quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

a prosa - poesia ou o poder da escrita

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o remorso de baltazar serapião, valter hugo mãe, quid novi - 174 pp. (*****)
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e assim passou uma semana. deleitado sobre esta preciosa escrita roubada aos dedos mais escorreitos que li nos últimos tempos, debrucei-me com todo o cuidado para que nada me escapasse neste enredo que me chegou às mãos.
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a bem da verdade, merece ser destacado de facto o papel importante que a FNAC desempenha na vida cultural da cidade bracarense. eu pelo menos assisto com regularidade aos eventos que por lá passam. uma das apresentações recentes, que presenciei, foi a de valter hugo mãe. esteve a apresentar o seu livro galardoado com o prémio saramago. a apresentação foi interessante e ágil, de modo que prendeu até ao fim todos os que lá se deslocaram.
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a entrevista foi conduzida pelo paulo brandão, director do theatro circo, amigo do escritor, e a impressão que fica é a de uma tremenda humildade com que encara o público ou como se relaciona na hora de interagir com os leitores.
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a história de baltasar serapião, vivendo em tempo e espaço que, na minha opinião, poderia ser bem enquadrado neste século, e não só na idade média, mostra-nos o lado mais obscuro da vida em tempos difíceis. talvez seja assim mesmo, tal e qual ela é. o casamento com instituição, a escolha dos casamentos pelos pais, os senhores donos das terras e do trabalho dos serventes, a loucura da educação das mulheres numa época de pouca liberdade, o amor encarado das mais fortes perspectivas, e os remorsos de quem luta uma vida por um ideal e ele sai furado. no final ninguém ganha. toda a gente perde.
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aliás, no fim só ganha o leitor. a escrita leva-nos a apreciar este estilo prosaico, impregnado de poesia, recriando algumas formas de oralidade de há algum tempo perdidas. uma delicia pois então.
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queria deixar duas citações, das menos obscuras. pelo menos estas duas eu senti terem saído de um estado de inspiração maior.
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"[...] senti uma felicidade absoluta, uma felicidade infinita como se possível fosse que, ali no meio de nada e deitados para a solidão, estivéssemos no paraíso. senti uma felicidade assim, como se, ainda mais, fosse posível não querer ver os defeitos de uma mulher e amá-la e conservá-la para além do que deus queria. [...]" pp. 169
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"[...] sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício [...] haverá de se ter debaixo desta pedra uma mulher como se fosse uma própria núvem do céu, uma coisa muito leve sob o peso da pedra. muito leve mas forte, capaz de resisitir aos ventos. capaz de fazer tempestades. [...]" pp.73
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e termino dizendo que a literatura portuguesa tem muitos e bons nomes. eu prefiro a literatura portuguesa.

3 comentários:

Teté disse...

Não conheço o escritor, mas está-me cá a parecer que tu gostas de histórias assim um pouco a dar para o soturnas, não?

Nada de mal, cada um tem os seus gostos, certo?

Teté disse...

Já te perguntei: as estrelinhas são de 0 a quanto?

Fernando Pessoa disse...

:)

gosto de histórias como normalmente elas acontecem. mas há quem não goste deste género.

o valter hugo mãe ganhou com este livro o prémio saramago deste ano.

as estrelas vão de 1 a 5 (o zero não existe, não leio zeros :)