sábado, 8 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (VIII)

[post 500]
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tem dias de azia tão intensa que parece que lhe vai sair das entranhas o aziomado mundo que se lhe acumulou de tristeza ao longo dos anos. ele encolhe-se de mansinho nos cobertores, tantas vezes húmidos do inverno, que sente entrar nos ossos o gelo da natureza, como um aviso de que a dor que sente nas articulações são resultado do duro enfrentar dos dias.
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quando subiu a escadaria que dava acesso à sua casa, espreitou os animais que vivem por baixo e tudo estava como sempre calmo, sentindo aproximar-se o fim da luz do dia. sacudiu os pés no tapete aspro e rude que se apresenta na porta de entrada, outrora azul, hoje quase palete de cor de tantas vezes usado por todos. as galochas da lida de campo são deixadas na entrada e quando calçava as socas de andar por casa, aninhando-se para as ajeitar, levantou a cabeça na direcção da cozinha e viu a sua mãe deitada na mesa, inerte, para, suspensa pelo escuro que a encobria. entrou a estranhar a fraqueza da mulher forte, de mansinho acendeu a vela do candelabro, e reparou na carta que a sua mãe tinha debaixo dos braços. o meu pai estava fora e eu comecei a ler a carta.
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foi nesse dia que a minha soube que o meu irmão mais velho, gervásio dornas, tinha finado ao serviço dos interesses militares. da estratégia dos grandes de lisboa, do senhor do poder, de quem não se poderia falar, nem reclamar, nem sussurrar. a minha mãe esteve em lágrimas o dia todo, desde que o vizinho a viera avisar de que tinham enviado a lista dos três nomes que seriam condecorados.
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ela olhou para mim e agarrou no meu braço. disse-me baixinho, tu não vais para a guerra. quando fizeres 18 anos e te quiserem levar, eu arranjo maneira de fugires. eu assenti com a cabeça. não tinha medo da guerra. eu queria até ir para a guerra. pelo menos até esse eu queria. o meu irmão chegará daqui a uma semana e eu estarei ao pé do meu pai para receber o seu corpo. O primeiro corpo que eu veria em vida. nesse dia eu não chorei.
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nesse dia eu senti começar a minha própria guerra. porque nesse dia eu sei que o meu erro seria ter ficado naquela terra.

4 comentários:

Fernando Pessoa disse...

obrigado a todos. pelos comentários. escrevo hoje como que para agradecer essas voças palavras. raramente escrevo ao fim-de-semana.

até a mim me custa deixar o antónio sem vida durante dois dias. :)

enjoy it my friends.

Fernando Pessoa disse...

obrigado a todos. pelos comentários. escrevo hoje como que para agradecer essas voças palavras. raramente escrevo ao fim-de-semana.

até a mim me custa deixar o antónio sem vida durante dois dias. :)

enjoy it my friends.

Teté disse...

Parabéns pelo post 500. Esta é a parte VIII, Fernando...

Bom Domingo para ti!

tonsdeazul disse...

500 publicações é obra! :) Parabéns.
Continua com a história, porque estou a gostar de lê-la.
Com certeza que amanhã haverá mais, por isso até lá.