sexta-feira, 11 de abril de 2008

serpente de asfalto

[884]

a estrada que ia ao cimo do monte
e descia depois do outro lado da encosta
serpenteou como dedos ocos de sensação,
percorrendo a barriga do que antes era o mundo só.
hoje diante dos rodeios que torneamos,
circulado na cintura elipsoide do monte,
não vemos mais que arestas limadas,
e violadas virgindades da cor laranja do horizonte.
subir de olhos postos além do que não se vê,
pelo nevoeiro sedento de apaziguar a vista,
só nos pode fazer repousar o espírito nos
sossegos recostados nas pedras.
.
eu vejo o que me deixa o tempo,
mas a memória, a imagem que sobrar
da corrosão do tempo,
essa irá permanecer sobressaltada pela força do vento
e pelo frio do outono.
.
teremos visto o mesmo?

3 comentários:

S. disse...

a memória, sempre a memória versus o tempo...
o vento e o frio, qualquer coisa que não a deixe morrer...para que vejam ambos o mesmo.

Fernando Pessoa disse...

e a luta por não a deixar morrer...suponho que é o que mais custa...

Anónimo disse...

Esse, o tempo, somos nós que o gerimos. As memórias que queremos lembrar permanecem à mão, as que queremos esquecer são arrumadas num canto recôndito do nosso cérebro. Assim, depois de tudo arrumadinho, já sobra mais espaço para pôr lá mais qualquer coisita...