sexta-feira, 5 de setembro de 2008

florentino ariza não morreu de amor [10]

[1203]

os sinos dobram-se ao ritmo da passagem do cortejo fúnebre. dobram-se em sinal de respeito, como que ao tocarem anunciassem o fim de uma história. talvez seja o fim desta história, talvez até o fim daquela vida, não o fim do mundo como o conhecemos. os dias continuarão a passar ao ritmo que se arrancam as folhas do calendário, as correrias desembaraçadas acontecerão na formalidade dos ponteiros do relógio tal e qual o envelhecer das pedras e dos montes será cadenciado pelo ritmo do nascer e pôr-do-sol.
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mas por quem os sinos dobram? perguntavam alguns distraídos que se encostam na esquina da praça, ouvindo o estridente ribombar dos cones do alto da torre da sé. era por fermina. a nossa resistente estava vestida de negro, com a tez da pele mais branca, e com um ar de alívio. parecia que seguia sem mácula por deixar este mundo, como que aproveitando para se despedir das ruas, dos espaços, dos jardins e de alguns amigos mais próximos. a autoridade local estava toda presente, e o cortejo decorre com a lassidão da tristeza que a notícia entranhou nos rostos anónimos que se despedem num último adeus.
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(na noite do dia anterior à sua morte, fermina pediu a última carta que estava na caixa. pediu que a deixassem sozinha no quarto para que enfim compreendesse o desejo de florentino ao guardar estas cartas. abriu muito ao de leve, com as mãos trémulas o envelope todo ele digno de comunicado oficial,
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minha madre-pérola,
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tu que nasceste para alegria dos olhos, de um mar tenacioso, e que hoje brilhas de intensidade matizada, deixa-me escrever esta última carta no dia em que te reencontro nos meus braços. não há nada mais importante que passar o resto dos meus parcos dias, jazendo nos teus braços com as minhas últimas forças. se tudo isto fosse a felicidade inteira, eu teria vivido por ela nem que fosse por um só dia.
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deixo esta carta primada de anúncio para que saibas que no dia em que a leres já terei partido. no céu dos mortais apaixonados aguardo de novo pela vida suprema ao teu lado. agora desfilo no teu corpo o meu contentamento.
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dá-me o teu corpo e o teu coração.
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espero-te,
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florentino ariza.
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com a visão afunilada nas letras que se distorcem na folha, vai deixando de perceber o que fazem duas mulheres no quarto, as mesmas do sonho, as mesmas da mensagem, as mesmas que lhe sorriem e a amparam na entrada das portas suspensas sobre o rio.)
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um remoinho de folhas na entrada do cemitério, circulando em força formando um sorvedouro de almas, é o anúncio da vida que se senta à espera de nova oportunidade. é a certeza da natureza viva, o conluio entre vento e folhas, a conspiração de deus e das árvores para determinar o fim das lágrimas.
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na lápide de mármore cinza, inscreveu-se o poema preferido de fermina e florentino. foi o desejo de ambos serem sepultados lado a lado com as palavras do poeta, determinando a quem passasse o feliz acto de existir e de amar.
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Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.


pablo neruda
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nada na rua espera pelo nascer do dia, as flores do jardim fuente del amor brilham em loiro crescente do sol que se adivinha na manhã.
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FIM

4 comentários:

ivone disse...

li o livro e esperei com expectativa o filme.
cópia fiel mas que apesar disso deixa sempre a desejar porque escrita é escrita e fotografia é fotografia e não me venham com aquela de que uma foto vale por mil imagens. são coisas diferentes que por vezes se complementam ou não.

não florentino ariza não morreu de amor. subiu nas escadas por causa de um papagaio feliz empoleirado no ramo de uma árvore e pura e simplesmente caiu delas.

ivone disse...

errata: onde se lê "uma foto vale por mil imagens" deverá ler_se uma foto vale por mil palavras

precipitei_me só isso rs

Fernando Pessoa disse...

cara ivone,

conheço bem a obra, embora a tivesse lido há já algum tempo. e o filme também vi, mas não se aproximou em qualidade ao livro.

na obra de garcía márquez, florentino ariza não morre, ficando a viver com fermina no barco. quem morre é o marido e médico, Juvenal Urbino, que ao tentar chegar ao papagaio cai da escada.

obrigado pela visita.

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