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segunda-feira, 1 de junho de 2009

zöe [19]

[1703]

não te chateies comigo. bem vês como me esforço, mas a escrita é como uma necessidade exterior às coisas, às causas. agora não há coisa nem causa.
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refiro-me ao espaço que nos rodeia. se deixa de ser pesado, se ele se torna fresco e arejado, já não precisas das palavras como oxigénio, não sentes a página em branco como um cadafalso, mas como um silêncio obrigatório.
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a culpa é tua. és como aquela música do carlos do carmo, um verso em branco sem medida. e eu não quero terminar este poema.
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domingo, 12 de abril de 2009

zöe [17]

[1642]
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Se eu não te amar mais me
Caia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que me tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento
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António Lobo Antunes
via [momentos consentidos]

sábado, 11 de abril de 2009

equações da sandice [8]

[1641]

se fosse um super-herói estava encontrada a minha criptonite, o amor claro.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

equações da sandice [6]

[1626]

é absolutamente incrível como às vezes esvazio o meu cérebro, ou pelo menos a parte operacional dele, aquela que nos faz encomendar as terefas diárias, organizar o tempo e descobrir as maravilhas perceptivas do mundo. é impressionante como saltamos de um lado para o outro, sem no entanto nos apercebermos, e nos vemos desarmados de ideias, recursos ou mesmo uma opção válida.
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lembro-me agora de um exemplo estranho. quantas vezes abri a porta do frigorífico e me vi como num deserto, sem ter a mínima ideia do que lá ia fazer? e pior consequência é quando subimos umas quantas escadas para executar uma tarefa e, só no topo do esforço, nos esquecemos por completo do que íamos fazer. é como um clique de um interruptor de luz. estamos a olhar para o que queremos fazer e a acção não se completa sem a reacção.
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depois pensas no que está a bloquear a acção. olhas para o teu próprio cérebro e só há uma luzinha estranha ao fundo, ilumina ténue e estranhamente o espaço. uns quantos papéis a esvoaçar, uns post-its ao dobrar das esquinas e um pouco de pó já varrido e pronto a ser despachado. e depois nada. não há mais nada.
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não me parece mau, até porque é sinal de que nos ocupamos de outras matérias, e no meu caso são, neste momento, muito mais importantes que qualquer frigorífico.
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segunda-feira, 30 de março de 2009

zöe [16]

[1621]

fac-simile

eis finalmente a perfeição:
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o teu corpo como lombada,
e os braços capa dura,
das páginas da minha vida.
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quinta-feira, 26 de março de 2009

zöe [15]

[1615]

e eu a perder tempo. sempre na procura da definição simples para esta ansiedade. e era tão fácil.
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" [...] é tão ruidosa a existência de alguma coisa que começa [...] "
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o teu ontem foi o meu amanhã

[1614]

o azul refresco está pisado pelo verde escuro das copas frondosas. arredondadas e de limite esbatido, a silhueta do corpo das árvores (porque me agarras assim as mãos se é ainda cedo para ir embora?) resume-se ao alongar do espraiado da cor. o pássaro que nela se repousa, mesmo que não se veja, tem o canto lúbrico que não se confunde nestas cores garridas.
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este frémito corropio de sensações não é de água tépida mas de espuma maremótica. mas não me largues as mãos porque as árvores não fogem e o amanhã ainda fica longe da eternidade.
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a urgência do eterno

[1613]

nunca é demais exigir o tempo-vital. assusta-me a falta de eternidade, aliada à premissa da morte como dado adquirido. partindo do princípio de que estamos de agulhas acertadas nisto, passemos então a questionar o que nos faz falta para sermos felizes.

de mim sei eu, e cada um sabe de si. ao ler saramago (coisa que pouca gente faz, mesmo que seja um autor que vende como pão) apercebo-me que estou a atirar para os meus pés o peso do que deveria exigir apenas no futuro. deveria concentrar-me apenas no amanhã. tão simples como descascar uma cebola sem chorar.

" [...] Ora, enquanto se acaba e não se acaba o mundo, enquanto se põe e não se põe o sol, por que não nos dedicaremos a pensar um pouco no dia de amanhã, esse tal em que quase todos nós ainda estaremos felizmente vivos? Em vez de umas quantas propostas arrojadamente gratuitas sobre e para uso do terceiro milénio, que logo ele, mais do que provavelmente, se encarregará de reduzir a cisco, por que não nos decidimos a pôr de pé umas quantas ideias simples e uns quantos projectos ao alcance de qualquer compreensão? [...] "

via [o caderno de saramago]

um dia vou conseguir desligar esta minha forma de viver agarrado ao futuro, hei-de desacorrentar-me da máxima que vigora no meu palimpsesto, a de que tudo o que faças hoje terá consequências inevitáveis no futuro. que se lixe o futuro, a partir de hoje viverei apenas a pensar no amanhã.

mas eu sei é de mim. e cada um sabe de si.

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terça-feira, 24 de março de 2009

zöe [14]

[1608]

alastrava-se lentamente como uma lavagem de água tépida na pele. assim mesmo descrito, assim mesmo sentido, conquanto se possa admitir que as sensações dissimuladas no tempo se possam perder na essência e na acutilância da verdade. mesmo assim arrisco dizer que era assim mesmo, como água tépida na pele. depois desses dias não mais poderia disfarçar as mudanças mais que óbvias dos meus sentidos, mais apurados, vigilantes ou sensoriais.
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deixando de lado os dados empíricos, sobrepostos nas camadas do tempo-experiência, que formam a plataforma necessária para caminhar seguro nestes dias, circulo apenas nas margens desse conhecimento, sem medo de molhar os pés nessa água tépida do amor.
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sexta-feira, 20 de março de 2009

zöe [13]

[1600]

E chamava-lhe amor como quem atira palavras aos pássaros.
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anáfora, ana salomé (pp. 23)

terça-feira, 17 de março de 2009

ademanes e amofinações de um homem feliz

[1594]

é horrível a matéria. ter de tocar estes assuntos aflige-me a alma. chateia-me. não gosto de repetir que me sinto um homem de sorte - já dou aqui de borla as coisas das quais ninguém imagina o peso - correndo o risco de me pintarem como um pedante do destino.
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a verdade é que me acorrento às minudências da vida como se elas fossem os solavancos imprescindíveis à evolução. o conceito que eu tenho de felicidade está tão próximo de banal que me questiono tantas vezes se não estarei a enganar-me. sabem, as respostas chegam cobertas da mesma certeza, o que eu sinto é a urgência do tempo, e como não o posso parar ou abrandar, o melhor é mesmo aceitar.
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mas mais do que a proximidade da não-resposta permanente para o que é a felicidade, eu alinho em apreciar o que tenho na verdade. querer mais permanentemente falseia a realidade, denigre a conquista, deprecia o valor do que tens em mãos, distancia-te do real, eleva-te ao estado amofinado e de enfado.
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(interrompo este pensamento só para vos aconselhar este magnífico blog, da fátima rolo duarte. se alguém me mostrar um único blog em portugal que seja melhor que este, no seu global, na estética, grafismo, texto e criatividade, fico muito agradecido)
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como dizia, custa-me falar sobre a minha facilidade em aceitar contratempos. estou demasiado moderado para reclamar ou para protestar. ainda hoje me avariou o carro a caminho do trabalho, e eu o que faço? ponho o rádio mais alto e fico a ouvir boa música enquanto espero pelo meu mecânico, de sorriso largo - e colete reflector - mas com a bonomia de quem já não trabalha para as úlceras nervosas. e o que não tem remédio, remediado está (garanto-vos que há uns anos atrás era capaz de dar três bons pontapés ao carro, dizer todos os nomes feios do dicionário, e ainda exigir a presença do santo-ofício para julgar as trinta putas que me amaldiçoavam) hoje sou incapaz de dizer a palavra putas.
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é horrível a matéria. aceito que haverá quem diga que se tenho sorte era difícil sentir-me de outra maneira. pois é meus caros, a razão assiste ao argumento que exponho a seguir. eu acredito na teoria da compensação universal (isto não existe na wikipédia, acabei de inventar o título - embora se pudesse chamar teoria boomerang) ou seja, de cada vez que nos acontece algo de mau, o universo vai-se encarregar de te repor com algo bom (venham de lá os destiladores de ódio ao esoterismo paulo coelho destas minhas palavras).
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o que olho a medo é para os momentos em que decidi a minha vida e nem sequer me apercebi da importância do que me acontecia nesses momentos. felizmente a imprevisibilidade dos acontecimentos ordena-se de forma positiva para mim. e se hoje não tenho palavras para o momento subime que vivo, é porque a minha teoria está correcta.
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sexta-feira, 13 de março de 2009

zöe [12]

[1589]

à mais bela mulher daquele mundo
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podia comprar um espelho mágico
para lhe dizer
da beleza que carrega.
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prefere que seja eu a repeti-lo todos os dias.
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quarta-feira, 11 de março de 2009

zöe [11]

[1578]

Para mim o
amor
fica-me justo
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Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro.
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Maria Teresa Horta, Só de Amor
via [abnoxio]
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

zöe [6]

[1553]
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perdi-me de novo nessa longínqua batalha
em que os teus olhos me urdiam um fim
avassalador de tremores de terra, com as mãos
desunidas pelo caminho a encolher na manhã.
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já nem vou de espada em punho. corto os
destinos em fatiados. a palavra proibida desenha-se
para não sangrar o medo antecipado, com ridículos temores
hoje amaciados pelos aromas de um orvalho verde-escuro.
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esta é a força bruta de um coração que se perfuma em ti.
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

zöe [5]

[1551]

há qualquer coisa no quadro de velázquez, no seu jogo de sombras - ou de luz? o que sobressai, a causa ou o efeito? - que me deixa intrigado. há um jogo de espelhos, há um reflexo de uma imagem num espelho de fundo, quase fotográfico de tanta precisão, que nos lembra a vida como tantas vezes a apreciamos, um palco. há o real e o observado.
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não sei se a luz intensa do corredor principal do museu me tolheu a versatilidade da observação, mas o certo é que há algum tempo que estou parado perante esta obra prima de velázquez. estarei porventura a procurar-te no espelho, como se de alguma forma, e através dos meus olhos, o meu interior se pudesse reflectir neste espaço e tu te anunciasses presente a qualquer hora.
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