quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

os 47 dias do desterro (IV)

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o dia em que o meu pai morreu foi um dia normal, corriqueiro e usual. demasiado riscado com pincelas de realidade e monotonia que o que aconteceu foi custoso. eu punha-me a pé, o meu pai a seguir, a minha mãe há muito que circulava no quintal. não era dia de banho (nem de visitar a viúva), nem dia de comer um pão bem adornado, nem dia de servir como jornaleiro o doutor. era assim um dia calmo e com muito que fazer em nossa casa.
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dividimos a tarefa de forma aleatória e sem registos ou conversas alongadas. disse-me o meu pai, tratas dos animais hoje que eu trato dos bardos. e assim foi para o resto do dia. saímos ao frio fresco e gelado constante e arrepiante da manhã para seguir o plano traçado.
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a minha mãe andava pela casa durante o dia a tratar das nossas roupas e limpezas gerais que a ocupava todos os dias. preparava-nos o almoço e depois de comermos e bebermos um café na esquina da avenida da casa do padre, íamos ao resto do trabalho.
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o dia em que o meu pai morreu foi um dia normal. ele estava na escada alta a podar as videiras altas. sem que eu visse nada disto, antes imaginasse uma queda das alturas, a minha mãe gritou a chamar o meu nome, o nome que ela me deu, antónio, antónio, antónio (dornas de apelido), e eu fui a correr pensando que ela se queimara mais uma vez na lareira, e deparo-me com o que nunca pensei ser o corpo do meu pai, deitado na erva já crescida e orvalhada. olhei-o e percebi que mesmo na queda poderia ter vivido mais uns anos, não fosse ter batido com a cabeça no esteio em granito que tinha desmoronado.
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a minha mãe chorava e eu não sabia que fazer. olhava para ela com o olhar de quem sabe que ela iria sofrer com aquela partida. deitada em lágrimas no peito do meu pai, o sangue ainda fresco da sua cabeça a descer sobre o granito, cerrei os punhos com a força que tinha na raiva. não sei se a chuva chegou de mansinho. mas eu comecei a chorar.
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foi nesse dia que eu não sabia ainda que o meu erro seria ficar naquela terra. foi nesse dia que a minha mãe ficou sozinha.

2 comentários:

Teté disse...

Ah, este período é imediatamente antes do II. Já estou entendendo...

inês disse...

é um dia igual a tantos que revira a nossa vida!