sábado, 26 de julho de 2008

algo vai mal no reino da dinamarca [3]

[1150]

o avião entrou por uma núvem densa, sem vacilar ou estremecer, e ela olha pela janela apreciando o momento com olhos absortos e divagadores. o seu olhar não vê mais que a escuridão trazida pela núvem. pensa mais um pouco na sereia plantada no meio da rua de copenhaga. talvez por isso cintile uma luz viva no seu olhar, reflectindo um sofrer de saudade ainda que precoce.
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treme-lhe amiúde a mão direita. nela está o peso do livro que a acompanha em cada viagem. o principezinho, é a biblia das citações das suas viagens, a que se recorre quando a alma está suspensa na dúvida.
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(eu vagueio mais uma vez, fantasma sopro-de-brisa, por entre quem não me pressente. é uma missão tantas vezes obscura, tentar interferir na decisão de quem não me pode escutar. sento-me ao pé dela. ela ouve ao longe algo com o que confunde serem arpas divinas, superiores e ancetrais melodias de embalar. é bom sinal. ela está em contacto com o meu mundo. desse modo é mais fácil alertar a rapariga do comboio [hoje em viagem de regresso de avião de copenhaga]. os perigos nunca espreitam a quem está protegido por um fantasma)
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desce os degraus e hesita em pisar o solo português. está muito calor. o ar é mais rarefeito e custa a inspirar uma golfada aliviante. caminha com a caixa de música na mão como uma recordação. não pode deixar de estranhar certa ideia que a invade. uma ideia que não sabe de onde vem. apenas sabe que a decisão está acompanhada do som das harpas.
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não a podemos seguir mais. segue um caminho que julga a fará afastar do destino. mas não sabe que ao tentar fugir irá tropeçar nele.

3 comentários:

S. disse...

tenho uma simpatia especial por este fantasma e por esta menina viajante...não a percas de vista para me contares o que a fez tropeçar :)

Fernando Pessoa disse...

por acaso era a última vez que ia escrever sobre esta menina viajante...mas porque te agradou o personagem (e a mim também, confesso) voltarei a ela um dia destes...

S. disse...

:)
Fico, então, à espera!