segunda-feira, 30 de junho de 2008

tentacular

[1089]

sabes Daniela,

I

felizes são aqueles milhões de metros cúbicos
que sustentam o maior lago artificial da Europa, e eu estive lá a ver.
feliz foi o engenheiro que disse que a falha geológica
era uma verdade da natureza, mas assumiu que era
preciso encher de betão até não corrermos o risco de derrocada.
feliz é o geógrafo, geólogo ou o raio que os parta aos dois,
que disse que um dia ia haverá um tremor de terra
que irá mostrar que têm razão.
que se fodam.
eles que arrisquem alguma coisa na vida e depois nos ditem
com autoridade alguma lei.

II

sabes,
feliz sou eu que arranjo tempo para escrever a qualquer hora.
para dizer a minha verdade.
feliz é quem acha que escrever é uma catarse.
eu não escrevo para me libertar.
feliz é quem escreve um livro, e o vai apresentar ao público
sem que se atemorize perante as críticas.
feliz é o valter (não conheces?) que vai apresentar o livro
e diz em voz alta,
eis a mulher da minha vida.
claro que para apresentares um livro tens de ter a mulher a da tua vida ao lado,
para que o livro seja o sentido.
é por isso que eu não escrevo.

III

sabes que a felicidade é dormir descansado também,
mas acordar sobressaltado com a dúvida.
feliz é quem tem que fazer contas para que não lhe falte dinheiro,
e ter à perna o senhorio a pedir a renda.
e aquelas pessoas maravilhosas que nunca encontram a sua cara metade?
existe sim. a cara metade existe como uma força maior.
eu não escreveria estas palavras sem ter a certeza do que digo,
tanta certeza que até desconfio que só o estou a dizer para te provar
que existe o que te conto.
e no entanto são felizes porque procuram. porque acreditam.

IV

sabes que a felicidade é como uma certa crença na fé.
é ver no suor do choque térmico, uma lágrima num santo.
é acreditar que a manifestação da natureza
não se coíbe de nos mostrar que existem milagres.
sabes que o problema é ter-me enraizado de tanta moral
que às vezes chego à acreditar que não consigo dar passos
sem que um padre me abençoe.
eu li a bíblia a espaços, e não encontrei lá as palavras que me salvassem.
feliz é quem o consegue.

V

sabes, Daniela
a vida é feita de um rol de medos comezinhos,
que eu não me importo de sofrer com a minha irreverência.
eu não queria ter-te conhecido desta forma. não desta.
mas agradeço ter visto e provado com as minhas lágrimas que existem
as mulheres que me preenchem. foste a prova. e bastou uma semana para isso.
e agora virão os velhos do restelo, e os paulos coelhos também, a assumirem
que a as suas teorias estão certas. eu quero é que eles se fodam também.
eu não corro riscos para os agradar.
e vi, aliás só eu vi, que tu existias de uma existência abundante
e me enchias os olhos e coração.

VI

a felicidade é uma dádiva ao alcance de qualquer um. se não pensarmos
em arbitrariedades,
a felicidade é juntares os casais desavindos. porque são teus amigos.
e tu lutas como se fosse a tua própria felicidade que estivesse em causa.
lutar pela felicidade é ser feliz. é o caminho como diz a minha querida amiga.

VII

sabes porque escrevi isto?
porque queria deixar escrito o que me encheu o peito,
e mesmo sendo caracteres que até chateiam,
eu fico na mesma.
tu vieste com a folha do loureiro, sim, o lustre dos meus olhos,
e eu que até ia embora, no dia deles,
fiquei, porque sou obediente aos meus parcos recursos sentimentais.
e só não fui embora porque tu eras uma luz intermitente,
demasiado
recrudescente
para eu virar as costas ao s. josé, ou ao s. bento que te pôs no meu caminho.

VIII

felicidade é ter um ombro amigo.
felicidade era não ter de escrever sobre o que é a felicidade.
ser feliz é acreditar que se pode mudar o futuro, mesmo antes dele acontecer.

IX

sabes,
felicidade é fazer a viagem da minha vida, e poder em cada esquina
de viena, praga ou munique,
deixar um pouco de ti.
conhecer onzes países da europa explodindo de conhecimento não é ser feliz?
em veneza, à deriva num qualquer canal, terei nos meus olhos uma centelha
vibrante e cintilante
como se estivesses naquele barco.
em veneza serei veneziano.
ou como diz o jorge sousa braga,
em veneza, morrerei de beleza.

X

sabes, Daniela
felicidade é saber que as palavras podem esgotar-se a si próprias,
mas o que elas marcam não se esquece.
(talvez por isso só o teu nome seja escrito em maiúscula)
.
felicidade é tu própria seres feliz.
felicidade és simplesmente tu.
.

formato do poema inspirado numa das melhores coisas que li nos últimos tempos, AQUI.

18 comentários:

Anónimo disse...

sabes Daniela,

Tens muita sorte,
Que sejam ambos felizes são os meu votos!

Fernando Pessoa disse...

sabes anónimo,

isto foi escrito para virar uma página. a felicidade é algo de inalcansável em certos momentos...agradeço o vaticinio ridículo, mas os meus votos vão para a serena caminhada do dia-a-dia.

obrigado pelo elogio (digo eu que nessa da sorte estava implícito que o poema foi bem sucedido)

Companhia das Camurcinas disse...

Parabéns! impecável... em linha com o texto, desejo-te as p*t*s das maiores felicidades do mundo! que sejas um gajo mesmo mt feliz que bem o mereces!!

Daniela disse...

Obrigado Nando.

Amo-te!

Fernando Pessoa disse...

companhia,

se eu for feliz tu também vais ser, porque estarás comigo em veneza quando eu morrer de beleza :)

anónimo,

és o maior!!

PontoGi disse...

Felicidades!

Cristina disse...

Foi das coisas mais lindas que li. Mesmo-mesmo!

Beijo

Mestre Chou Riçá disse...

Xiko, escapa me alguma coisa??? ;)

Anónimo disse...

Muito bonito...

Realmente a grande nivel, estas a jogar noutro campeonato FP.

Fernando Pessoa disse...

xico,

escapa-te alguma coisa a ti e a mim :)

ponto gi,

para ti tb, embora eu não possa deixar de não perceber. isto foi escrito como ponto final, virar de página.

cristina,

obrigado. não acredito muito nisso, mas desta vez estou sentado sentado a ouvir :)

Anónimo disse...

parabéns... ao fernando pessoa pelo poema e à Daniela por ser amada :)

Fernando Pessoa disse...

pessoal,

obrigado pelos elogios.
(agora deixem a daniela em paz)

já em mim podem desancar à vontade, com as críticas e piadas à vontade.

dimples disse...

Estou sem palavras... Não sou digna de inspirar tão belo poema... Mas obrigada! :)

S. disse...

Que todas as páginas sejam viradas com tanta beleza.

Espero que não leves ter-me apoderado de um pedaço deste amor.

S. disse...

errata
Onde se lê
"Espero que não leves ter-me " deve ler-se
"Espero que não leves a mal ter-me"

;)

Fernando Pessoa disse...

cara s.,

a partilha das palavras é uma obrigação de quem escreve.

atendamos as palavras do valter (nosso mui apreciado poeta):

"adorava acreditar que salvo mais alguém. gosto das pessoas, quero que elas seam felizes, com fé ou sem fé."

chega?

a mim chega.

cara dimples,

com o tempo vão as palavras e cimentam-se os gestos. está tudo dito no poema.

El Salib disse...

Que confusão que aqui vai.

Anónimo disse...

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