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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

a midnight valium for a good night sleep * [4]

[1412]

a pátria sentimental.
nada como recordar aos incautos e desprevenidos, ou desatentos, que o estoicismo não se pode tornar numa inflexibilidade amoral. descerrar o pano no exacto momento em que a peça ainda vai no adro, é o mesmo que esquecer o auge, mesmo que depois venha a desgraça.
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" Há mulheres que não lutam pelo que querem, pelo que merecem. Abandonam os seus sonhos, os seus ideais, capitulando-se a tristes fantasmas e a emoções vazias de um passado do qual um dia fugiram. Há mulheres que não lutam pelo que querem, pelo que merecem. Desprotegem-se, baixam a guarda e ficam à mercê de fracas memórias. Desiludidas na longa espera da quimera romântica rendem-se por fim à banalidade, ao mundano que sempre contestaram e acabam traidoras da sua pátria sentimental.
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Há homens que têm o que não deveriam. São aves de rapina, abutres que pairam sobre os corpos estendidos e inertes à procura do momento certo para o saque e o esventramento. Há homens que têm o que não deveriam, que pilham a fragilidade alheia e se alimentam cobardemente dos despojos emocionais. "
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* sutítulo do blog [vontade indómita]

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

florentino ariza não morreu de amor [10]

[1203]

os sinos dobram-se ao ritmo da passagem do cortejo fúnebre. dobram-se em sinal de respeito, como que ao tocarem anunciassem o fim de uma história. talvez seja o fim desta história, talvez até o fim daquela vida, não o fim do mundo como o conhecemos. os dias continuarão a passar ao ritmo que se arrancam as folhas do calendário, as correrias desembaraçadas acontecerão na formalidade dos ponteiros do relógio tal e qual o envelhecer das pedras e dos montes será cadenciado pelo ritmo do nascer e pôr-do-sol.
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mas por quem os sinos dobram? perguntavam alguns distraídos que se encostam na esquina da praça, ouvindo o estridente ribombar dos cones do alto da torre da sé. era por fermina. a nossa resistente estava vestida de negro, com a tez da pele mais branca, e com um ar de alívio. parecia que seguia sem mácula por deixar este mundo, como que aproveitando para se despedir das ruas, dos espaços, dos jardins e de alguns amigos mais próximos. a autoridade local estava toda presente, e o cortejo decorre com a lassidão da tristeza que a notícia entranhou nos rostos anónimos que se despedem num último adeus.
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(na noite do dia anterior à sua morte, fermina pediu a última carta que estava na caixa. pediu que a deixassem sozinha no quarto para que enfim compreendesse o desejo de florentino ao guardar estas cartas. abriu muito ao de leve, com as mãos trémulas o envelope todo ele digno de comunicado oficial,
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minha madre-pérola,
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tu que nasceste para alegria dos olhos, de um mar tenacioso, e que hoje brilhas de intensidade matizada, deixa-me escrever esta última carta no dia em que te reencontro nos meus braços. não há nada mais importante que passar o resto dos meus parcos dias, jazendo nos teus braços com as minhas últimas forças. se tudo isto fosse a felicidade inteira, eu teria vivido por ela nem que fosse por um só dia.
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deixo esta carta primada de anúncio para que saibas que no dia em que a leres já terei partido. no céu dos mortais apaixonados aguardo de novo pela vida suprema ao teu lado. agora desfilo no teu corpo o meu contentamento.
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dá-me o teu corpo e o teu coração.
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espero-te,
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florentino ariza.
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com a visão afunilada nas letras que se distorcem na folha, vai deixando de perceber o que fazem duas mulheres no quarto, as mesmas do sonho, as mesmas da mensagem, as mesmas que lhe sorriem e a amparam na entrada das portas suspensas sobre o rio.)
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um remoinho de folhas na entrada do cemitério, circulando em força formando um sorvedouro de almas, é o anúncio da vida que se senta à espera de nova oportunidade. é a certeza da natureza viva, o conluio entre vento e folhas, a conspiração de deus e das árvores para determinar o fim das lágrimas.
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na lápide de mármore cinza, inscreveu-se o poema preferido de fermina e florentino. foi o desejo de ambos serem sepultados lado a lado com as palavras do poeta, determinando a quem passasse o feliz acto de existir e de amar.
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Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.


pablo neruda
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nada na rua espera pelo nascer do dia, as flores do jardim fuente del amor brilham em loiro crescente do sol que se adivinha na manhã.
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FIM

terça-feira, 2 de setembro de 2008

florentino ariza não morreu de amor [9]

[1199]

florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio

não sobra nos olhos de quem passa a certeza de verem algo novo. a manifestação de rara beleza não espanta quem, ano após ano, se senta a deliciar o filme em movimento. as plantas abrem-se. mostram o peito e os filamentos coroados de pólen, devotando a sua vida aos que com sorte conseguem assistir a este espectáculo. no fim a flor morre. contudo, durante vinte e quatro horas é uma dança assinalável de cores vivas que renascem para uma curta vida. é assim no jardim funte del amor, um assinalável pulmão encastrado entre a cidade e inóspita planície de este, e com a floresta titânica como pano de fundo.
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esta cidade já cresceu muito para além dos muros mais antigos da cidade original. os muros foram o suporte de uma guerra duradoura, servindo para proteger quem sempre viveu deste ar. fermina ainda se lembra do dia em que chegou a esta cidade vinda no barco comercial. percorreu durante semanas as muralhas, procurou todos os caminhos sinalizados que a levassem aos recantos mais bucólicos do aglomerado. fermina já não é uma criança outrora irreverente e de instintos coligidos pela idade adolescente.
os seus olhos estão há dois dias fechados.
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(tudo se passa na réstia de memória que subsiste de uma vida coroada com uma verdade invisível, o seu coração pertenceu a dois homens. em sonhos, ou no pequeno espaço onde ela se escondeu do mundo, dentro do seu labiríntico cérebro, senta-se no jardim que tantas vezes aprendeu a sentir deste modo, de olhos cerrados ao mundo. vai sorrindo aos que por lá passeiam sentindo a estranha sensação de leveza desmaterializada, como se apenas o coração resistisse ao lento definhar do seu corpo. sorri aos rostos indizíveis, aos homens de olhar absorto, às mulheres de inquebrável cara abstracta. são seres perdidos deste mundo)
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no quarto do hospital, um dos filhos entra devagar procurando o silêncio no arrastar dos pés, para que nada incomode o resvalar de pétalas que transporta nas mãos. as brancas flores que arrancou do jardim, mesmo decepadas do seu alimento vivo, conseguem mutilar o ar triste, iluminando o corpo de fermina, que estendido se alvora em branco radiante.
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ao canto, em cima da mesa, está uma caixa de madeira que sabemos ser depositária fiel de cartas escritas em espaços esquecidos, nas mesas do café juanes, nos dias agoniantes de florentino, nas manhãs cinzentas e nos orvalhados bancos do jardim. ninguém se atreve a abrir a caixa. é uma tácita ordem nunca dita por fermina, mas que todos sabem ser necessário seguir. hoje ninguém poderá ler uma carta a fermina porque ela dorme.
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(sentada naquele jardim sonhado, que se parece demasiado com uma realidade distante, sente aproximar-se a cotovia que a observa atentamente com os patas enterradas no rio, sente um rouxinol pousar no banco em frente soletrando um canto estrídulo, sente o aproximar de duas mulheres serenas, e estranhamente não se atemoriza perante o papel que uma delas lhe entrega,
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amo-te para o meu sempre fermina,
amo-te pelo dia em que imiscuí no teu destino
amo-te porque sem palavras memorizei o teu ser-todo-perfeito.
morrerei no dia em que te tiver nos meus braços.
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florentino ariza
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nada à sua volta respira de tão estática é a imagem. nada se percebe de tão desfocado se vai tornando aquele sonho. ela recompõe o seu robe e abrindo os olhos)
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suspira dentro de um quarto de hospital.
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deixemo-la viver os últimos dias.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

florentino ariza não morreu de amor [8]

[1195]

florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio

(o suspiro rouco da garganta, o ranger da porta ao entrar a empregada, o gotejar do chá ao cair na chávena, o estridente toque da colher, o cheiro a velho no ar, a serenidade dos objectos suspensos na sombra do quarto, os quadros intocáveis de pinturas mortas, a vida em suspenso. fermina está assim há dois dias, deitada na cama numa febre delirante, resumindo a sua vida em palavras deselegantes perante quem se aproxima, grita por vezes com os médicos, com os filhos e não admite sair de casa.)
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há dois dias atrás a chuva intensa que se abateu na manhã fria de inverno foi o início da desgraça dos moradores do leito do rio. em duas horas apenas corriam nas ruas a pedir ajuda para salvarem os seus bens. algumas casas de comércio, há muitos anos sedeadas junto do cais de embarque, foram arrastadas pelas cheias e pela corrente destruidora. e povo uniu-se contra o que se dizia ser castigo divino.
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fermina saiu de casa a dar ordens a todos os seus empregados. os animais das quintas foram postos a salvo, e toda a maquinaria resguardada da intempérie. ao fim da manhã os estragos eram suficientes para se marcar uma reunião na praça, em que seria decidido a ajuda, e o plano de recuperação dos estragos.
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fermina de regresso a casa, mandou que lhe preparassem um banho e foi-se pôr junto da lareira. era nas alturas em que se sentia mais orgulhosa de si mesma e quando se sentia viva e prestável, que decidia ler mais uma carta. abre em silêncio o envelope amarelecido e revê mais um episódio longínquo,
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" minha amapola,
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por estes dias viajei por terras interiores da amazónia. fugi desse mundo entorpecedor. deixei-te um malmequer junto da tua porta. bem sei que nunca o receberás, mas a verdade é que daqui de onde me encontro, consigo fechar os olhos e sentir o aroma da flôr e ver-te passar à porta da companhia de viagens.
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fugi para refrescar o desejo, descer o rio, cortar e guardar as novas plantas que vou descobrindo. a amazónia é como a impossível relação entre nós, é densa de vegetação, sem caminhos abertos e visíveis. nada aqui te encaminha no facilistismo, e no entanto todo o encanto desta floresta é arrebatador e encantador.
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não sei quando voltarei. mas tenho a certeza que não morrerei a não ser nos teus braços.
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dá o teu corpo. não dês o teu coração.
aguardo-te
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florentino ariza
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o assalto da temperatura ao corpo de fermina começa logo após o jantar. a febre assoma-se-lhe com a velocidade típica de um vírus colérico e devastador. já não sai da cama até à hora em que o médico decide que o internamento será irreversível.
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(o cheiro a éter no ar. as paredes brancas e os lençóis desinfectados. o quarto despido e nu de sentido vivencial. as portas entreabertas. as enfermeiras diligentes no seu trabalho. os termómetros e os soros fisiológicos. tudo aqui adivinha sofrimento. fermina já não participa na missa celebrada pelos dois corpos desaparecidos. tudo aqui adivinha dor.)
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deixemo-la recuperar.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

florentino ariza não morreu de amor [7]

[1148]

florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio

(os armários alinhados do lado direito da sala, com os jarros de porcelana francesa intactos - trazidos de terras gaulesas há mais de 50 anos - escurecem e esbatem a força da luz que entra nas janelas. abertas sempre pela manhã, é a esta hora que são cerradas para que fermina urbino [ou daza, ou ariza - conforme o tempo e o espaço do nome na sua vida], entre a sentar-se na cadeira de baloiço. durante meia-hora fecha os olhos, e não raras vezes adormece entrando em sonhos de recorrente frescura juvenil.)
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na rua, em frente à casa municipal, decorre um concerto de música clássica. o som vai-se imiscuindo em cada casa da vila, entrando ao ritmo do violino pelas portadas e ressoando nos sub-conscientes a cada rasgo do violoncelo. é a 5ª sinfonia de beethoven.
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(no armário estão alinhados os livros de uma colecção de comprada pelo pai de fermina, e que foi crescendo com os gostos do seu primeiro marido, incluindo um sem número de entradas bibliográficas sobre medicina. ao lado direito alinham-se romances, poesia e alguns (poucos) ensaios. o mercador de veneza de shakespeare, é uma da obras a que fermina gosta de regressar, mas o livro pousado em cima da mesa tem uma passagem de romeu e julieta sublinhada,
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"só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo."
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o silêncio de fim de tarde nas ruas é característica solene e imperial desta gente. o respeito pela arte, nas suas mais variadas formas, parece querer tornar este povo num estado de superioridade intelectual que o há-de distinguir dos demais vizinhos. ninguém entende estas raízes genéticas, dado que a guerra foi sempre a única forma de se resolverem os conflitos gerados no seu seio. uns jovens estão deitados à sombra das acácias e vão brincando em silêncio, jogando ao de leve com a líbido no tabuleiro do xadrez do amor.
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" minha doce e amada tulipa holandesa,
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que estranho chamar o teu nome a meio da noite, sonhar entusiasmado com o desfecho esperado, e no entanto ao raiar o sol apenas a minha sede e o meu intento do coração permanecem lúcidos. todo eu entro no escuro do dia. visto o meu fato mais estranho e não me importo que me apontem o dedo e me chamem louco. os nomes que temos não nos entendem. já dizia romeu "que há num simples nome? o que chamamos rosa, com outro nome não teria igual perfume?".
por isso os desdenhosos dedos em riste desta gente não podem ser julgados. eles não sabem que nem os nomes nos definem. e por isso eu escrevo em loucos delírios para que não leias. porque o teu nome, nem as palavras podem definir. o teu nome só o meu coração o pode repetir.
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as sereias chamam por mim. vou morrer ali. um dia morrerei ali.
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não me morras antes do meu morrer.

dá o teu corpo. não dês o teu coração.

aguardo-te

florentino ariza”

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acena a um vizinho e fecha a cortina da janela. guarda mais uma carta escrita num tempo longínquo. parecem fantasmas soltos de um cofre a falarem cada um para o seu lado, tantas são as vozes que ecoam na sua cabeça. por vezes desconfia da sua sanidade mental.
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deixemo-la recompor os seus sentidos.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

florentino ariza não morreu de amor [6]

[1127]

florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio.
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segunda é dia de feira. terça é dia de descanso e visita ao mosteiro das beneditinas. quarta é dia de matar um animal e de jantar com os convidados ilustres da terra. quinta é dia de cemitério e flores nas sepulturas dos seus dois maridos. sexta é dia de visitar as plantações.

sábado,
decorre na praça uma tourada anual, com uma amostra de animais robustos, há chegas de bois, vendem-se a bons preços os melhores vinhos e as incontestáveis maravilhas da cozinha sul americana.

(fermina está em casa em descanso. o dia de sábado, tal como o de domingo, é dia de repouso e sombra. recolhe-se em casa, nas suas rendas, nos seus animais de estimação, ou simplesmente sem fazer nada. é um dia desenhado a preto e branco, mesmo que não saibamos se o artista o pinta a lápis ou a carvão, o dia é assim sem cor embora com muita luz.)
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bebe café ao fim do almoço, sempre sozinha, na mesa de 20 convidados, onde repousam os pratos e os talheres de serviço diário. hoje no centro só está uma flor, colhida com os cuidados exigentes de fermina. abre a carta, cerra os olhos, respira fundo, uma e duas vezes, e os olhos finalmente acertam nas palavras,

“meu girasol,
hoje estou sozinho no meu quarto. vi-te passar lado a lado com o teu marido. saberás que me assaltas o estômago por uma semana inteira, roubando-me a vida, e eu sem força, fome ou vontade de sair, estarei aqui a engendrar o plano perfeito. o plano que espero há anos poder concretizar. contudo, minha flor amarelo-radiante, o sol que te faz circular ainda não sou eu. mas serei um dia. e na paz do dia em que o meu peito respirar os teus negros caracóis, eu serei um audaz mendigo a quem calhou em sorte a lotaria.

não te esqueças de mim, nos dias frios.

dá o teu corpo. não dês o teu coração.

aguardo-te

florentino ariza”

na tolha de linho que cobre a mesa, adensam-se uns pingos de água e sal. nada se mexe neste cenário preto e branco. mas com os olhos molhados, ela nem reparou que o girassol se voltou para ela em comiseração.

deixemo-la chorar.

terça-feira, 1 de julho de 2008

florentino ariza não morreu de amor [5]

[1091]


florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio
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frei justino, de sandálias de couro, tecidas à mão - pela sua própria mão - foi a correr ver o que se passsava no quintal do convento franciscano de macondo. nesta terra perdida no fundo do rio, nada se passa de anormal até que o destino se intrometa e faça remover o pó que se vai acumulando.
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(eram ladrões de galinhas. levaram duas ou três, e a partir daí seguiram-se meses de episódios estranhos e macabros até)
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(fermina era a cândida rapariga, filha do emigrante e negociador chegado a macondo em tempos de prosperidade. assentaram o negócio e mesmo sem a presença de sua mãe, fermina foi sempre obediente e temente aos mandamentos de seu pai)
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recorda a sua vida como um filme que passa na núvem, a tela é o azul do céu, e o sol é o projector da película, onde até as ondas de calor realçam a nebulosidade do seu passado, como se estranhamente a verdade se escondesse entre a mentira, e os factos se enrolassem em promiscuidade com os argumentos.
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(há ali na mesa de cabeceira mais uma carta que ela resiste a abrir. a caixa de pandora que transformou a sua vida, abrir aquele cofre sem saber que os fantasmas regressariam de mansinho, como o fumo da lareira nos dias de inverno, foi um erro tremendo que arruína o seu desgastado coração envelhecido,
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meu cravo amarelo,
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seduz-me ver-te escondida atrás dessas janelas, adivinhando o teu corpo despido do linho. a tua pele a cheirar a água de colónia e os sinos da igreja a tocar a rebate pela tua pureza. alma destruída carrego pelo peso do dia em que o teu pai nos separou. juro que me suicído, se arranjar arma mais forte que o meu amor. um dia verás, tão bem como eu no céu, o sinal enviado a testar o sal das tuas lágrimas.
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verás que fui eu o teu grande amor, desde o dia em que te escrevo.
dá o teu corpo. não dês o teu coração
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aguardo-te
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florentino ariza.)
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o frei corre na rua atrás de dois malandros, jovens com espírito brincalhão, carregando num saco às costas duas galinhas roubadas no sagrado espaço de deus.
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a fermina vislumbra-se entre as ondas de calor uma libelinha que desce do céu e se vem encostar à sua janela. as lágrimas que dela deslizam, não são passíveis de serem medidas pelo desgosto. mas pela alegria de se ter entregue a florentino.
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deixemo-la descansar

segunda-feira, 23 de junho de 2008

florentino ariza não morreu de amor [4]

Para a Daniela
florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio
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maio. não se vislumbra uma núvem no céu. espelha-se nos lagos e nas nascentes de água, a ondulação do calor. o maio do sol. o maio da primavera.
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(fermina calça os chinelos de quarto, pega nos utensílios, nas linhas nas agulhas, e vai sentar-se na janela a poente da casa, com vista sobre a praça onde se ergueu a estátua ao fundador da nova ordem do país.)
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abre a janela todas estas manhãs e espalha uns grãos de semente que chama as andorinhas, os estorninhos e uma ou outra gaivota que se apercebeu há muito do dia-a-dia pardacento de fermina urbino. os seus movimentos são de uma cadência lenta, um passo a cada minuto, como se vivesse em sintonia com o presente, mas manchada indelevelmente pelo seu passado.
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(desde a morte de florentino ariza, a sua terceira vida não é mais que uma confusão permanente de passados e presentes. só do futuro não se fala, porque sem os beijos nas mãos de florentino ariza, a alma está em desasosego, e o amanhã é um nada disfarçado de cartas escritas em tempos de amor desabrido,
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minha primavera,
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soube que ontem regressaste da europa com o teu marido. a cidade toda sabe. eu colhi as flores desse jardim em frente à tua casa, para levar comigo o teu sorriso cravado naquelas pétalas. não consigo disfarçar este mal-estar do estômago. se o que me pesa é o coração, porque desce esta força a retorcer o meu diafragma, é algo da natureza que eu não quero conseguir explicar.
é o sacrifício de te amar.
palavra de honra se não me dou em louco um dia destes e corto aquelas flores, faço um arco triunfal e to deixo na porta. só assim serias a rainha e a minha primavera benzida em pólen.
dá o teu corpo. não dês o teu coração.
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aguardo-te
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forentino ariza
)
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ao fim da tarde sairá de casa auxiliada pela sua criada, e com o ar mais fresco e aromático, irá ao jardim colher umas flores para o seu quarto. ao fechar os olhos, com as flores no colo, sentirá mais calorosos os beijos nas mãos que adorava em florentino.
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é maio. é a primavera de maio.
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deixemo-la sonhar

quarta-feira, 18 de junho de 2008

florentino ariza não morreu de amor [3]

[1064]

florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio

diz quem viu, que a primeira carta foi como o trovão que anuncia a monção desmesurada. durante três dias chorou copiosa e destroçadamente, num misto emocional, de saudade e passividade perante o não retorno do autor da carta.
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(fermina urbino cumpre um ritual matinal. levanta-se, ajoelha-se diante de um crucifixo trazido de roma - na viagem de lua de mel que fez pela europa - e reza um terço inteiro. mesmo que nestes dias o tenha feito soluçante, entre a cruz que carrega e vê, só há uma diferença, a que está na parede foi benzida pelas mão do próprio pápa)
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dia de domingo é dia de festa e de convívio popular na praça onde o busto de aureliano buendía, o herói guerrilheiro e vencedor da guerra civil, se entorpece ao sol. há sempre demasiado sol nesta terra. semicerrar os olhos enquanto se anda na rua, parece uma obrigação, como se permanecessem desconfiados uns dos outros, ou as feridas da luta instestinal neste país nunca se resolveram.
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(fermina caminha a passo lento, com os seus vestidos negros empoeirando-se a cada rua que dobra. acompanha-a a sua criada, que nunca questiona os intentos da nossa amargurada fermina. respira fundo. suspira tanto que a criada se aproxima pensando que algo se passa de errado. mas o que entra olhos dentro de fermina é aquele banco de jardim em frente à casa onde viveu florentino. apressa-se e senta-se naquele pedaço de madeira em que ainda sorriem as letras com o seu nome, gravado a canivete pelo jovem florentino quando escreveu aquela missiva. fermina desata o saco e tira mais uma carta,
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"minha flor de lótus,
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que regozijo este sol relembrar-me das tuas mãos na minha cara. onde te esconderam, meu nenúfar? essa europa nunca mais termina ou as fronteiras fecharam-se para eu não mais te ver?
que dia este. mais este. e o outro foi igual. não quero mais dias assim.
se te fechasse nas minhas mãos e te roubasse no escuro desta noite? tenho a certeza que brilharias todo o caminho que esperarei percorrer até te voltar a ter.
dá o teu corpo. não dês o teu coração,
.
aguardo-te.
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florentino ariza"
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há cheiro a incenso muito antes de se chegar perto da porta da igreja. hoje ela sorri. mesmo que não volte a ter mais um beijo nem um toque de florentino ariza, ele continua ali tão perto pois ela pressente o calor que abraça os seus cabelos.
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deixemo-la rezar.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

florentino ariza não morreu de amor [2]

[1058]

florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio

estava sentada na sala de estar, junto a uma janela que deixava adivinhar o calor insuportável tanta era a luz que entrava junto do seu corpo.
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(a imagem é a da amargura de fermina urbino)
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o cheiro que ainda paira no ar desde o dia da morte de florentino ariza, é um cheiro a amor cadavérico. fermina, uma envelhecida beleza, não se olha ao espelho há um mês e nem imagina a sua degenerativa efígie a que assistem os transeuntes.
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as mãos tremem com a primeira carta,
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" minha crisálida,
estás tão longe da minha vista que quero adivinhar-te reservada no casulo que teci. guardo a tua foto desde o dia em que nos separou o pretérito imperfeito.
mesmo estando a esta distância, hoje sonhei-me ao pé de ti nessa paris das luzes. mão dada, claro, e avenida desimpedida.
dá apenas o teu corpo. não dês o teu coração.
aguardo-te.
.
florentino ariza"
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o silêncio seco deste calor de verão, enrola-se no corpo vestido de negro e o suor desce suave pelas sulcadas marcas da idade.
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(tudo isto nos impede de ver as lágrimas)
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deixemo-la a sós

quinta-feira, 12 de junho de 2008

florentino ariza não morreu de amor

[1049]

florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio.
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(a última seria a verdadeira depositária do seu coração. deixou-se embrenhar no peito solícito sem pagar o resgate necessário pela candura das mãos de fermina urbino. seria separado para além do limite razoável que a tolerância do amor permite.)
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suponho que as cartas que lhe escreveu nas horas de solidão, estavam bem guardadas nos cofres da empresa de transportes e navegação. ao entregar-se depois de uma vida inteira de espera - entre os braços de centenas de roliças - trancou todos os poemas de amor, carregando consigo a chave do cofre ao peito.
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(fermina urbino, enlutada de uma segunda morte, olhou a chave na mesa pousada em desassossego, até ao dia em que decidirá recuperar aquele homem pelas palavras. lerá durante os meses seguintes, as cartas escritas por florentino ariza durante quase 40 anos)