quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (III)

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era nos dias em que se irritava mais. tinha de suar as estopinhas para chegar ao telhado e desentupir a saída do fumo do fogão de lenha. era normalmente nos dias em que a chuva caía forte, e tornava a tarefa ainda mais árdua. ele subia pela escada que não gostava, mas era a única que havia por perto. depois de descer do telhado, tirava a roupa e pousava em cima das beiradas do granito que povoava toda a cozinha. daquela maneira só mesmo a lenha toda a noite a crepitar, podia aquecer o ambiente e secar a roupa. despido em frente ao fogo forte que incendiava mais um canhoto, sentiu a necessidade de visitar a viúva.
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eram quase horas do jantar, quando ela abriu a porta e ele entrou. era assim entre eles. nunca mais do que duas palavras soltavam das cordas vocais, como que em acordo mútuo. sentiam que se falassem demais alguma coisa poderia correr mal. e assim era das vezes que ele visitava a senhora viúva. ele entrava, sentava-se, olhava o jantar e dizia se comia. por vezes, em não lhe agradando o repasto, comia apenas a sopa. e depois do café aquecido muitas vezes do que restava do almoço, eles ficavam parados a olhar os gatos passarem ou a ouvir os cães passearem-se entre as casotas arrastando as correntes na lama.
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depois de quase meia hora a pensarem, ele no telhado arranjado, ela no almoço que faria no dia seguinte, o relógio tocou umas oito badaladas. talvez oito ou talvez nove. demoramos muito a ver o que acontece que nos distraímos, e nem vemos as horas a passar. ela levanta-se como sempre e vai à casa de banho enxaguar-se por todo o corpo como ele gosta. deixa a água na bacia que ele irá usar uns minutos depois. quando ele entra no quarto, sem ver nada na escuridão, mas nunca tropeçando em nada, vê a imagem da cama na sua cabeça e de um só golpe levanta as mantas e sente o cheiro a lençóis lavados, como nunca sente em sua casa. deita-se ao lado da viúva que nunca se despe por ela, esperando que se cumpra o ritual. ele agarra-se a ela pelas costas e depois de um ou dois fugidios beijos no pescoço, desvia o algodão da viúva e vai descendo lentamente, com a sua mão direita, ao encontro do agasalho do falecido.
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cinco minutos chegam para que se lembre de que o seu crime foi ter ficado sozinho por esta terra, mas por vezes satisfeito. cinco minutos chegam para que a viúva se lembre de que o seu falecido marido nunca a beijava no pescoço.

2 comentários:

Teté disse...

A primeira tem ligação com esta. E a do meio, é sobre o filho da viúva? Tem continuação?

De qualquer das formas, muito bem escrito! Vai dar romance?

Fico à espera das cenas dos próximos capítulos...

Fernando Pessoa disse...

Olá teté,

estão as três interligadas, sem seguimento no tempo, nem no espaço elas são a mesma história. O homem é o mesmo, no prmeiro é o que está sentado, no segundo é o que conta a sua visão da morte do pai, e no terceiro é ele que visita uma viúva qualquer.

segue em blog-novela :)
(não brasileira nem mexicana)