terça-feira, 4 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (II)

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quando o meu pai morreu, chorei durante 3 dias seguidos. correram-me lágrimas de rancor pela forma como ele morreu. era novo, tinha ainda muito para viver, e eu ainda muito mais para viver com ele. tive lágrimas suficientes para derramar pelo choque que a sua morte me provocou. fiquei sem comer e sem apetite. deitava-me. levantava-me. com o único objectivo de enxugar as que pelo rosto me caíam, demonstrando só a mim mesmo o que acabara de perder. tive até visões durante o meu sono. mas as lágrimas eram intensas. quando achava que poderia terminar o meu suplício e começar a enfrentar os nossos problemas diários, desprendiam-se novamente, de forma subtil, uma após a outra. três dias seguidos, vermelhos, molhados, húmidos, os meus olhos eram o que se via. desgraçadas ovais escondidas em lenços de pano que a minha mãe lavava à mão.
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ao fim de três dias, na hora em que o meu pai morreu, eu parei de chorar.
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tentei em vão procurar outro sentimento que não fosse a insensibilidade e abstracção.
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desde esse dia nunca mais chorei.

3 comentários:

tonsdeazul disse...

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(Não comentarei estas palvras, por as considerar grandiosas demais.)

Um abraço

inês disse...

choro!

como nunca chorei... e não chorava, como não chorei no dia em que ele morreu!

Fernando Pessoa disse...

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as vossas palavras é que são grandes. obrigado.