terça-feira, 8 de julho de 2008

sud-express ghost

[1105]

8h37
o comboio pára na penúltima estação. seguem neste compartimento umas 20 pessoas todas sentadas e o silêncio interrompe-se com o arrancar do comboio.

de todos os pensamentos que consigo captar, e exceptuando o do homem que está com as canadianas e que vai fazer fisioterapia (pensa em pedir em casamento a sua namorada), há um que me atrai e impressiona.

(ela vai sentada com a cabeça encostada no vidro e conta os jardins que vai vendo desde que iniciou a viagem)

ninguém me vê ou sente. vou vagueando por entre eles como um sopro de brisa entrelaçado na manhã. sinto alguns perfumes. aproximo-me da mulher que aparenta ser nova.

(digo-lhe ao ouvido um segredo que ela não ouve. mas irá ficar no seu subconsciente de tal forma guardado, que daqui a dois dias fará o que lhe acabei de dizer)

ela sorri sem saber que o faz para mim. sorri e olha para a caixa pequena que leva nas mãos. é uma caixa simples e leve, e tem uma mensagem escrita à mão,

(abrir em caso de emergência do coração)

ela sorri outra vez. não abre e a excitação da curiosidade também não a mata.

8h43
o comboio pára no destino final. a mulher sai e, com o sorriso insistente e mais forte, guarda na sua bolsa a caixa com um cuidado vagaroso.

(não sabe ainda que em dois dias abrirá a caixa com a certeza de uma resposta. mas a dúvida ficará maior. é sempre a incerteza do futuro.)

mas nada mais importa se ela sorri.

2 comentários:

S. disse...

quero um fantasma que me diga segredos e que me faça sorrir nas viagens diárias em que conto os jardins.
palavras tão ternas...

Fernando Pessoa disse...

:)

obrigado pelas tuas palavras. são sempre o elixir necessário a continuar. só vale a pena se alguém as apreciar, porque muitas vezes nem eu próprio acredito nelas.