sexta-feira, 18 de julho de 2008

promontório

[1130]

a rua inclina-se demasiado e os espelhos do carro quase tocam as paredes das casas, de tão estreita que se tornou a passagem. deveria ter vindo a pé, mas a força que lhe falta agora servirá apenas para percorrer o pouco caminho até chegar ao miradouro. pára e arranca conforme se vão desviando as pessoas que carregam aos ombros, nos braços e nas mochilas a sua vida diária, sem pressas, sem ressentimentos. são assim estes convivas que noutros tempos foram companheiros de noites animadas de verão. aceitam os dias tal como eles chegam, embrulhados na paz do mar.
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estacionou o carro de costas para o sol, mas não por desrespeito. muito pelo contrário. durante alguns meses de férias aqui passados ele era um companheiro inseparável e até um confidente dos segredos que lhe saltavam no peito. o amor que sentia, a paixão que se iniciou, o namoro, os passeios, tudo o sol sabia com pormenor.
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sentou-se num banco virado para a falésia, e abriu o seu caderno ao mesmo tempo que algumas vozes se faziam ouvir na praia mais próxima. leu a última entrada do seu quase diário,
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"Ouviste dizer que foi bom vencer?
Também te digo que é bom perder, as batalhas perdem-se com o mesmo espírito com que se ganham." walt whitman*
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(a brisa é um sopro do passado tão leve como a sua memória. demasiado ténue para que se recorde do seu perfume, da textura da pele, do cheiro intenso a bronzeador, dos beijos salgados do mar, enfim de tudo o que o fazia entrar no carro e voltar a este local paradisíaco.)
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inspirou. suspirou. sorriu. pegou no papel e escreveu o último poema,
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promontório
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talvez amanhã escreva as palavras certas, hoje não.
talvez me surja em sonhos a lista final das promessas
por cumprir. talvez amanhã, hoje não.
hoje queria ver-te nos lírios selvagens que
crescem no cabo, encrustados nas escarpas,
presos pelas raízes que os seguram da queda.
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talvez hoje me visite em sonhos o teu sorriso.
talvez amanhã eu escreva a alegria do dia
em que ao anoitecer me beijaste de fugida.
talvez me lembre de tudo isto e o escreva.
talvez amanhã, hoje não.
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hoje remeto a tua imagem suspensa na espuma,
para o fundo do mar. para o fundo da minha alma.
talvez amanhã não acorde para escrever isto,
mas hoje sei que me despedi de ti. hoje. não amanhã.
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na esquina da praça 25 de abril, está fechado o café meirim. o café era o espaço dos jovens campistas, dos viajantes passageiros, era o local ideal dos encontros amorosos fortuitos de verão, onde as guitarras rodavam de mão em mão, de cantor em artista, animando as festas até de madrugada.
já não sabe onde se escondem os dias vivos desta terra. também dela se despede. talvez hoje, ou talvez amanhã. ou talvez se possam esquecer pessoas, mas nunca os lugares onde fomos felizes.
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* citação roubada daqui [andré benjamim]

3 comentários:

Anónimo disse...

Quantas vezes alguém tem de se despedir até poder voltar?

S. disse...

Não conheço este lugar, mas senti-o pintar-se em mim a cada frase que lia.

Fernando Pessoa disse...

anónimo,

eu próprio gostava de perceber porque é que as pessoas insistem em impossíveis...

S.,

eu próprio não o conhecia, mas acabou por parecer um lugar bem agradável, pelo menos à primeira vista :)