segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Crónicas de uma sociedade adormecida

No outro dia ouvi uma conversa de café que me levou a escrever isto. Falavam de um homem qualquer, um homem estranho (segundo diziam) que vive por cá. Pouco sabiam dele, mas sabiam o suficiente para dizer muito mal. perguntei-me a mim mesmo, quantas vezes pensamos mal de alguém sem sabermos sequer o seu nome. O relato é pura ficção, não sei nada sobre o homem. Mas pus-me a imaginar...

O Quarto ao Lado.

I

Exceptuando o sábado e o domingo, levantava-se sempre às sete em ponto. Não precisava de despertador, tal era o hábito de trinta e cinco anos de sucessivos acordares, sempre à mesma hora, no mesmo quarto arrendado, ali para os lados da zona velha da cidade. A parede do tecto, amarelada pelo fumo dos infindáveis cigarros, era a primeira coisa que via logo pela manhã. Em seguida, ainda em pijama, abria a pequena janela, tão pequena que mal dava para deitar a cabeça de fora, e dava os bons dias ao mundo. Aquele gesto significava a libertação da noite escura e inevitável, que era, aliás, a única coisa de que tinha medo. Não era bem da noite mas do que ela trazia consigo. Para ele a noite era apenas o papel de embrulho da solidão. Depois de tratar da sua higiene pessoal, na casa de banho partilhada com outros hóspedes do prédio, regressava ao quarto onde acendia o transístor e tomava o primeiro café do dia, aquecido num velho disco eléctrico, ao som das notícias do mundo. Depois disto, saía e só voltava a casa lá mais para o serão, com os papéis do trabalho e uma saca onde trazia o jantar já confeccionado, comprado num dos restaurantes da rua. Trabalhava no arquivo municipal, diziam por aí, andava sempre sozinho lá no meio daquelas papeladas e não se lhe conhecem familiares ou amigos.

II

Na verdade, e disto ninguém nos arredores o sabia ou saberá, o Sr. Gonçalo, eis o seu nome, teve em tempos amigos e uma família como tantas outras, lá longe na sua terra natal. Teve amigos com quem brincou, com quem correu junto à ribeira e jogou futebol no adro da igreja, teve um pai que o amou e uma mãe que lhe afagava o cabelo antes de adormecer, teve um irmão que ainda hoje está algures pelas Américas e que nunca mais voltou ou deu notícias. Nessa altura, ainda a noite solitária era incapaz de o assustar. Teve tudo isso, mas um dia, naquela idade em que os meninos são obrigados a ser homens, partiu em busca de trabalho, tal e qual o seu irmão. Na cidade havia muito que fazer e pouco a pouco foi deixando para trás a aldeia onde brincou. Inicialmente lá voltava no verão e no natal, mas com o tempo e depois de ter perdido os pais, há uns vinte anos atrás, só lá voltou para vender o campo e a casa, já os antigos amigos de brincadeira tinham pouco tema de conversa consigo. Na cidade tentou amar, ter alguém, mas não o deixaram. Alguma coisa não correu bem e nunca chegou a casar ou a viver com outra pessoa.

III

À porta do prédio todos estavam espantados com o sucedido. Todos falavam e especulavam acerca da vida daquele homem tão estranho. Cada um tentava mostrar saber mais que o outro. Todos pareciam, de repente, interessados pelo Sr. Gonçalo e pela sua vida. Mas com o tanto que tinham para dizer hoje, nunca gastaram uma palavra para o convidar ontem, ou antes de ontem, ou sempre, para um café, para uma conversa. Naquele dia, a noite e a solidão venceram e celebraram ruidosamente em forma de tiro auto-infligido que ecoou por todo aquele escarro de civilização.

1 comentário:

S. G. ex - Fernando Pessoa disse...

meu caro amigo,

a minha luta está em acreditar no amor. o dia mais difícil para mim foi o dia em que, como uma bomba, me disseram que um homem poderia passar uma vida inteira sem encontrar a sua cara metade. não acredito nisso.

esta história é possível como tantas outras de solidão.

grande abraço...ganda malha :)