terça-feira, 4 de março de 2008

o mistério da cidade suspensa

[779]

um dia de chuva e cinzento
a solidão puxou-me pelos cabelos.
arrastou-me pela cidade fria, renunciando
aos meus apelos de que parasse.
.
mas a solidão, zangada, não parou.
.
arrastou-me pelos becos escuros, perdidos,
lugares recônditos, amostras de luz fosca
estranhos espaços conhecidos de outrora,
cada chão sentido como o passado.
.
e a solidão, zangada, não parou.
.
puxando os meus cabelos, em castigo
murmurou uma sentença dura e cruel,
doendo o meu couro-cabeludo, esticado
pelas suas mãos de justiça implacável.
.
e a solidão, zangada, não parou.
.

.
comecei a perceber o seu ponto de partida,
eu arrastado, via o mundo de baixo,
via os relógios enormes parados em torres,
misturados com o fumo, que sobrava do dia.
vi pessoas estranhas, com olhar de desprezo
a quem se arastava obrigado pela solidão,
percebi o mundo, em compadrio discreto com o desdém
para os filhos da desgraça e os arrastados da solidão.
.
depois fui eu que pedi que não parasse.
.
arrastou-me mais umas horas, lentamente
pela cidade despida de humanos. apenas eu.
rastejando ao lado da solidão, procurando
descobrir o mundo que acima de todos nós se ergue.
acima do moribundo que ninguém olha,
do renegado que ninguém estende a mão.
do faminto que ninguém atira o pão.
.
descobri, enfim, que a solidão sou eu.
que me arrasto há anos, nesta cidade
meio perdido pelas pedras da calçada,
tantas vezes de rosto na água.
e sei que a solidão sou eu, e que
apenas eu me arrasto pelo chão.
sem ninguém me puxar,
neste chão da cidade fria e escura.
.
3/3/2008 - 00.04 p.m.

5 comentários:

Anónimo disse...

Olha para mim, sou aquela folha que paira no ar! Está seca por incrível que pareça. Se lhe tocares partir-se-á num ápice, tão frágil está. Anseia sentir novamente o calor, a ternura e a inocência que julgara já não existir. Tarde demais. Era apenas ilusão, ali jaz o que resta dela, partida em pedacinhos por entre as pedras da calçada, pisada.
Serei eu também a solidão?

Fernando Pessoa disse...

a solidão é um estado bom e saudável, e que aquece. antes só que mal acompanhado.

mas tenho pena que não haja ali nenhuma folha, o desenho foi feito com àrvores viçosas, sem queda de folhas.

precisas de um convite para escrever aqui para o blog também?

Teté disse...

A solidão está realmente dentro de cada um de nós... Gostei!

Anónimo disse...

Peço desculpa, não tinha a intenção de retirar-lhe protagonismo, digamos que me tenha deixado levar pela minha fértil imaginação... e a sua... leva-lo-á a encontrar a dita folha?

Fernando Pessoa disse...

eu acho que me interpretou mal. a minha intenção era sincera. se quiser escrever no blog é mesmo um convite.

e quem escreve assim merece todo o respeito.

eu não gosto do protagonismo. acho que se equivocou nisso também.

mas a minha folha...encontrá-la...está mais difícil...quanto muito é mais fácil desenhá-la...