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os sinos dobram-se ao ritmo da passagem do cortejo fúnebre. dobram-se em sinal de respeito, como que ao tocarem anunciassem o fim de uma história. talvez seja o fim desta história, talvez até o fim daquela vida, não o fim do mundo como o conhecemos. os dias continuarão a passar ao ritmo que se arrancam as folhas do calendário, as correrias desembaraçadas acontecerão na formalidade dos ponteiros do relógio tal e qual o envelhecer das pedras e dos montes será cadenciado pelo ritmo do nascer e pôr-do-sol.
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mas por quem os sinos dobram? perguntavam alguns distraídos que se encostam na esquina da praça, ouvindo o estridente ribombar dos cones do alto da torre da sé. era por fermina. a nossa resistente estava vestida de negro, com a tez da pele mais branca, e com um ar de alívio. parecia que seguia sem mácula por deixar este mundo, como que aproveitando para se despedir das ruas, dos espaços, dos jardins e de alguns amigos mais próximos. a autoridade local estava toda presente, e o cortejo decorre com a lassidão da tristeza que a notícia entranhou nos rostos anónimos que se despedem num último adeus.
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(na noite do dia anterior à sua morte, fermina pediu a última carta que estava na caixa. pediu que a deixassem sozinha no quarto para que enfim compreendesse o desejo de florentino ao guardar estas cartas. abriu muito ao de leve, com as mãos trémulas o envelope todo ele digno de comunicado oficial,
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minha madre-pérola,
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tu que nasceste para alegria dos olhos, de um mar tenacioso, e que hoje brilhas de intensidade matizada, deixa-me escrever esta última carta no dia em que te reencontro nos meus braços. não há nada mais importante que passar o resto dos meus parcos dias, jazendo nos teus braços com as minhas últimas forças. se tudo isto fosse a felicidade inteira, eu teria vivido por ela nem que fosse por um só dia.
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deixo esta carta primada de anúncio para que saibas que no dia em que a leres já terei partido. no céu dos mortais apaixonados aguardo de novo pela vida suprema ao teu lado. agora desfilo no teu corpo o meu contentamento.
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dá-me o teu corpo e o teu coração.
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espero-te,
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florentino ariza.
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com a visão afunilada nas letras que se distorcem na folha, vai deixando de perceber o que fazem duas mulheres no quarto, as mesmas do sonho, as mesmas da mensagem, as mesmas que lhe sorriem e a amparam na entrada das portas suspensas sobre o rio.)
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um remoinho de folhas na entrada do cemitério, circulando em força formando um sorvedouro de almas, é o anúncio da vida que se senta à espera de nova oportunidade. é a certeza da natureza viva, o conluio entre vento e folhas, a conspiração de deus e das árvores para determinar o fim das lágrimas.
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na lápide de mármore cinza, inscreveu-se o poema preferido de fermina e florentino. foi o desejo de ambos serem sepultados lado a lado com as palavras do poeta, determinando a quem passasse o feliz acto de existir e de amar.
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Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.
pablo neruda
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nada na rua espera pelo nascer do dia, as flores do jardim fuente del amor brilham em loiro crescente do sol que se adivinha na manhã.
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FIM