quarta-feira, 19 de março de 2008

sopros de vento frio

[823]

sorrateiramente umas folhas levantaram do chão. o outono, tantas vezes ameno, tornou-se demasiado frio desde os anos do fim da guerra. as trincheiras que se abriram, os ruidos que persistem em correr com este vento, trazem à memória de todos a lembrança da privação. nem sei se não será por isso que o frio se tornou tão espesso, carrregado e escuro. as folhas voam em direcção ao lago. jazem milhares nesta época, como se o lago as pudesse devolver à vida, como se a morte, inevitável, pudesse ser resgatada do fundo do lago e ser trazida à tona em forma de verdes escuros, violetas e viçosas flores.
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imagem roubada de forma indecente daqui [existir em intermitências]
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já ninguém volta aos dias em que as bicicletas circulavam com as meninas sentadas nos cestos de vime, loucas pela juventude em precoces chegadas, doidas pela paixão, abraçadas pelos verdes jardins, e com sorridentes espelhos de alma reflectidos neste lago. já ninguém vem aqui. suspiro tantas vezes por aquelas tardes de sábado em que todos nos sentavamos a recitar um poema. e os gladíolos alaranjados e amarelos que arranquei em cuidadosos espaços, trouxeram uma raíz que ainda hoje se entranhou no meu peito. deixei de regar esta planta do peito. mas já ninguém volta aqui.
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sentei-me tantas vezes aqui, a relembrar essa tarde. tantas que os bancos do jardim já se esqueceram de como eras. mas eu não. meu gladíolo.

2 comentários:

Fernando Pessoa disse...

diz a s.

"diz-se por aí que niguém vive sem palavras"...

eu acho que já não vou lá sem esse ar...

S. disse...

Esquecerão os bancos todas as histórias? Sorri ao ler-te.

Obrigada pela visita e pelas palavras.

citação de VHM daqui: http://www.webboom.pt/ficha.asp?id=54836

Até breve!