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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Mãe [4]

[651]

veste o casaco axadrezado, sai comigo à rua.
vamos ver os carros devagar a descer e nós a correr,
de mãos dados, p'ra que nunca me fujas.

veste esse vestido roxo, traz um xaile de malha.
vamos ver aquelas árvores onde me seguro e baloiço
e me empurras com as minhas pernas esticadas.


lembras-te de quando me dizias, que isto era muito dinheiro,
e mesmo antes de te atormentar o coração, já eu te dava a mão,
para sairmos em busca do que não se compra.

pousa sobre as pernas a tua manta cor de rosa,
agasalha os dias que passamos em uníssono, e onde o cordão
era apenas a peça em falta na união perfeita.

veste esse sorriso de amor.

Mãe [3]

[650]

mãe,

quando ainda não chegava à tua cintura,
nem mesmo em bicos de pés, esticado
a pedir a tua atenção, esticado
e agarrado à tua saia,

mãe,

quando ainda não chegava aos pés,
nem mesmo com a força da manhã, olhava
a tua dedicação minuciosa, olhava
e sentia o chão frio,

mãe,

e quando me calçavas as meias e os sapatos, mãe?

(30/01/2008 12h06)

Mãe [2]

[649]

e nas manhãs que acordavas sonolenta,
e naquelas horas de correria,
nos momentos mais ariscos e sérios,
tu ainda sorrias.

(30/01/208 11h45 a.m.)

Mãe [1]

[647]

que tormentos e dores me dás minha mãe.

carrego comigo o teu peso em suspenso, dias
a fio sustendo no peito os desafios, dias
próximos da hora da tua chegada, dias
em que nasças de mim.

dar-te à luz de mim, assim dada
a ver este mundo de rudeza e suor,
carrego o peso do teu crescer.

que tormentos e dores me dás minha mãe.

embalo-te em noites frias de inverno, eu
só, na busca do sono que tenhas em sossego, eu
só, enxugando lágrimas incónitas, eu
só, para o amparo da solidão.

porque me choras assim, destreza de grito?
porque insiste em segurar-me a mão?
porque queres nascer de novo em mim?

que tormentos e dores me dás minha mãe.

pudesse eu ser a tua força encarnada
e este meu delírio invertido não seria mais
que o desejo de te tirar a terra de cima,

que tormentos minha mãe.

(29/01/208 23h30 p.m.)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

a prosa - poesia ou o poder da escrita

[591]

o remorso de baltazar serapião, valter hugo mãe, quid novi - 174 pp. (*****)
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e assim passou uma semana. deleitado sobre esta preciosa escrita roubada aos dedos mais escorreitos que li nos últimos tempos, debrucei-me com todo o cuidado para que nada me escapasse neste enredo que me chegou às mãos.
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a bem da verdade, merece ser destacado de facto o papel importante que a FNAC desempenha na vida cultural da cidade bracarense. eu pelo menos assisto com regularidade aos eventos que por lá passam. uma das apresentações recentes, que presenciei, foi a de valter hugo mãe. esteve a apresentar o seu livro galardoado com o prémio saramago. a apresentação foi interessante e ágil, de modo que prendeu até ao fim todos os que lá se deslocaram.
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a entrevista foi conduzida pelo paulo brandão, director do theatro circo, amigo do escritor, e a impressão que fica é a de uma tremenda humildade com que encara o público ou como se relaciona na hora de interagir com os leitores.
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a história de baltasar serapião, vivendo em tempo e espaço que, na minha opinião, poderia ser bem enquadrado neste século, e não só na idade média, mostra-nos o lado mais obscuro da vida em tempos difíceis. talvez seja assim mesmo, tal e qual ela é. o casamento com instituição, a escolha dos casamentos pelos pais, os senhores donos das terras e do trabalho dos serventes, a loucura da educação das mulheres numa época de pouca liberdade, o amor encarado das mais fortes perspectivas, e os remorsos de quem luta uma vida por um ideal e ele sai furado. no final ninguém ganha. toda a gente perde.
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aliás, no fim só ganha o leitor. a escrita leva-nos a apreciar este estilo prosaico, impregnado de poesia, recriando algumas formas de oralidade de há algum tempo perdidas. uma delicia pois então.
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queria deixar duas citações, das menos obscuras. pelo menos estas duas eu senti terem saído de um estado de inspiração maior.
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"[...] senti uma felicidade absoluta, uma felicidade infinita como se possível fosse que, ali no meio de nada e deitados para a solidão, estivéssemos no paraíso. senti uma felicidade assim, como se, ainda mais, fosse posível não querer ver os defeitos de uma mulher e amá-la e conservá-la para além do que deus queria. [...]" pp. 169
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"[...] sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício [...] haverá de se ter debaixo desta pedra uma mulher como se fosse uma própria núvem do céu, uma coisa muito leve sob o peso da pedra. muito leve mas forte, capaz de resisitir aos ventos. capaz de fazer tempestades. [...]" pp.73
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e termino dizendo que a literatura portuguesa tem muitos e bons nomes. eu prefiro a literatura portuguesa.

sábado, 8 de dezembro de 2007

a minha é melhor que a tua (II)

[499]

por razões comerciais ( este mês já por si vende muito) não se comemora como deveria ser o dia da mãe.
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para mim dia da mãe é hoje. e por isso comemoro o dia da minha mãe hoje. o dia da melhor mãe do mundo. o dia da mãe que é melhor que a vossa.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

a minha é melhor que a tua

[482]

«Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz.»*
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* - Eugénio de Andrade, Poema à mãe
via [luz acesa]
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tenho a convicção que a minha mãe é a pessoa mais injustiçada do mundo. acho que até ao fim da minha vida não poderei pagar tudo o que fez e faz por mim.