sexta-feira, 28 de setembro de 2007

a carta de despedida

decidi deixar uma carta de despedida.

sem papel torna-se difícil. sem palavras ainda mais. sem vontade muito menos.
escolhi o dia certo para escrever o que tem de ser dito. mais dia menos dia tinha de o fazer.

sem a certeza de que posso ir em paz, vou escrevendo o que posso dizer. sem mágoa. deixo tudo o quis ser e não consegui, mesmo que para tal nada tivesse feito. esperei sentado muitas vezes que me invadisse uma vontade franca e uma força destra para me erguer perante o escoar do tempo. ampulheta de vida estúpida que nunca parou. se bem que eu nunca a virei também. esperei que as vontades me sacudissem, e no entanto deixei-me levar pela incolor e calma onda de rio de verão, que nos embala. ensonei demasiados dia e vi passar diante dos olhos, os caminhos que nunca tomaria sem o desiderato interior cimentado. era uma ponte romana. fui um arco perfeito.

(espero que quem ler, entenda que parto de bem com a vida. a culpa foi e será minha. foi delito cometido perante as regras escritas em papiros que deixaram à minha nascença. deixaram-nos em árvores a germinar frutos que eu nunca colhi.)

parto então doente de doença minha. doença que contagiei a mim próprio. vírus poderoso que se entranhou demasiado fundo nos anos passando. e eu deixei. nem antídoto, nem antibiótico. agora nem remédio.

quero dizer aos amigos que os guardo a bem. em gavetas ordenadas pela vossa importante tarefa de me privarem deste tormento por muitos dias. fui bom para vós. lembrem-me de cor. e com recordar solarengo de nuvens pequenas deslizando sobre o nada...

o nada. para onde caminho.

o nada.

p.s.1 suponho que foi encontrada no ano da morte de ricardo reis.
p.s.2 suponho também que o ilustre desconhecido que a escreveu, não deixou escrito motivo aparente para o que aconteceu.
p.s.3 suponho que se a encontrassem em mais mesas de cabeceira não seria surreal.

1 comentário:

A. disse...

Afinal, ainda se escrevem cartas. As de despedida.