quarta-feira, 18 de junho de 2008

florentino ariza não morreu de amor [3]

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florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio

diz quem viu, que a primeira carta foi como o trovão que anuncia a monção desmesurada. durante três dias chorou copiosa e destroçadamente, num misto emocional, de saudade e passividade perante o não retorno do autor da carta.
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(fermina urbino cumpre um ritual matinal. levanta-se, ajoelha-se diante de um crucifixo trazido de roma - na viagem de lua de mel que fez pela europa - e reza um terço inteiro. mesmo que nestes dias o tenha feito soluçante, entre a cruz que carrega e vê, só há uma diferença, a que está na parede foi benzida pelas mão do próprio pápa)
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dia de domingo é dia de festa e de convívio popular na praça onde o busto de aureliano buendía, o herói guerrilheiro e vencedor da guerra civil, se entorpece ao sol. há sempre demasiado sol nesta terra. semicerrar os olhos enquanto se anda na rua, parece uma obrigação, como se permanecessem desconfiados uns dos outros, ou as feridas da luta instestinal neste país nunca se resolveram.
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(fermina caminha a passo lento, com os seus vestidos negros empoeirando-se a cada rua que dobra. acompanha-a a sua criada, que nunca questiona os intentos da nossa amargurada fermina. respira fundo. suspira tanto que a criada se aproxima pensando que algo se passa de errado. mas o que entra olhos dentro de fermina é aquele banco de jardim em frente à casa onde viveu florentino. apressa-se e senta-se naquele pedaço de madeira em que ainda sorriem as letras com o seu nome, gravado a canivete pelo jovem florentino quando escreveu aquela missiva. fermina desata o saco e tira mais uma carta,
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"minha flor de lótus,
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que regozijo este sol relembrar-me das tuas mãos na minha cara. onde te esconderam, meu nenúfar? essa europa nunca mais termina ou as fronteiras fecharam-se para eu não mais te ver?
que dia este. mais este. e o outro foi igual. não quero mais dias assim.
se te fechasse nas minhas mãos e te roubasse no escuro desta noite? tenho a certeza que brilharias todo o caminho que esperarei percorrer até te voltar a ter.
dá o teu corpo. não dês o teu coração,
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aguardo-te.
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florentino ariza"
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há cheiro a incenso muito antes de se chegar perto da porta da igreja. hoje ela sorri. mesmo que não volte a ter mais um beijo nem um toque de florentino ariza, ele continua ali tão perto pois ela pressente o calor que abraça os seus cabelos.
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deixemo-la rezar.

10 comentários:

Cristina disse...

Obrigada! Só o amor é que nos faz ficar assim... desconfio que sou das últimas românticas, apesar de recusar essa etiqueta!

Gostei muito!

Anónimo disse...

Eu só consigo ler blá blá blá blá…
Isso é tudo muito bonito, mas não narra a realidade dos factos. O que aconteceu foi o seguinte:


Florentino Ariza, um poeta e funcionário dos telégrafos que descobre a paixão da sua vida ao ver Fermina Daza pela janela da "villa" de seu pai.


Aqui surgem logo duas hipóteses; ou ela gosta e pimba pimba, ou ela não gosta e pumba pumba…fodeu-se!!


O que acontece?


Ela gosta, mas para espanto de todos ela vai fazer o pimba pimba com o sofisticado aristocrata Dr. Juvenal Urbino. De seguida vão morar para Paris… e mais pimba pimba, depois de tanto pimba pimba ela já esqueceu o pobre Florentino Ariza.


Aqui emerge logo a seguinte dúvida. Mas que banana é que fica a espera que uma gaja que já esta farta de pimba pimba corresponda ao seu amor??


Ele na realidade arranjou outra gaja para afogar o ganso, recordo que ele era funcionário de telégrafos (gajas não faltavam). Não me venham com histórias, porque estas cantigas de amor só servem para deixar as moças sensíveis, assim sofrem um derradeiro ataque e não têm força/coragem/lucidez para dizer que não querem… tu nasceste a 120 anos mas sabes bem o que queres Fernando Pessoa, nem essa idade te tira o power…

Tenho dito

O Coronel Aureliano Buendía,
herói guerrilheiro e vencedor da guerra civil,
sempre atento

O Poeta Morto disse...

por isso houve tantos buendias, era só pimba pimba pimba e romantismo no c*r*lh*...

assim foram 100 anos de solidao.

O Poeta Morto disse...

ah, mas gostei das duas historias. uma é como toda a gente pensa e gostaria que fosse, romanticos, amor eternos e para sempre, outra, a vida como ela é.

Fernando Pessoa disse...

minha cara cristina,

tão ilustre visita, merecia ser recebida com pompa.

meu caro anónimo,

folgo em saber que leu este magnífico romance.é sem dúvida um marco literário, uma narrativa do melhor nível de garcía márquez.

o meu exercício não se prende com a realidade contada na história (que tão bem descreve)mas com a ideia de escrever sobre o que terá acontecido (pós-romance). por certo não quererá dizer que me limito à reinvenção da história. porque eu li a obra e sei muito bem o que lá se passou. por certo haverá muito coincidente, nos espaços e nos nomes. mas a ideia é imaginar o cenário depois da morte de florentino ariza (sim,a morte é tão inevitável como o pimba, pimba - apesar do amor ter lugar em cada relação).

eu gosto de ser original, e gostei da originalidade da sua resposta. caso tenha gostado da ideia, pode continuar a passar por cá, porque há mais cartas (imaginadas por mim) que a fermina irá ler. caso não tenha gostado, pode voltar na mesma porque há mais posts e muito bons, escritos pelos meus ilustres companheiros.

(admito a familiaridade das palavras, mas mesmo assim não vou arriscar um prognóstico. ando nisto há 120 anos e cada vez sei menos...mesmo de mulheres.)

coronel, hasta la vitoria siempre

Fernando Pessoa disse...

poeta,

o garcía márquez mistura nos romances persongens de vários livros, o buendía é o principal no cem anos de solidão, mas aparece no amor em tempos de cólera, e também na crónica de uma morte anunciada.

e a vida é aquilo que nós fazemos dela. nem menos nem mais.não limite, nem linha que separe o que disseste. a realidade pode por vezes ser mais estranha que a ficção.

Anónimo disse...

Caro Fernando Pessoa que tanto admiro,

Voltarei certamente a este ilustre blog e concordo plenamente com o que disse. Deixe-me alias dizer-lhe que tem o dão da palavra e uma imaginação fértil, qualquer dia escreve um livro...


PS: Faz muito bem em não arriscar prognósticos (só no fim, como diz o outro…)


Cumprimentos,

Hoje, o Coronel Aureliano Buendía, amanhã, não sei...

O Poeta Morto disse...

e a vida não é aquilo que nós fazemos dela. isso também é muito bonito. nós somos aquilo que a vida nos faz. a vida e os outros.

O Poeta Morto disse...

ou como "tu" outrora disseste:

"Começo a conhecer-me. Não existo

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade deste intervalo, porque também há vida...

Sou isso, enfim....."

Fernando Pessoa disse...

poeta,

não vale a pena discutir, copos meio cheios ou meio vazios.

também eu com a minha boa disposição em falta consigo argumentar que a vida é que nos molda e comanda. hoje apetece mandar na minha. e amanhã também. ou sempre que me apetecer. e quando resignara lutar então aceito o que ela me trouxer.

(se ficar em casa elas não me vão bater à porta)

haverei de me definir até à exaustão e tornar-me naquilo que nunca fui. quero ser pormenorizadamente inventado. eu próprio me principio depois de chamado pela primeira vez, e voltarei mais que à morte através de mais que um vivo fulgor dominando e resgatando a alma do corpo com violência. haverei de me fingir e nunca necessitar de mim

Valter Hugo Mãe