terça-feira, 27 de novembro de 2007

estranhos desencontros

[454]

naqueles dias calmos de primavera, em que todos corríamos nos intervalos ao encontro do bar, para matar o apetite que nos dava o conhecimento, sentíamos na pele fresca os anos que ainda não haviam chegado. éramos novos demais para perceber ou entender o que nos dizia a sombra quando ela se aproximava. num desses dias, calmos a mais para a normalidade, a d. (juro que não me lembro do nome dela), estava com as amigas a um canto quando desmaiou. eram eles a correr para ver o teria acontecido. é nessas alturas que sei que não sou curioso. mas a d. era nossa amiga e apesar de recuperar imediatamente, não percebi que a sombra ainda estava lá. mesmo hoje, eu julgo que não a via.
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durante a semana seguinte viria a desmaiar mais uma vez. e depois na seguinte mais uma. até que alguém terá aconselhado a ir ao médico.
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a d. era uma rapariga como outra qualquer. bonita q.b., radiante, pele branca, e airosa nos passos, embora carregasse nos olhos fundos alguma maturidade antecipada. via no sorriso fugidio que me dava, um esgar maior de anuência perante a minha distância (hoje percebo o que ela poderia sentir).
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a d. tinha leucemia. foi tratada a tempo e ao fim de alguns meses ela regressou. regressou à escola e não à nossa turma. pena para ela. gostava de nós e nos intervalos, com a pele mais envelhecida, mas com os olhos mais limpos de escolhos subconscientes, ela vinha ao nosso encontro. muitas vezes para rir e no seu sorriso eu via o mesmo esgar de pesar pela distância.
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um ano depois eu fui parar ao mesmo hospital. eu tinha sido operado ao apêndice, e as complicações posteriores, deixaram-me 3 meses sem ir à escola. a minha mãe trazia notícias e recados dos amigos, dos professores, e dos vizinhos. nesses dias, já distantes no meu espaço mental, eu receberia uma carta da d. . ela dizia que gostaria de me ver voltar com força e alegria e o desejo dela concretizar-se-ia pouco depois. dizia ela na carta que nunca tinha tido a coragem de me dizer o que sentia por mim. e eu no entanto sabia. voltei para a escola e agradeci a todos pelas mensagens de amizade. elegeram-me para representante da turma mesmo estando longe. e eu sorri.
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voltamos sempre àquela esquina da escola onde nos ríamos. ela com a pele mais envelhecida e eu com o peso nas mãos dos dias derrotistas. julgo que nunca lhe agradeci pessoalmente a carta e a força que me havia dado. é uma das pessoas que nunca mais vi. e gostava de a rever para lhe dizer que a vida é essa falha constante, pecados inocentes e faltas de generosidade permanente.
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desejo no fundo que a d. esteja bem.

2 comentários:

Zé Baptista disse...

Grande "Post".

Fernando Pessoa disse...

e a guerra na guiné estoura ou não?

:)

Abraço