sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

moleskine de capa preta e sapatos vermelhos

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como ela adivinhou que eu viria aqui, não sei. deve ter lido os meus planos à socapa. nos meus apontamentos, no meu moleskine de capa preta.
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perdoo todas essas suas intromissões, mesmo as mais intimas, mesmo as diárias, perdoo porque a avidez dela é maior que o meu recatamento, que o meu silêncio, que os meus segredos. e ainda assim nada do que guardo é para esconder.
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(hoje trouxe os sapatos vermelhos presos pela parte de trás do seu pé. só a vi quando parou diante de mim, eu de cabeça baixa, os pés dela anunciando a sua chegada, e eu não disse palavra nenhuma. nada do que dissesse seria animador, nem para ela nem para mim)
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aquela cara de quem aguenta um lágrima em esforço, aquele olhar derreador dos meus sentidos, olhar que não aguento sem me abraçar a ela. é o olhar que ela sabe irresistível. e no momento em que me levanto do banco de pedra frio e húmido, a lágrima já não se ocupa da vergonha, e volta ao mundo que foi seu no dia de chuva miudinha. ela não se roga em escondê-la, porque mostra a sua doçura em passos seguros no dia-a-dia, mas se lhe falta a rede de amparo, sente-se peixe a sufocar fora de água. e mostra a lágrima, com o orgulho de quem assegura que aos estandartes da paixão, nunca falte a bandeira do amor.
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(a ponte parece flutuar a cada passo que damos. quem nos vê assim não aposta, nem arrisca uma vírgula de texto para adivinhar o que fazemos. nem o que faremos)
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eu sei que sim. que vou voltar de mão pousada no teu ombro, porque és pequena, mas volto de alma cheia, porque em tudo o que fazes és grande.

16 comentários:

Anónimo disse...

eu se fosse a ti já me tinha atirado há muito...olha que te sobra razões para isso.

Anónimo disse...

Um aparte...

Um dia destes podíamos fazer um jantar de anónimos. Num restaurante em dia marcado mas sem serem todos na mesma mesa. Assim continuávamos todos anónimos.
Que acham da ideia?
Eu podia ser a gaja boa na mesa ao lado... ou (mais provavelmente) o gajo bêbedo a falar alto do outro lado da sala... ninguém ia saber!

Fernando Pessoa disse...

isso era uma boa ideia...

todos numa sala e ninguém sabia quem era quem :) só sabemos que qualquer pessoa podia ser anónimo.

boa ideia anónimo?

(por acaso não era para tentar emendar o que escreveste em cima pois não?)

El Salib disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

(Eu?) Se Soubesses quem eu sou...

Só te digo que a pessoa que escreveu o primeiro comentário não foi a mesma que escreveu o segundo!

Fernando Pessoa disse...

não te ofendas :)

eu sou um gajo pacífico, tanto que nem apago os comentários depreciativos.

mas já agora (para evitar estas confusões) podias pelo menos usar um nome qualquer, como nós usamos e já não haveria estes desaguisados.

peace :)

Anónimo disse...

Quem? Eu?

caminhoparavida disse...

Tudo o que escreves é envolvido pelo verbo pensar... O bloco de notas que se chama moleskine, que esconde os teus segredos que dizes não serem segredos pois não são para esconder. A dicotomia olhar/ver (so viste a mulher de sapatos vermelhos quando chegou junto a ti, mas ela já tinha despertado o teu sentido com o som dos pés..) "A linguagem é uma fonte de mal entendidos"..Fizeste bem não ter dito nada :-) mesmo quando te espantaste com o rosto que aguenta uma lágrima em esforço e que desconcerta qualquer coração (principalmente aqele que assenta no estandarte da paixão e exibe a bandeira do amor :-)... (Continua a ser a frase onde paro e releio...)

Vais voltar de mão pousada no ombro porque "é ela".. e vais sorrir porque "é ela".. "é ela" que coloca em cada gesto a grandeza da vida e guarda no olhar a chave dos sonhos...

O Poeta Morto disse...

o gajo bebado a falar alto ja tem dono...

Anónimo disse...

Atenção!Também não fui eu que escrevi o primeiro comentário, seja lá o que ele queira dizer, que sinceramente não percebi...

Mas diz lá, andas às aranhas, com estes anónimos todos, não andas? Mas assim baralhado é que é curtido...

"Curiosity killed the cat"...eheh

Fernando Pessoa disse...

não me chateia nada que apareçam anónimos...é bom sinal. é que para além de visitarem o blog, também já querem intervir e dar-lhe sentido. é bom. e claro que a curiosidade mata o gato. mas mais dia menos dia todos se revelam.

cara amiga que caminhas para a vida,

["é ela" que coloca em cada gesto a grandeza da vida e guarda no olhar a chave dos sonhos...]

sim. pensei bastante sobre isso. e de facto mesmo não sabendo quem ela é, é ela que me tira o sono. mesmo que ela não exista de facto, consegue fazer-me sonhar. a descrição que faço é de uma mulher sem rosto, mas com um caractér enorme. e forte. e sensível.

mas sim para além das palavras estarem impregnadas do pensar, também estão ungidas de saudade de alguém que ainda não conheci.

caminhoparavida disse...

Pascoaes (penso que já falámos sobre ele) diz-nos que a saudade é própria de ser português..é uma síntese entre passado e futuro..

Sorrio e o meu olhar brilha quando dizes ter "saudades do futuro" e que existe uma ela que te faz sonhar... "O sonho comanda a vida :-)"

Fernando Pessoa disse...

e disse marcel proust,

"so se ama o que não se possui completamente."

e eu padeço desta doença enferma, que ha-de matar-se a si propria com o tempo.

Anónimo disse...

E tinha toda a razão...

Com uma diferença apenas: os homens, como são mais superficiais, julgam possuir tudo mais rapidamente e enjoam-se mais rapidamente do brinquedo; as mulheres, mais profundas que levam mais tempo a analisar os ínfimos pormenores, ficam normalmente com o estudo a meio...

Fernando Pessoa disse...

e agora que se fez mais luz sobre o assunto, e que mesmo não usando as palavras mais coerentes com a situação, agradeço essa análise, garantindo porém, que nem todos os homens são assim tão superficiais, nem todas as mulheres ficam a meio do estudo, porque algumas também se enjoam dos brinquedos.

e porque ambas as coisas podem acontecer dos dois lados da barricada, convenhamos que o mais difícil é arramjar aí um meio termo...

uma forma de conciliar o desejo de não perder tempo, com um desejo de conhecer aos poucos o espaço de cada um, e perceber que o mais importante é deixar evoluir o sentimento para algo mais forte que sustente posteriormente todas as vicissitudes da vida a dois...

obrigado pelas palavras...

Anónimo disse...

Sim, toda a regra tem as suas excepções...