sexta-feira, 29 de agosto de 2008

florentino ariza não morreu de amor [8]

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florentino ariza não morreu de amor. morreu a dormir num dia de calma subida do rio

(o suspiro rouco da garganta, o ranger da porta ao entrar a empregada, o gotejar do chá ao cair na chávena, o estridente toque da colher, o cheiro a velho no ar, a serenidade dos objectos suspensos na sombra do quarto, os quadros intocáveis de pinturas mortas, a vida em suspenso. fermina está assim há dois dias, deitada na cama numa febre delirante, resumindo a sua vida em palavras deselegantes perante quem se aproxima, grita por vezes com os médicos, com os filhos e não admite sair de casa.)
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há dois dias atrás a chuva intensa que se abateu na manhã fria de inverno foi o início da desgraça dos moradores do leito do rio. em duas horas apenas corriam nas ruas a pedir ajuda para salvarem os seus bens. algumas casas de comércio, há muitos anos sedeadas junto do cais de embarque, foram arrastadas pelas cheias e pela corrente destruidora. e povo uniu-se contra o que se dizia ser castigo divino.
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fermina saiu de casa a dar ordens a todos os seus empregados. os animais das quintas foram postos a salvo, e toda a maquinaria resguardada da intempérie. ao fim da manhã os estragos eram suficientes para se marcar uma reunião na praça, em que seria decidido a ajuda, e o plano de recuperação dos estragos.
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fermina de regresso a casa, mandou que lhe preparassem um banho e foi-se pôr junto da lareira. era nas alturas em que se sentia mais orgulhosa de si mesma e quando se sentia viva e prestável, que decidia ler mais uma carta. abre em silêncio o envelope amarelecido e revê mais um episódio longínquo,
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" minha amapola,
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por estes dias viajei por terras interiores da amazónia. fugi desse mundo entorpecedor. deixei-te um malmequer junto da tua porta. bem sei que nunca o receberás, mas a verdade é que daqui de onde me encontro, consigo fechar os olhos e sentir o aroma da flôr e ver-te passar à porta da companhia de viagens.
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fugi para refrescar o desejo, descer o rio, cortar e guardar as novas plantas que vou descobrindo. a amazónia é como a impossível relação entre nós, é densa de vegetação, sem caminhos abertos e visíveis. nada aqui te encaminha no facilistismo, e no entanto todo o encanto desta floresta é arrebatador e encantador.
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não sei quando voltarei. mas tenho a certeza que não morrerei a não ser nos teus braços.
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dá o teu corpo. não dês o teu coração.
aguardo-te
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florentino ariza
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o assalto da temperatura ao corpo de fermina começa logo após o jantar. a febre assoma-se-lhe com a velocidade típica de um vírus colérico e devastador. já não sai da cama até à hora em que o médico decide que o internamento será irreversível.
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(o cheiro a éter no ar. as paredes brancas e os lençóis desinfectados. o quarto despido e nu de sentido vivencial. as portas entreabertas. as enfermeiras diligentes no seu trabalho. os termómetros e os soros fisiológicos. tudo aqui adivinha sofrimento. fermina já não participa na missa celebrada pelos dois corpos desaparecidos. tudo aqui adivinha dor.)
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deixemo-la recuperar.

3 comentários:

Teté disse...

Ai, pá, este já é o episódio 8? E quem é que se lembra do que ficou para trás??? :)))

Jinhos e bom fim de semana!

Fernando Pessoa disse...

apesar de não ser decisivo, porque os episódios são isolados, é importante perceber o enredo. mas eu depois crio um pdf com os contos e é mais fácil para o pessoal ler

:)

jocas :-) e bom fim-d-semana

Fernando Pessoa disse...

(lembrei-me que se clicares numa das tags do post, aparecem os episódios seguidos :)