu o alívio desanuviante do acto e quanto mais cavava mais se sentia livre do podre que havia acumulado nos dias de rancor. e cavava mais fundo até que parou, quando a altura do buraco já o cobria. espreitou em redor a verificar se nenhum vizinho o avistava e então largou no fundo o livro que acabava de ler.
.
quase não conseguiu sair do buraco. elevou-se de modo a segurar com a força que tinha, já pouco do esforço e saltou cravando as botas em duas pequenas pedras salientes da terra. olhou uma vez mais o livro que acabara de ler e de odiar. de um só impulso empurrou toda a terra para cobrir o fundo. como no ida em que enterrara o seu pai. como no dia em que sentiu trair o seu progenitor, ao ajudar ao seu encarceramento final.
.
depois de cobrir bem o buraco, e de ter sobrado terra suficiente para fazer um pequeno monte, sentou-se em cima a fumar um cigarro. sentiu as mãos quentes e doridas. sentiu-as palpitar teve de fazer um esforço para que o cigarro não caísse. sentiu nesse momento a leveza mais pesada dos últimos anos. e sentiu que podia fazer aquilo por muitos dias, na hora em que a raiva invadisse a sua casa sem a licença devida.
.
naquelas horas de descanso pensava que o seu erro era ficar naquela terra, mesmo que por vezes aliviado.

6 comentários:

tonsdeazul disse...

Este António Dornas está sempre a surpreender-me!! :)
Sempre quero ver como é que tudo vai acabar... continua.

Teté disse...

É, já temos explicação para a alcunha de coveiro...

Andy disse...

Aposto que ele enterrou o livro de Sao Cipriano juntamente com uma pata de galinha preta e sapo de boca cosida ...

Andy disse...

Agora a serio ... continua amigo ... tou a seguir a tua carreira nos bastidores :) ... e ja sabes um dia o conto terá forma fisica

su disse...

E a história continua...e o buraco é na terra ou na sua alma?!

Fernando Pessoa disse...

Su,

E que tal nas duas?