domingo, 1 de junho de 2008

declamação dos principios não-básicos da vida

[1016]

acordei com a mesma cara de ontem. aliás pior um bocado mas com a certeza de estar na mesma. há um tempo em que assistimos a tudo de forma muito pacífica, despreocupada, desapegada, como se tudo se possa resolver quando houver necessidade premente disso.
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disserto só porque estou numa contenda com os médicos e eles acham que eu mereço esta dieta forçada (24 horas sem comer)
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li há dias um post do novo blog do editor da quasi edições, rua da castela, do jorge reis-sá. e começava assim,
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"Fui operado cinco vezes. Todas elas com anestesia geral. E confirmo: o medo é enorme quando entramos no bloco.
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Nunca me custou a dor. Isso aceita-se, ultrapassa-se. Com a ajuda das doses certas de medicamentos, isso é fácil. E mesmo sem elas, a dor é um estado mental mais do que físico. E o desconforto por ela causado, quando contínuo - como nestes casos - é aceite sem revolta, com resignação e serenidade. [...]"
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mais [aqui]
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esfreguei os olhos e refresquei a minha memória várias vezes até que percebi que não fui eu que escrevi aquilo. há um ponto de viragem em certos momentos que nos permitem rir de nós próprios e aceitar tanta coisa que não aceitavamos de ânimo leve. a dureza que nos guarda o caminho é por vezes um teste à perseverança, e um armadilha do destino.
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(aguardem só mais um momento que tenho de beber outro copo)
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mas o jorge reis-sá sabe que aquilo que ele escreveu é treta de médico com tiques de psicólogo. aceitar o que a vida nos dá, de bom ou de mau, é a melhor forma de a enfrentar, é fácil de dizer e difícil de executar. aceitando inevitabilidades como ir a um bloco operatório (para mim isso já seria o mesmo que lanchar) ou voltar a uma cirurgia de colocação de dreno, era o ideal não fosse isso ser como um pesadelo de todos os dias.
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(a nossa cara amiga do blog [o amor é um lugar estranho], (tem toda a razão, o amor é um lugar descolado da realidade) também refere o mesmo, a dificuldade em aceitar a inevitabilidade aqui neste post)
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o que me levou a escrever outro texto anestesiante, foi uma mensagem que me enviaram para o telemóvel que dizia "foste a pessoa mais imprevisível que eu conheci recentemente". eu do alto de toda a minha simples capacidade descodificadora deste tipo de mensagens (vindas de mulheres é sempre um cabo dos trabalhos) resolvi nem questionar se aquilo seria bom ou mau. não procures e vais ver que encontras, disseram-me um dia destes e acredito que devo guardar essa máxima.
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resolvi assim iniciar um desafio maior que a minha pessoa. escrever a lista. eu darei novidades em breve. um desafio que me levará a perceber o que me completará e principalmente o que me faz falta e o que me tenho esquecido de dar a mim próprio.
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(só mais um copo. quanto mais rápido beber isto melhor.)
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bem, tudo isto para concluir que mais uma anestesia geral não fará diferença. o suspenso tempo que medeia o início do acto médico, e o resultado final é que me chateia. e no dia seguinte o emprego e a vida estarão de novo na esquina.
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(já as mulheres e as suas sms continuarão indecifráveis)

2 comentários:

S. disse...

Lia-te e lembrava-me de umas fantástica entrevista ao Lobo Antunes, publicada na reeditada LER.(http://ler.blogs.sapo.pt/)

Fernando Pessoa disse...

eu li a entrevista. estou a preparar a assinatura da revista porque de facto está muito bem conseguida. gosto muito do francisco josé viegas e acho que ele onde põe o seu trabalho se eleva a qualidade cultural deste país.

já sobre a entrevista (retirando as referências pouco abonatórias a saramago - vejamos a resposta de saramago este mês ) é de facto uma viragem na minha opinião sobre o autor que já referi aqui nunca ter lido. espero em breve ler.