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terça-feira, 2 de outubro de 2007

[257]

(passei um dia pela alta porta da sé. sentei-me debaixo dela e pensei que talvez não fosse um grande dia. dias daqueles que não sabemos o que sentimos quando olhamos no espelho. nem reconhecemos o que somos. sentei-me ali só porque era mais fresco. não sinto nenhum apego ao que quer que seja sagrado, nem muito menos ao profano. só pela brisa aliada à sombra e à pedra granítica me sentei. por tudo o que se passa nestas alturas, sinto que é inútil tentar encontrar o que está à vista desarmada. a solidão pode ser a solução perfeita. por isso o refúgio nos inconstantes sentimentos interiores, sem soluções intrincadas, pode saber a maresia. o verão é sempre isso. brisa com suave toque de maresia. e no outono é sempre a memória daquelas tardes de esplanada que nos faz emergir do lodoso e pestilento arrastar do dia-a-dia-marasmo-tropeça-levanta-sorri.)

(fodasse é fresco demais. a bem dizer é frio...e depois vai começar a missa.)

ainda tive sorte em ser desleixado, às vezes toca umas moedas ao mendigo...
sg

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

a carta de despedida

decidi deixar uma carta de despedida.

sem papel torna-se difícil. sem palavras ainda mais. sem vontade muito menos.
escolhi o dia certo para escrever o que tem de ser dito. mais dia menos dia tinha de o fazer.

sem a certeza de que posso ir em paz, vou escrevendo o que posso dizer. sem mágoa. deixo tudo o quis ser e não consegui, mesmo que para tal nada tivesse feito. esperei sentado muitas vezes que me invadisse uma vontade franca e uma força destra para me erguer perante o escoar do tempo. ampulheta de vida estúpida que nunca parou. se bem que eu nunca a virei também. esperei que as vontades me sacudissem, e no entanto deixei-me levar pela incolor e calma onda de rio de verão, que nos embala. ensonei demasiados dia e vi passar diante dos olhos, os caminhos que nunca tomaria sem o desiderato interior cimentado. era uma ponte romana. fui um arco perfeito.

(espero que quem ler, entenda que parto de bem com a vida. a culpa foi e será minha. foi delito cometido perante as regras escritas em papiros que deixaram à minha nascença. deixaram-nos em árvores a germinar frutos que eu nunca colhi.)

parto então doente de doença minha. doença que contagiei a mim próprio. vírus poderoso que se entranhou demasiado fundo nos anos passando. e eu deixei. nem antídoto, nem antibiótico. agora nem remédio.

quero dizer aos amigos que os guardo a bem. em gavetas ordenadas pela vossa importante tarefa de me privarem deste tormento por muitos dias. fui bom para vós. lembrem-me de cor. e com recordar solarengo de nuvens pequenas deslizando sobre o nada...

o nada. para onde caminho.

o nada.

p.s.1 suponho que foi encontrada no ano da morte de ricardo reis.
p.s.2 suponho também que o ilustre desconhecido que a escreveu, não deixou escrito motivo aparente para o que aconteceu.
p.s.3 suponho que se a encontrassem em mais mesas de cabeceira não seria surreal.

despeço-te

(sentado na berma da estrada, junto aos separadores da rua, estive a contar os carros verdes que passaram. e depois contei os que traziam uma só pessoa, e depois os que vinham de vidros abertos, e depois os que...e depois esqueci-me do que tinha contado. pensei que seria um pouco inútil perder tempo com essa tarefa. se bem que naquela hora eu não sentia necessidade de pensar em nada. e aquilo até era engraçado.)

lembro-me dos joelhos tortos. dos anéis que chamavam atenção a quem seguia em qualquer outro lado da rua.

(mas aquele momento é sempre difícil perceber o que se sente de real e o que se não se sente de imaginário. depois de duas horas, e depois de um velho se ter sentado na paragem do autocarro a falar sozinho, decidi então que o melhor era não fazer nada. absolutamente nada. para a despedida de todos os dias, que vem acontecendo a todas as horas, eu assinei em branco, de olhos fechados.)

lembro-me até de ter estado no alto do edifício e de ter sentido vertigens. aquele era também um estado de alma em queda. só não a vemos cair mas ela vai e vem. por isso sentimos fugir as alturas.

(com dias dispersos no calendário, segui como na cabra-cega, um jogo do esconde-esconde em que todos vemos tudo.)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

despeço-me

(deitei-me já cansado e sem força sequer para te ligar. olhei ainda a luz que invadia o quarto pela janela meio fechada. acendi o cigarro (maldito vício de fumar deitado na cama). fumei o cigarro. apaguei o cigarro. acendi outro cigarro. o tempo passa sobre a cinza em lentas golfadas de fumo. nem sei muito bem onde fui buscar esta marca. desencadeei então uma série de pensamentos cuja conclusão foi demorada e pensada.)

preciso dormir.

enfim dormi. ou não. amanhã quando acordar logo verei.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

sem mágoa na ponta dos dedos

(deixei de escrever há muitos anos. não tinha porque continuar. deixei de viver na terra onde viviam os astutos criadores. deixei a minha casa nesse vale encrostado na montanha verde. deixei os amigos que acreditavam ainda na força das palavras. e insistiam em escrever para mudar o mundo. deixei alguns sentados a olhar há anos a ver o sol a nascer e a por-se. deixei outros deitados e cansados de tanto esperar pela sabedoria iluminada. deixei outros que também tinham desistido como eu, mas insistiam em esperar que alguém descobrisse o elixir. a pedra. alguém que reinventasse o toque de midas. deixei esse deserto de soluções e caminhei em busca do meu fim pessoal. deixei de escrever e comecei a ver.)

deixei de escrever para te começar a ver. sem mágoa na ponta dos dedos.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

e findou o cheiro a maresia

adeus verão periclitante. adeus e não voltes mais. pelo menos assim envergonhado, não. volta em todos os meses de supetão. em dias que fizeres questão. nunca venhas de mansinho, nem mostres garras de antemão. abana os dias e os descrentes, e mostra a todos o poder dos raios combatentes.

para todos os camurcinas.
aqui fica a saudade do verão, assim dita sem sermão,

"O verão era a tua hora de grandes libações, lembro-me de no "café" te ver com frequência bebendo uma tarde inteira, enchendo a mesa de vidros que mandavas retirar para não publicares a tua sede."

(Vergílio Ferreira, Aparição, Portugália Editora, Lisboa, 1960, p.260)
via [miniscente]

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A parceria - Parte II

Via [Fontes do Ídolo], deixo-vos aqui uma parte do texto levado à assembleia municipal de braga, e que faz parte da proposta para a parceria publico-privada para a realização de algumas obras.

[...]"No que concerne à instalação de pisos sintéticos e arranjo de balneários serão contempladas, neste âmbito, as freguesias de Arcos São Paio, Aveleda, Celeirós, Cunha, Fraião, Frossos, Gondizalves, Guisande, Lomar, Maximinos, Merelim São Paio, Navarra, Nogueira, Padim da Graça, Palmeira (Póvoa), Pedralva, Santa Lucrécia, São Lázaro (Camélias II), São Vicente (Bairro da Misericórdia), Tadim, Arentim, Cabreiros, Crespos, Espinho, Este São Mamede, Este São Pedro, Figueiredo, Mire de Tibães, Morreira, Panoias, Parada de Tibães, Semelhe, Sequeira, Parada de Tibães, Vilaça e Vimieiro."[...]

Longe da discussão que se gerou em torno disto, apenas pergunto onde está a freguesia de REAL?
Será que as obras necessárias nos balneários do Realense F.C., que serve dezenas de miúdos, teimam em ficar esquecidas?
Ou será que um caldeira e umas pinturas afectariam o orçamento de 70 milhões?

isto é que afecta a gente da minha terra. por isso, sem politica abram os olhos e toca a encher a caixa de e-mail da junta de freguesia de real. [AQUI]

p.s. se não conseguirem enviar nenhuma reclamação ou e-mail, não se inquietem muito. é mesmo porque nada daquilo funciona.

viagem ao longínquo

(naquele tempo ainda éramos pequenos demais para perceber. estávamos sempre sentados nos mesmos passeios junto da estrada. alinhados pelos desejos traquinas. ríamos sem perceber o porquê, ou sem mais motivos desatávamos a correr. sempre que a fome atacava era logo traçado o plano de ataque às videiras mais próximas. o resultado quase sempre era um susto e uma corrida.)

(nem sei mais onde guardei essas memórias. quero pensar nisso e não sei onde estão os meus velhos amigos. nem sei o que dizíamos para nos rirmos daquela maneira despreocupada. ou então sei. éramos inocentes num mundo inocente. e hoje somos crentes num mundo descrente.)

(se um dia voltar a sentar alinhado, num passeio qualquer e vocês voltarem, nem que seja uma sombra de vós, então estarei pronto para voltar ao meu baú. das memórias. que um dia foram folhas caídas da ramada.)

malditas memórias, que com asas de cera, te deixas apagar pelo sol do tempo.

renascimento grego

todos os mitos se esfumam perante as realidades confirmadas. sem mais palavras ou sem mais imagens, e diante dos factos, não temos argumentos que desconstruam a aparência. quem quiser seguir labirintos, quando o que se pede é que sigam por linhas rectas, então a tarefa torna-se não-humana.

(sem monções, nem ventos. sem correntes de marés, nem tempestades. assim chegou o dia.)

hoje é dia da graça de nosso senhor el-rei d. prometido,

14 de agosto do ano de MMVII

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

discursos d'antigamente

" Ophelinha:
[...]
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso "entalar".
[...]
E adeus até amanhã, meu anjo.

Um quarteirão de milhares de beijos do teu, sempre teu


Fernando. "

fernando pessoa, cartas a ophélia

terça-feira, 11 de setembro de 2007

que farei com este mapa

(descobri que tinha guardado há anos um mapa. nunca tinha percebido qual o seu objectivo. nunca desvendei o seu caminho. só a marca servia de bússola. e dizia em letras pequenas que o guardasse. na mesa mais à cabeceira virada a sul.)

(nunca pensei que os mapas nos indicassem caminhos difíceis. tortuosos. nunca mais peguei nele. nunca me levou a lado nenhum. pelo menos que eu percebesse. desisti de o entender. de o decifrar.)

(nunca pensei que ele me falasse. um dia acordei com o sonho perturbado e então decidi que nunca mais queria ouvir falar em mapas de ruas, mapas de corações,mapas de almas, mapas de perdições, mapas de caminhos, mapas de desilusões, mapas de amores perfeitos, nem de mapas de estradas.)

(não quero saber de estradas que não levam a lado nenhum.
só nunca saberei, se no final desses trilhos, haverá mais indicações.)

sei que o tenho no bolso para o dia incerto.

"leva-as o vento meras palavras,
guarda no peito, a ingenuidade..."


ana moura

que farei com esta ansiedade

que dor mais forte não pode existir,
que desleixo de alma mais simplório nunca se viu,
nem rejeição mais triste alguém sentiu.

que força oculta mais poderosa,
que fraqueza me atinge dessa altivez,
que malvadez mais cruel e ociosa.

que fraco paladar degustas ainda,
que sal mais fino não pode entrar,
que o mel espesso sentes apoderar.

ansiedade devotas ao silêncio,
que nas entranhas do prazer te faz sonhar,
ansiedade que nunca fez mal,
andar de mãos dadas com o desejar...

p.s. só em silêncio sinto-te.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

duo centésimo post

para comemorar esta marca, decidi publicar mais um poema da senhora. Sophia.
dedicado especialmente a alguém especial...
espero que as marcas se vão sucedendo e que este Blog continue a ser um espaço magnífico de liberdade de expressão.

poema sem título

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque nós somos bons e continuaremos a ser melhores ...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

(re)citações

As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
"Dia do Mar"

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

música sem som

"Cuando en silencio por fin te besé (Azul)
sentí muy dentro en mí ser este amor azul
hoy miro al cielo y en ti puedo ver
la estrella que siempre soñé[...]

Como el milagro que tanto esperé
eres la niña que siempre busqué azul
es tu inocencia que quiero entender
tu príncipe azul yo seré."

david bustamante - azul

as razões da fé

a luz trespassa o vitral. se olharmos com atenção, vemos por vezes cintilar os olhos destas figuras. mesmo os sorrisos espelham mais alegria.
lá fora o calor. de joelhos no granito, pagas as as formas de fé. de novo o calor intenso. e a luz. luz de velas que ardem a expiar os pecados e pedidos realizados. o granito em que te sentas, arde como brasa. rugoso e duro.
nada aqui te dá alegria. se vens, ou a procuras ou a agradeces. ali também não há paz. se vens, ou a procuras, ou a agradeces.
e o povo segue o ritual. em uníssonos de aclamação e adoração. as vibrações pressentes a pairar sobre as cabeças. e há ao longe ondas de calor, de aspereza e de dor.

aqui não há nada.
se aqui vens, ou procuras algo ou o vens agradecer.

fátima
22/08/2007

p.s. se alguém não percebeu, eu esclareço, eu sou católico.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Blimunda e o pássaro voador

tenho um quadro a branco para pintar, só ainda não sei o quê. quer dizer se calhar sei. não tenho é arte nem engenho para tal desiderato.

cito e recito coisas boas:

" O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!"
Florbela Espanca

outras geniais:

"Uma linda história de amor, eles não dizem nunca uma única palavra de amor, mas a sua identificação é tal que toca a magia."
Memorial do Convento descrito por Saramago.

mas alcançar a simplicidade não é para todos:

"olharem-se era a casa de ambos..."
(memorial do convento)


p.s. vou num pé e venho no mesmo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

" Num deserto sem água
numa noite sem lua
num país sem nome
ou numa terra nua
por maior que seja o desespero
nenhuma ausência é mais forte que a tua."

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

(re)citações (6)

“…prefiro a máxima de Marguerite Duras: “escrever é também não falar. É estar calado. É gritar sem fazer barulho.”

silêncio por momentos...

Queres falar? (7)

(um dia este vento vai parar. virá um deserto e depois um mar de gelo cobrirá tudo. sobrará só esta árvore. ela resiste. resiste há tempo suficiente para o fazer de pé. e se morrer será de pé. mas hoje não morre. e também não há gelo. hoje só nos faz sombra. e o gelo está nas tuas mãos.)

- …
- …
- …
- …

(nada do que possa dizer vai alterar o rumo do sentido das palavras já escritas e guardadas. quem as guarda sabe que sim. eu sei que sim. por isso deixo-me levar e deixo a brisa arrefecer as minhas pálpebras que aquecem sempre em demasia com o calor. não consigo ver-te assim contra o sol. mas vejo a borboleta que poisa suavemente nas folhas da única flor que também irá resistir. quando tudo for gelo e deserto.)

-…
-…
-…

(a flor resistirá ao lado da árvore e ambas serão suporte uma da outra. serão juntas a vida única da terra. o umbigo do mundo. o centro do oxigénio que sobrar. e fecharão os olhos ao mesmo tempo. fecharão os olhos no dia em que o sol voltar a brilhar como hoje. Se algum dia ele brilhar mais que hoje…)

e o gelo continua nas tuas mãos…